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Coisas que me irritam 30.09.05
O mundo é cheio de coisas que me irritam profundamente. Até parece que as pessoas vieram ao mundo só pra me irritar. Por exemplo, quer coisa mais irritante do que velha fumando? Pô, a véinha tá quase morrendo de enfisema pulmonar, mas continua fumando, tossindo e catarrando na cara da gente. Outra coisa irritante é gordo pilotando motos. Que me perdoem os gordinhos, mas chega num ponto que a massa corpórea (gordórea?) não combina com a motoquinha que sofre debaixo de tanto peso. E, tecnicamente falando, é ilegal, pois as motos têm limites de carga que geralmente são desrespeitados. E a terceira coisa que me irrita é homem segurando bolsa de mulher em Shopping Centers, enquanto a patroa prova roupa. Dá vontade de chegar no cara, arrancar a bolsa e botar ordem na casa, do tipo:

– Qualé, mermão, não te deram educação de macho?

Gente que fala errado eu nem me importo muito, porque há muitos anos falar corretamente virou brega nos meios intelectuais brasileiros. A ética do Seo Craysson se espalhou por aí que nem catapora em jardim da infância. Pior ainda quando ouço erros primários saindo de boca de profissionais que têm o poder de difusão. Neste capítulo, venho fazer coro ao meu colega Gepetista, Ico, em seu artigo sobre as transmissões da F-1. Além do marasmo que a gente percebe em cada domingo de corrida, tenho de ouvir patadas do tipo:

– O piloto foi penalizado com stop & go!

Quem faz parada de box? "Você" ou o piloto?
O verbo penalizar significa sentir pena de alguém. Quando o Rodrigo França perde uma corrida da FIAK, por exemplo, eu fico penalizado, porque ele faz beicinho e quase chora. Quando o Kimi Raikkonen perde uma corrida por causa das shit rules, eu fico penalizado. Mas quando um piloto queima a largada ou xinga a mãe do outro, ele é PUNIDO! Ou seja, sofre uma punição e paga a punição com uma parada no box.

Um vício de linguagem que está na moda é o insuportável “eu, particularmente”. Os comentaristas da Globo adoram usar este símbolo máximo da hipocrisia, já que pressupõe a existência de vários “eus”. Por exemplo, o “eu coletivo”, que emite uma opinião na frente dos outros e o “eu particular”, que tem uma segunda opinião quando está “num particular”. Esta manifestação de personalidade de planária já contaminou várias pessoas, inclusive os entrevistados. Parece uma pandemia de esquizofrenia psicótica que leva as pessoas a desenvolverem várias personalidades, uma para cada ocasião, como se trocassem de roupas. Todo eu só pode ser particular, senão torna-se imediatamente “nós”.

Outra pérola da comunicação global é a transferência de sujeito. Você já ouviu a célebre frase do Galvão Bueno:

– Aí você tem de largar com tanque cheio e administrar... 

Você quem? Eu? Você, leitor? Ou o piloto? Uma vez uma amiga minha me ligou, reclamando:

– Ai, sabe estes dias que você acorda menstruada?

Quem está freando no limite? "Você" ou o piloto?
Na hora interrompi e argumentei que jamais tinha passado por esta rica experiência de acordar menstruado. Pelo menos que eu lembre, pois numa encarnação passada eu poderia ter acordado menstruado, com TPM, cólicas e até grávido. 

Esta “transferência de sujeito” é mais uma herança do american way of life, já que os americanos transformaram toda comunicação em manuais de auto-ajuda. Não existe mais sujeito em inglês, só “you”. Essa irritante mania já impregnou nossos jornalistas. Chega a ser engraçado ouvir o Galvão narrando:

– Aí você tem de frear no limite na entrada do box.

Eu estou em casa, sentado no sofá, tomando café e nem por sonho vou entrar no box.




A moto e o preconceito

Quando fui estudar jornalismo (amarrado e debaixo de porrada), já havia a eterna discussão sobre a validade do diploma. Os “diplomistas” alegavam que a faculdade dava uma base científica para evitar que os futuros escribas cometessem erros graves de senso-comum. Por causa desta briga toda fui obrigado a estudar textos de sociologia, antropologia, metodologia científica, pesquisa, análise de dados, estatística e um inferno de matérias. Tudo isso para não sair por aí escrevendo batatadas sem base científica.

E aprendi que conclusões sem base científica se tornam senso-comum e terminam no preconceito. O preconceito nada mais é do que formar um pré-conceito sobre um assunto sem a devida análise com base científica.

Tudo isso para dizer que nosso colega e amigo Flávio Gomes foi preconceituoso ao escrever em seu site warm-up que “motos são perigosas”. É uma afirmação leviana, uma vez que não tem uma base de dados para confrontar com outros veículos. Seria a mesma coisa que afirmar que negros são potencialmente criminosos porque a população carcerária brasileira é formada por mais de 60% de negros e mulatos, enquanto na formação da população eles representam 18%.

Aí alguém aparece com a melhor das pérolas “mas em São Paulo é muito maior o número de acidentes com motos, proporcionalmente ao número de carros”. É outra afirmação do senso comum, pois enxerga apenas um número e não a base científica que está por trás dos números, uma vez que não são realizadas perícias para levantar as causas destes acidentes. Volto ao exemplo dos negros: se analisarmos apenas os números, a conclusão falaciosa é que negros são mais chegados ao crime.

Os meios de comunicação estão caindo de pau em cima das motos. O porta-voz desta ignorante campanha chama-se Heródoto Barbeiro, ironicamente meu ex-professor de história da faculdade. Preconceituoso, dogmático e ignorante total no assunto, Heródoto faz questão de falar mal de motos diariamente, só que circula em São Paulo dirigindo sua perua Kombi, um veículo arcaico, poluidor e que existe em função de um lobby da VW para incluí-la como “veículo popular”.

Valetino começou nas motos tão cedo quanto Senna e Alonso no kart.
Mas o que me deixou mais triste na declaração do Flavinho foi com relação ao garoto de 9 anos, Antônio Chiari Filho, que venceu uma etapa do campeonato brasileiro de motovelocidade na categoria 125. O moleque é um fenômeno. Vi o garoto pilotando e lembrei imediatamente de um cara que também vi na adolescência e se chamava Ayrton Senna. O texto do Flávio é piegas ao afirmar que crianças não deveriam correr de moto nem de kart, mas empinar pipas, rodar pião, bicicleta e nheco-nheco. Hoje não teríamos Michael Schumacher, que começou a brincar na pista de kart do papi aos 4 anos. Ayrton Senna também começou a “brincar” aos 4 anos em um kart construído por seu pai, sr. Milton. Nem Valentino Rossi, que já corria de minikart praticamente recém saído do útero da mãe. Nem Alexandre Barros, que começou a correr de ciclomotor aos 6 anos e aos 14 já pilotava uma Yamaha TZ 250 a 250 km/h em Interlagos. Nem Pelé, nem Daiane dos Santos, nem qualquer grande atleta, esportista ou piloto, já que nenhum deles começou a praticar as atividades com 16 anos.

Para continuar, Flávio comete um deslize imperdoável ao comparar as motos 125 que correm no Brasil com as 125 do mundial de motovelocidade. As 125 brasileiras são utilitárias, com motor 4T, 12,5 cv, pesam 100 kg e chegam no máximo a 140 km/h. A 125 do mundial são fabricadas exclusivamente para competições, têm motor 2T, 60 cv, pesam 60 kg e chegam a 220 km/h. O Fiat Palio tem 4 rodas e a Ferrari do Schumacher também. As semelhanças param por aí. 

E para romper com outros paradigmas preconceituosos, a líder do campeonato brasileiro na categoria 125 é uma menina de 24 anos, Ana Lima, que acelera pacas. Uma mulher liderando e uma criança vencendo. A motovelocidade nunca foi tão surpreendente e emocionante.

O pior mesmo é o preconceito. Motos não são perigosas, mas a forma com que são conduzidas é que traz perigo. Logo depois que Henry Ford popularizou o automóvel com o lançamento do Ford-T, inevitavelmente começaram os acidentes, alguns fatais. Um jornalista (sempre eles) meteu o microfone na fuça do empresário americano e disparou:

– Sr. Ford, o sr. não se sente responsável pelos acidentes que acontecem com os carros que levam o seu nome?

E Henry Ford respondeu com uma frase que deveria entrar para a história como uma das mais perfeitas e realistas da humanidade:

– Meu caro, acidentes não acontecem, eles são provocados!

E são provocados sabe por quem? Por pessoas, não por veículos. Por trás de todo acidente tem pessoas que cometem algum tipo de erro. Até mesmo nas chamadas falhas mecânicas ou problemas na pista tem uma pessoa por trás. Se o administrador da obra não tivesse embolsado uma grana, o asfalto teria 8 camadas e não 4. Se um engenheiro não mandasse soldar uma luva na barra de direção de um Williams, como se um carro de Fórmula 1 fosse uma caixa d’água, não teríamos lamentado o 1º de maio de 1994. Pessoas, meu amigo, pessoas é que são perigosas!

Tite
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