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Cadê a festa ? 30.04.07


Lewis Hamilton é o melhor piloto estreante que a F1 viu em toda sua História e cadê a festa da mídia?

Comemorando o 2o lugar no Bahrein
O ano é 1993. Um jovem piloto brasileiro, recém-saído da F-3000 internacional estréia na Fórmula 1 com um terceiro lugar. Na corrida seguinte termina em segundo, resultado que repete na terceira etapa e se coloca na liderança do Campeonato Mundial de Pilotos de Fórmula 1. Pena que isso é um exercício de ficção, mas se fosse verdade, esse piloto – que poderia mesmo ser o Rubens Barrichello – seria elevado imediatamente à condição de melhor piloto de todos os tempos. Pelo menos no Brasil.

Pois foi exatamente isso que o inglês Lewis Hamilton fez na prática e o que leio na imprensa brasileira – sobretudo na especializada – é de uma frieza irritante que beira efetivamente a inveja (ou preconceito). Comentários do tipo “é uma ótima estréia”, “boa surpresa”, “novo ídolo”, mas não leio nada como “um novo gênio da F1”, “brilhante”, “espetacular”, etc.

O que está acontecendo, colegas?

Hamilton chega ao trabalho
Se alguém insinuar que Hamilton é um piloto “fabricado”, por conta da grana que Ron Dennis injetou na carreira dele, posso jogar na cara meia dúzia de exemplos de brasileiros que foram igualmente “fabricados” e que se mostraram verdadeiros cheques sem fundo na F1. Que tal começar por Christian Fittipaldi? Ou Pedro Paulo Diniz. Ou ainda o manauara Antônio Pizzonia, que recebeu verba de grandes empresas desde o dia em que sentou num kart pela primeira vez na vida. Lembro de receber press-releases de um certo Augusto Farfus que foi patrocinado pela Credicard para chegar à F1 e nunca foi além de espectador. Nenhum deles passou nem perto do gigantismo de talento e da impressionante humildade do pequenino Hamilton.

Abro os jornais brasileiros e não vejo nenhum perfil desse piloto negro genial como Tiger Woods e talentoso como o branquelo Michael Schumacher. Para saber mais da carreira dele tive de recorrer ao Google e buscar um perfil nos sites gringos. E pelos fóruns de F1 que visitei a ladainha é parecida: “também, ele estreou com o melhor carro da temporada!”. De fato, mas ao lado dele, bem ali, separado por poucos metros, tem o atual campeão do mundo a servir-lhe de parâmetro. Ele pode estar na melhor equipe, mas já sabugou duas vezes o colega que tem o título e a conta bancária de bi-campeão do mundo e que destronou Shumacher.

O melhor estreante da história da F1
Será que é só pela cidadania? Afinal, ele é inglês e nossa imprensa verde-amarelista de carteirinha não gosta de adular os estrangeiros. Mas acho que tem outro componente por trás de toda essa discrição. A cor da pele. Até hoje esse direito de se sobressair sobre os brancos no esporte estava restrito aos jogadores de futebol e basquete. Tiger Woods quebrou o tabu num dos mais elitizados esportes do planeta, o golf. Agora, Lewis Hamilton desbanca um monte de “promessas” da F1 e aparece no topo da categoria máxima, assim como um moleque travesso que rouba a bola, dá um chapéu e faz um gol de letra!

Os europeus estão acostumados aos jogadores de futebol negros, mulatos ou mamelucos que baixam por lá, traçam as mulheres européias, desfilam de Ferrari na Via Venetto, curtem as baladas de Montmartre mas fazem gol. Então podem tudo. Mas piloto de F1? Essa ninguém esperava. Nem lá, nem aqui no Brasil.

Hamilton testa na Malásia
Juro que esperava mais festa em glória e esse piloto que nem de longe lembra outro cheque sem fundo: Jacques Villeneuve. O canadense também estreou na melhor equipe da época, foi campeão do mundo, mas na hora de mostrar serviço naufragou titanicamente. Aliás, a Williams se especializou em fazer campeões de um só título: Nigel Mansell, Jacques Villeneuve e Damon Hill. E desde Jackie Stewart aprendemos que um piloto só é realmente campeão se faturar pelo menos um par de títulos.





Um dos meus passatempos de jornalista é visitar regularmente um site que mostra a primeira página dos principais jornais do mundo, confira: www.newseum.org/todaysfrontpages/flash

O público [clique para ampliar]
Fui ver como a imprensa mundial tratou o GP do Bahrein e percebi algo curioso. Além dos jornais ingleses, por razões óbvias, o único que publicou uma foto de Hamilton na primeira página foi o Público, de Lisboa, Portugal. A foto tem quase meia página e destaca a jovialidade do piloto: “O novo fenômeno da F1 é britânico e tem 22 anos!” está na capa do jornal. E ainda destacou: “o estreante inglês tornou-se o único estreante da história a subir no pódio nas três primeiras corridas que participou”. Essa nem eu sabia! Os italianos, claro, festejaram a Ferrari, não importa que piloto esteja no cockpit. E o resto do mundo tratou a F1 com a frieza que só Bernie Ecclestone tenta esconder.

Nesse garimpo achei o currículo do Lewis Hamilton, além de uma entrevista brilhante. Pra começar, ele ganhou tudo de kart, venceu corrida na F3 e na GP2. Ou seja, chegou à F1 por mérito e não pela grana da McLaren e da Mercedes. Na entrevista ele comenta o preconceito:

- Hoje em dia eu não perco tempo pensando “cara, sou o único moleque negro aqui!”. Mas na época do kart senti muito. No kart eram jovens, imaturos e é natural rejeitarem um estranho entre eles. Até que um dia decidi canalizar toda minha agressividade na pilotagem e dei a resposta a todos na pista!

Sobre Ayrton Senna:

- No dia que Ayrton Senna morreu eu estava treinando com meu pai. Minha madrasta chegou e disse “o Senna acabou de morrer”. Não queria demonstrar meus sentimentos na frente do meu pai, por isso fui pra trás do trailer e chorei. Esse dia marcou uma passagem na minha vida, eu mudei porque para um garoto de 9 anos o Ayrton era invencível, um super-herói e os heróis não perdem. Isso mudou minha forma de encarar as corridas.

O mais curioso ainda foi achar uma entrevista de Nigel Mansell na qual ele comenta sobre Lewis Hamilton. Segundo Mansell, “não vejo nada demais, ele entrou em uma equipe fantástica e foi muito bem preparado para pilotar um F1. O Ayrton Senna também subiu ao pódio 3 vezes na sua primeira temporada e a corrida de Mônaco entrou para a história, tudo isso com um Toleman!”. À parte Mansell elogiar Senna, essa declaração comprova aquele adesivo que vejo na traseira de várias Kombis velhas: “a inveja é uma m...!”.

Só sei de uma coisa: imagine se um americano daqueles mais segregacionistas, estilo Ku Klux Klan, fosse congelado nos anos 50 e descongelado hoje. Veria o seguinte cenário: o melhor jogador de golf do mundo é negro, o melhor rapper é branco (Eminem) e a grande promessa da F1 é negro.

O cara voltava pro congelador!





E o mundial de MotoGP?

Depois de a Ducati ter feito uma festa na abertura com a espetacular vitória de um australianinho de 22 anos, Casey Stoner, tudo voltou ao normal. Valentino Rossi já botou ordem no mundial, ganhou corrida e lidera a tabela.

Ah, Alexandre Barros voltou, viu! Alguém notou? Ele está em uma equipe satélite correndo de Ducati e continua tomando 8 décimos de segundo dos primeiros. Na MotoGP 8 décimos é uma eternidade e eu esperava sinceramente que Barros pendurasse o capacete numa boa, sem se expor tanto. Ano passado ele correu de Superbike, com uma Honda da equipe Team Kate. Reclamou pra caramba da moto, da equipe, da falta de estrutura etc. Só que James Toseland está liderando o atual campeonato mundial de Superbike e adivinhe por qual equipe? A mesma team Kate, com a mesma moto...

E desculpem a longa ausência – putz ninguém nem percebeu – mas estava empenhado no site Motonline. Aliás, se vc ainda não sabe, meu livro de crônicas já está á venda lá no www.motonline.com.br. Algumas delas você já conhece porque foram publicadas aqui no Gepeto, mas tem várias inéditas!

Tite

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