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| » » » 11.08.06 |
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Caros leitores do Gepetotal. Primeiro desculpem minha ausência, mas as atribuições de editor, piloto de teste e meu primeiro livro me tomaram 100% do tempo. Semana passada quis escrever sobre a monotonia da Fórmula 1 e a eletrizante emoção da MotoGP. Jamais pensei que ouviria a frase "Não vou perder um domingo de sol pata ver corrida de F1" proferida pelo meu oráculo da F1, Pandini. Por isso até me perdoei por não ter visto as últimas 3 etapas do mundial de F1.
Mas o GP da Hungria redimiu a F1 e não fosse pela cada vez mais insuportável narração do Galvão Bueno, eu diria que foi uma das corridas mais emocionantes que vi nos mais de 30 anos que acompanho a categoria.
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| Da Matta no cockpit do Toyota |
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Mas não é sobre isso que quero escrever. Durante a corrida fiquei sabendo do acidente do Cristiano da Matta. O Galvão não pôde dar mais detalhes porque a rede Globo não menciona as outras categorias por causa de contrato com patrocinadores. Note que ele não falou se o acidente foi na rua, na pista, na escada rolante, simplesmente se limitou a falar que o mineiro encontrava-se em coma por ter atropelado um cervo.
Quando eu era adolescente li um livro editado pela Auto Esporte, escrito por
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| Jean-Pierre Beltoise com BRM em Mônaco 72, sua única vitória na F1 |
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Jean Pierre Beltoise, intitulado "É Proibido Morrer". Neste raro livro - se alguém tiver eu compro! - o piloto francês fez um relato emocionado sobre o automobilismo dos anos 70. No livro Beltoise mostrava a face mais cruel do automobilismo daquela época: os caras largavam e sabiam que qualquer um - inclusive ele - poderia morrer a qualquer momento. Foi praticamente uma sinistra premonição sobre o acidente em que ele se envolveu durante uma corrida em Buenos Aires e que provocou a morte de Ignazio Giunti. Até hoje tem gente que culpa Beltoise pelo acidente, como se acidentes em corrida tivessem culpados como uma batidinha na esquina de casa.
Nos últimos 3 anos perdi alguns amigos vítimas dos mais diferentes tipos de acidentes e de doença. Até no motocross, categoria que raramente provoca acidentes fatais, teve a baixa de um jovem brasileiro recentemente.
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| Roberta Nunes, em foto de Marcio Bortolusso, publicada no www.escalada.esp.br |
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Admito que estou velho. Quando ia a velórios sempre reparava que os mais velhos sofriam mais e isso foi explicado docemente por um avô: "Quando a gente envelhece a morte tem um peso maior na vida". Nada filosófico, nem original, mas agora percebo que cada vez fico literalmente puto da vida quando um jovem morre fazendo o que gosta. Meu amigo de 18 anos morreu em um acidente de bicicleta apenas duas semanas depois de tirar a tão sonhada carteira de habilitação. Meu colega de trabalho de 20 anos de idade comprou a desejada moto e morreu dois meses depois, vítima de um acidente cretino provocado por um motoboy idem. Mês passado, a mais importante escaladora brasileira, Roberta Nunes, morreu nos Estados Unidos, aos 34 anos, vítima de um acidente de carro (leia mais no link: http://www.escalada.esp.br/colunas/colunas_06a_2006.htm ). Um pouco antes, outro escalador, Vitor Negrete, morreu após atingir o cume do Everest, por edema pulmonar. E mais, meu amigo e ídolo Carlão Coachman, verdadeira enciclopédia do motociclismo, morreu de insuficiência renal.
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| Da Matta testando um Toyota em Paul Ricard |
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Agora essa notícia do Cristiano. Não acredito, não pode ser, me recuso a aceitar.
Ele não vai morrer. Nem terá seqüelas, porque a tecnologia de cirurgia cerebral é infinitamente maior do que vocês imaginam. Não se assustem com a expressão "coma induzido", porque é uma forma de manter o cérebro relaxado enquanto os coágulos são dissolvidos. Mas me irrita saber que uma das famílias mais admiradas e queridas do automobilismo brasileiro esteja passando por isso. Toninho da Matta é o cara mais emblemático do romantismo dos anos 70. Corria com um prazer indescritível tanto de monoposto quanto de turismo. Mineiro do bão mesmo! O filho, Cristiano soltou o verbo na F1, desandou a falar mal do carro e aprendeu que pilotos de F1 têm de ser mais mineiros do que ele.
Estamos cansados de ver filho de ex-pilotos competindo por aí. Alguns são fruto de uma forçação de barra evidente (vide Christian Fittipaldi). Outros são reflexo da natural admiração por um herói dentro de casa. Quem ainda não é pai não sabe o que significa isso, mas nossos filhos(as) são nossos fãs número um, independentemente de nossa atividade. Se o pai é torcedor fanático da Portuguesa, lá vai o filho, camiseta vermelha e verde, defender as cores do "time do pai". É absolutamente natural que uma criança que cresce vendo a galeria de troféus como a do Toninho da Matta só poderia se espelhar no exemplo do pai-herói. No entanto, muitos destes filhos naufragam na evidente falta de habilidade. Não é o caso de Cristiano, que mostrou não apenas acelerar de verdade, mas felizmente herdou o lado bom da mineirice do pai. Quando Cristiano corria de kart e vencia campeonatos minha caixa postal nunca foi inundada por press-releases, enviados por assessores de imprensa contratados por um pai babão. Toninho sempre se manteve a uma segura distância da carreira do filho. Um exemplo que deveria ser seguido por todos os pais ad eternum.
Acho que vocês não sabem, mas todo final de ano, os Da Matta reúnem os amigos em Belo Horizonte para um racha de mountain bike. Segundo meu amigo Bruno Magalhães (irmão do piloto de moto Bernardo Magalhães), a festa termina em churrasco na casa da família Da Matta. Por favor, digam-me qual piloto de F1 reúne os amigos pra se divertir dessa forma? Quando Ayrton Senna foi bicampeão (ou tri, não me lembro) fez uma festa em sua fazenda em Tatuí, mas tinha de apresentar credencial, passar por assessor de imprensa, segurança, como se fosse um GP de F1 no interior. Eu fui nesta festa e na entrada revistaram o porta-malas para ver se tinha algum "penetra" escondido, algo totalmente constrangedor, difícil de explicar para minha filha de 7 anos. Na saída passei o vexame de meu velho Opala ferver na frente de todo mundo.
Pilotos como os Da Matta não têm lugar na F1 cínica e desumana. Ainda bem!
Espero que Cristiano se recupere, volte aos amigos de Beagá, reúna a galera de mountain bike e mantenha sua simplicidade mineira para a alegria de todos nós. Cristiano, em nome do seu pai, Toninho, volte logo, cara!
Tite
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