Sessão Especiais
Escreva pra gente
Comente
13.11.08
Nossos leitores comentam o GP do Brasil
Nossos leitores comentam o GP da China
Opiniões e Dúvidas dos Leitores
18.12.08
Cartas - Segunda quinzena de Dezembro
Cartas - Primeira quinzena de Dezembro
Friends
05.12.2008
Ouro, prata, bronze
Biografia de uma ultrapassagem
Pergunte ao GPTotal
Julho
Um maluco, dois tristes
Sobre tamanhos e ultrapassagens
mais
15.12.08 - Luis Fernando Ramos
Viva a crise
12.12.08 - Alessandra Alves
Carta ao editor
10.12.08 - Roberto Agresti
Soichiro triste
19.12.08 - Eduardo Correa
O site é de vocês, leitores!
27.10.08 - Luiz Alberto Pandini
Micos brasileiros III
mais
17.12.08 - Ricardo Divila
Ingo, grande Ingo
Grande respeito!
01.12.08 - Ernesto Rodrigues
Lastro ou nitro?
Bate neles, Rubinho!
mais
12.03.06
Confira a classificação
12.03.06
Pilotos e Equipes
mais
Home » Especiais » Bernardo Souza Dantas 
O 1º brasileiro nas 24 Horas de Le Mans
01 | 02
- Aonde o senhor nasceu?
- Eu sou brasileiro mas nasci na França, de pai brasileiro e mãe francesa. Nasci em Paris, no dia 26 de junho de 1912. Meus documentos brasileiros têm o nome Bernardo Manoel Pedro de Souza Dantas, mas na França eu sou registrado como Bernard Manoel Pierre. Eu me apresento às pessoas como Bernardo.

O Hotchkiss de Georges Macedo e Bernardo Souza Dantas.
- Quando o senhor veio morar no Brasil?
- Quando tive esse problema financeiro. Depois eu completei a minha escola de engenharia, sou engenheiro aeronáutico. A guerra (Segunda Guerra Mundial) estava se aproximando e todo mundo sabia disso. Em 1937, 1938, Paris estava um caos. Eu comecei a trabalhar numa empresa que fabricava os motores para todos os aviões militares franceses. Aí chegou a guerra e eu estava trabalhando na fábrica. Os alemães entraram na França, ocuparam todo o país e fecharam a fábrica. Eu não podia fazer mais nada lá em Paris. Estava sem dinheiro, sem trabalho e pensei: “Daqui a pouco o Brasil vai entrar em guerra e eles vão me colocar num campo de concentração. Vou embora para o Brasil”. Cheguei aqui em fins de 1940.

- E como o senhor acompanha o automobilismo hoje? O senhor gosta de ver corridas na televisão?
- Sim, sempre gostei. Conheci alguns corredores e sempre gostei. Aqui no Brasil, eu entrei numa corrida que se chamou Prova Presidente Getúlio Vargas. Foi em 1941. Eu era o acompanhante de um amigo, Georges A. Macedo, e o carro era um Hotchkiss.

- Foi em Interlagos?
- Não. Foi nas estradas, que naquela época eram quase todas de terra. Eu entrei nessa prova. Foi uma aventura extraordinária. Quem ganhou foi o Juan Manuel Fangio. (N. do A.: nessa época, Fangio era pouco conhecido fora da Argentina.)

Livreto de bordo dos concorrentes do GP Getúlio Vargas, em 1941.
- O senhor lembra qual era o percurso?
- Lembro, eu tenho a caderneta. (N. do A.: Souza Dantas entrou na área íntima do apartamento e voltou com a caderneta da prova e algumas fotos. A caderneta servia também para anotar os horários de largada e chegada dos carros pelos postos de controle. A largada aconteceu no Rio de Janeiro. Os pilotos foram para as cidades de Belo Horizonte - Bello Horizonte, na grafia da época -, Uberaba, Goiânia - Goyania, na época -, Barretos, Poços de Caldas, São Paulo e novamente Rio de Janeiro. Depois de alguns minutos, retomei o fôlego.) Foi que nem um rally... Isto (mostra a caderneta) é histórico...

- Sem dúvida, é um documento valioso.
- Só que de rally não tinha nada! Era corrida mesmo.

(Apontando a foto) - Que carro era este, senhor Bernardo?
- Era um Hotchkiss que eu comprei no Rio para fazer essa corrida. Só que não tínhamos idéia do que íamos enfrentar. Então eu comprei um carro muito baixo, que em condições normais nos daria mais vantagem. Só que em certos lugares da estrada o carro não podia entrar.

- E quem era o seu acompanhante?
- Era um amigo meu, o George Macedo (N. do A.: Georges A. Macedo, de acordo com a caderneta). Era fabuloso. Nós dirigíamos 6 a 7 horas direto.

- Como foi essa corrida?
- Nós completamos o circuito mas não fomos classificados, porque numa etapa entre Uberaba e Goiânia nós levamos tanto tempo para chegar que o controle já havia fechado. Fomos desclassificados. Depois nós continuamos disputando as etapas, mas não marcaram mais. Você pode ver aqui (mostra na caderneta) que na 1ª etapa levamos 7 horas e 45 minutos. Naquela época, a estrada entre Rio de Janeiro e Belo Horizonte era como você está vendo na foto, de terra e cercada pela mata. Largamos às 9:32 horas e chegamos às 17:17 horas. Ficamos em 13º lugar. Na segunda etapa, ficamos em 12º lugar. Saímos às 8:19 horas e chegamos às 17:19 horas. (Na terceira folha, etapa Uberaba-Goiânia, consta somente o horário de saída - 8:11 horas. A partir daí, todos os espaços destinados às marcações de tempo ficam em branco).

Souza Dantas e o Hotchkiss na Prova Getúlio Vargas.

- Não tinha parada? Era direto?
- Só parávamos para abastecer. E não havia nada preparado: você tinha que escolher o lugar para parar.

- Os carros de corrida abasteciam em qualquer posto?
- Posto? Naquela época tinham poucos. Era no mato mesmo. Essa foi minha última corrida.

- Hoje em dia o senhor gosta de ver corridas?
- Eu assisto todas as que puder ver na televisão. Antigamente eu até ia a Interlagos, mas agora não mais. Agora, paralelamente ao automobilismo, tem a aviação.

- O senhor gosta muito de aviação...
- Em 1935 eu já pilotava avião.

- Fazia parte da Força Aérea ou de alguma companhia?
- Nem uma coisa nem outra. Eu comprei um avião na Inglaterra e levei-o para Paris. Eu voava, mas com os problemas financeiros fui obrigado a vender o avião. Como eu era formado em Engenharia Aeronáutica e trabalhei numa fábrica de motores, aqui no Brasil eu logo entrei numa companhia de aviação para manutenção. Eu fui superintendente de manutenção da Navegação Aérea Brasileira.

- Nunca ouvi falar dela. Essa companhia virou alguma outra?
- Ela faliu. Começou pequena, cresceu um pouco e faliu durante a guerra. Foi comprada pela Panair. Depois eu entrei na Varig. Fiquei 20 anos lá, como engenheiro. Aí, um belo dia eu resolvi fazer uma aviãozinho para eu voar.

- É esse avião que está lá embaixo? (O sr. Bernardo já havia falado dele antes de ligarmos o gravador. O avião fica guardado em uma garagem fechada do prédio, com as asas desmontadas. O carro do sr. Bernardo, um Chevrolet Opala, fica sob um abrigo, em frente à porta da garagem.)
- É esse avião que está lá embaixo. Eu terminei ele, voei nele e caí com ele.


- Caiu????? (espantado)
- Caí e estou refazendo-o.

- O senhor caiu com o avião??? (Eu ainda achava que não havia entendido direito...)
- Eu decolei e o motor parou no ar. Aí eu caí.

- Caiu como? Pousou de emergência?
- Não, eu pousei duro. Eu quebrei o calcanhar e me machuquei. Não foi grande coisa.

- O senhor levantou vôo de onde? Do Campo de Marte?
- Não, do Campo de Amarange, em Campinas, onde fica o Aeroclube. Estou reconstruindo o avião e quero voltar a voar com ele.

Bernardo Souza Dantas e seu avião, em dezembro de 2002.
- E quando ele fica pronto?
- Ah, vai demorar uns anos... Caí em 1996, e estou reconstruindo desde essa época. E ainda faltam muitas coisas para ele ficar completo.

- Senhor Bernardo, qual é o seu parentesco com o embaixador Luiz Martins de Souza Dantas?
- Ele era meu primo-irmão.

- Ele era mais velho do que o senhor?
- Bem mais velho. Eu vou falar um pouco da minha família. O meu avô era o Senador Dantas...

- Quase todas as cidades brasileiras têm uma rua ou avenida com esse nome...
- É uma figura conhecida, pois ele ajudou a acabar com a escravatura. Foi Chefe de Governo várias vezes. Esse Senador Dantas, cujas condecorações estão aqui em casa, teve sete filhos e eu sou filho do sétimo, do caçula. O embaixador era filho do primeiro. Então há uma grande diferença de idade. Meu pai casou tarde com uma francesa em Paris. Quando eu nasci, o meu pai tinha 50 anos. Então tem uma grande diferença de idade entre eu e meu primo-irmão, o embaixador Souza Dantas.

- E o senhor tinha contato com ele?
- Freqüentemente.

- Ele salvou muitos judeus da perseguição nazista e foi perseguido por isso. O senhor chegou a sofrer alguma conseqüência por ser parente dele?
- Não. Nós vivíamos absolutamente separados. Ele morava na embaixada e eu morava na casa do meu pai. Depois o meu pai morreu e eu era moço ainda. Meu pai morreu em 1935, depois da corrida de Le Mans. Ele estava doente e eu o trouxe para o Brasil. Ele queria morrer na terra dele.

- O senhor falou que tinha muito relacionamento com os pilotos de Grand Prix da época. Como eram eles? Eles eram acessíveis?
- Os pilotos de Grand Prix sempre tiveram uma certa pose, mas não era que nem hoje em dia. O Chiron (Louis Chiron, piloto monegasco que venceu o GP de Mônaco em 1931, disputou etapas do Mundial nos anos 50 e depois atuou como diretor de prova no GP de seu país até sua morte, em 1979) era um esportista. Eu fazia muito esqui com ele. A gente ia para a Áustria no inverno.

- O senhor ganhou alguma competição?
- Antes de correr em Le Mans, consegui algumas vitórias e segundos lugares em provas de arrancada e de subida de montanha.

- Com o mesmo carro de Le Mans?
- Não, outro. Também era um Bugatti.

- Qual é a melhor recordação que o senhor tem dos tempos de piloto? Qual foi a sua grande corrida que o senhor lembra com carinho?
- Os melhores resultados foram mesmo nos rallies e nas provas de subida de montanha. Mas a grande corrida foi em Le Mans, mesmo sem ter um bom resultado. Era uma corrida muito importante, como até hoje.


01 | 02
Escreva pra Gente | Topo
 Colunas antigas de Especiais | Envie a coluna para um amigo | Voltar
anuncie | quem somos Apoio: Interactive Fan  |  Red Cube Tecnologia e Comunicação