Mesmo chamado de medíocre pela imprensa italiana, o americano Nicky Hayden tornou-se o primeiro piloto a derrotar Valentino Rossi nos últimos cinco anos!
Nicky Hayden
Assim que recebeu a bandeirada de chegada em terceiro lugar no GP da Comunidade Valenciana, conquistando seu primeiro título mundial, aos 25 anos, Nicky Hayden desabou a chorar como um bebê. Afinal, 14 dias antes, no GP de Portugal, ele fora abalroado pelo seu companheiro de equipe Dani Pedrosa e perdera a liderança do campeonato. Durante 13 dias e algumas horas Hayden teve de conviver com uma pressão capaz de destruir o mais frio dos heróis. Antes do GP de Portugal ele tinha 13 pontos de vantagem para Valentino Rossi, depois ficou 8 pontos atrás.
Pela primeira vez nos últimos 13 anos o mundial de Motovelocidade na categoria principal foi decidido na última corrida. Quem não está acostumado a filmes de suspense deve ter passado mal durante este final de campeonato. Valentino Rossi não teve um ano muito regular e pode creditar ao espanhol Toni Elias boa parte desta honrosa derrota. Logo na etapa de abertura, na África do Sul, ele foi derrubado por Elias na primeira curva. Para complicar ainda mais, durante essa temporada Vale foi obrigado a abandonar em três etapas (China, França e Estados Unidos) por quebra de sua Yamaha, algo muito raro no mundial de MotoGP. Quando chegaram ao GP da República Checa, Hayden tinha 51 pontos de vantagem sobre Rossi. Em cinco etapas Rossi reverteu a situação, acumulou 101 pontos contra 42 de Hayden e passou o americano em oito pontos.
Diante dessa recuperação ninguém duvidava que Valentino levasse seu sexto título consecutivo na MotoGP, mas tinha um certo Toni Elias no caminho. A última volta do GP de Portugal foi pra acabar com o coração e os nervos de qualquer um. Se você não assistiu, não chore, e confira no link do youtube.
Valentino Rossi liderou praticamente a corrida inteira, mas deu um pequeno vacilo, coisa mínima, ao se esquecer que Toni Elias pesa pouco mais de 50 kg e que isso representa uma imensa diferença em saída de curva. Assim Elias cruzou à frente de Rossi a apenas 0,002 segundo. Isso mesmo, menos que uma piscada de olho! Ao terminar em segundo lugar o GP de Portugal, Rossi jogou cinco pontos pela janela. Agora adivinha qual a diferença de ponto entre ele e Hayden ao final do campeonato: cinco pontos! E em caso de empate, o título ficaria com o italiano pelo maior número de vitórias: 5 a 2!
Toni Elias, o vencedor em Portugal
Ou seja, nem Hayden, nem Rossi. O personagem que decidiu o título mundial da MotoGP em 2006 chama-se Toni Elias, espanhol de 23 anos e co-responsável pelo surpreendente resultado do campeonato. Justiça seja feita, no GP da Comunidade de Valência, última etapa, o dono da bola foi o australiano Troy Bayliss. Ele é um caso tão raro no motociclismo que merece uma explicação bem detalhada. Começou a correr de moto aos 22 anos de idade, ou seja, quando a maioria já está disputando o mundial. Foi campeão inglês de superbike em 1999, fez algumas boas provas do AMA superbike americano - considerado um dos mais difíceis do mundo - e estreou no mundial de superbike em 2000 para ser campeão mundial no ano seguinte. Em 2003 foi correr de MotoGP na Ducati, ao lado de Loris Capirossi e ajudou a desenvolver a primeira Ducati da categoria. Continuou na Ducati em 2003, mas sem se adaptar à nova moto decidiu trocar pela Honda e foi companheiro de equipe de Alexandre Barros em 2004 na Honda, mas ao final de 2005 decidiu voltar às origens e nesta temporada de 2006 foi para a equipe Ducati no mundial de superbike e venceu 10 baterias para ser campeão antecipado.
Vale em foto de 2004
Para azar do espanhol Sete Gibernau, que fez uma temporada ridícula na MotoGP de Ducati e ainda se estabacou no GP de Portugal, Bayliss recebeu e aceitou o convite para substituir o espanhol nesta última etapa. Montou na moto, fez o segundo tempo nos treinos, venceu de ponta a ponta para enterrar de vez a carreira de Sete Gibernau e ainda deu uma cutucada sutil nos pilotos da MotoGP ao afirmar "podem ficar sossegados porque não pretendo voltar à MotoGP, vou deixar os jovens se divertirem". O australiano de 37 anos pode ser um tremendo talento, mas foi ele que vetou a contratação de Alexandre Barros para correr de Ducati no Mundial de Superbike em 2007. Quanto a Gibernau, anunciou sua aposentadoria aos prantos... Tadinho!
Volto à corrida de Valência. Tudo que Rossi não poderia fazer nesta última etapa era errar. E de cara errou duas vezes. A primeira na largada, quando deixou a moto empinar e perdeu toda vantagem de largar na primeira posição. Passou a primeira volta em sexto lugar e ainda perderia mais uma posição. Na cabeça dele estava tudo sobre controle, afinal, Hayden estava em terceiro lugar e Valentino poderia terminar até sétimo que ainda assim seria campeão. Mas na terceira de 30 voltas aconteceu o segundo erro: acelerou antes da hora e caiu. Voltou e ainda terminou em 13º lugar. Com o terceiro de Hayden e o 13º de Rossi o americano foi campeão com 5 pontos de vantagem, aqueles mesmo 5 pontos que ele perdeu por 0,002 segundo na etapa de Estoril. Ah, o destino...
Hayden, Valentino e Melandri recebem premiação pelo campeonato de 2005
Hayden tinha motivos de sobra para chorar muito. A imprensa italiana passou o ano inteiro classificando o americano de medíocre, só que esse medíocre, campeão americano de superbike aos 20 anos, mostrou que vem de uma linhagem muito especial. Filho de ex-piloto, tem dois irmãos também pilotos e um de seus admiradores é ninguém menos que Michael Jordan, o astro do basquete americano. E os italianos tiveram de engolir o fato de que sob a pressão da primeira verdadeira decisão de Valentino Rossi, na pista, o piloto italiano perdeu o controle, enquanto Hayden mostrou uma frieza de carrasco.
Ao final da prova Hayden explicou que sempre se manteve sob total controle, mesmo quando o box sinalizou que Rossi estava em 20º e último lugar. "Pensei apenas em manter um ritmo e não deixar o Capirossi escapar", afirmou o americano conhecido como Kentucky Kid em homenagem à sua cidade natal. "Esse campeonato é algo que trabalhei a vida inteira e realizá-lo é realmente um sonho", completou. Seguindo a tradição americana, toda a família Hayden estava na pista, além do gigante Jordan. Por isso, Hayden fez a sua camiseta de campeão no estilo dos times de basquete americano.
Rossi admitiu em entrevista que errou, mas foi elegante ao cumprimentar Hayden e justificar: "Ele mereceu e posso afirmar que tivemos bons e divertidos duelos na temporada. Conheço bem o Hayden, toda a família e pela primeira vez decidi um título com um adversário que não é tagarela!". Valentino Rossi foi o primeiro companheiro de equipe de Hayden na MotoGP.
Agora é esperar por 2007, com as novas motos de 800 cm³, novo regulamento, novas equipes e um ano que promete muita emoção. Sem falar na volta de Alexandre Barros, correndo de Ducati com uma moto igualzinha à da equipe oficial.
Hayden em Assen
Barros teve um ano duro na Superbike em 2006. Entrou em uma equipe satélite, sem grana, na esperança de obter um patrocínio da Petrobrás, que nunca veio. Sem os controles eletrônicos de largada e de tração, Alexandre tomou na tarraqueta em quase todas as corridas, apesar de beliscar alguns pódios. Até chegar a penúltima etapa, em Imola e com uma tocada impressionante, Barros venceu uma corrida e foi segundo na outra (na superbike são realizadas duas corridas por etapa).
O convite da Dantin caiu do céu, porque será o primeiro ano da 800 e todas as marcas ainda estarão trabalhando no desenvolvimento das motos. Alex terá exatamente a mesma moto que o time oficial Ducati, formado por Loris Capirossi e Casey Stoner. É como se a Ferrari vendesse um carro igualzinho ao do Felipe Massa para uma equipe particular. No caso do Alexandre, ele terá a vantagem de contar com pneus Bridgestone, um tiquinho melhor que o Michelin em algumas pistas, mas MUITO melhor em outras.
Não arrisco nenhum palpite pra 2007, mas a Honda está numa situação difícil, pois queria fazer de Daniel Pedrosa o número 1 na 800, só que o Hayden vai levar o número 1 na carenagem em 2007, com o status de campeão do mundo. Na motovelocidade não existe essa frescura de ajuda entre pilotos e dentro de uma mesma equipe cada um cuida do seu fiofó. Valentino virá babando no macacão porque o cara acostumou a ser campeão do mundo e essa condição de vice lhe aperreia demais. Mas eu tenho fé na Ducati, porque justamente o excesso de potência era o maior problema da moto. Agora que baixou pra 800 pode melhorar a distribuição de potência. Uma coisa é certa: a rede Globo tá vacilando em não mostrar o MotoGP ao vivo no canal aberto, porque esse ano foi o mais sensacional dos últimos tempos.