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| » » » 05.08.05 |
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| O possível e o inverossímil |
05.08.05 |
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Na dúvida entre ir para a academia de ginástica e escrever uma coluna pro Gepeto, fiquei alguns centímetros mais pançudo. Mas não pensem que esta será uma história de sexo, drogas e gasolina Elf, porque será séria, chata e polêmica. Êba, adoro polêmicas!
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| Senna e seu F3, com o qual se tornou campeão inglês da categoria, em 83. |
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Li e reli todas as cartas e artigos referentes àquela famosa e hipotética manobra do Ayrton na corrida de F3 (Pergunte ao GPTotal de junho e Cartas dos Leitores de Junho). Aquela do adesivo no radiador. Já tinha lido esta versão em outros lugares, mas infelizmente não tive a chance (ou não lembrei) de perguntar ao próprio se tinha sido verdade, ou não. Aliás, acho que esta história só circulou depois daquele 1º de maio depressivo.
Em todo caso, vou lembrar aqui meus tempos divertidos e suados de kartista, entre 1976 e 1979. Aos 16 anos eu entendia um pouco de mecânica e me achava o melhor piloto da categoria. Só que não tinha a menor noção de kart, principalmente os acertos de chassi, freio, distribuição de peso, pressão, convergência, bitola, perímetros, relação etc, etc... Cheguei tão cabaço na primeira corrida que alinhei no treino ainda com as etiquetas da fábrica presas no eixo traseiro. O Waltinho Travaglini me ajudou nos acertos básicos e lá fui treinar para fazer o segundo melhor tempo na frente de 25 caras mais velhos! Fiquei assustado, me achando o novo Emerson.
O que interessa naquele período é que tive a chance de ver o Ayrton Senna pilotar de um ângulo que pouca gente viu: de dentro da pista. Foi num treino livre, com todas as categorias reunidas. Eu estava começando a me preparar para a curva do Espanada, no kartódromo de Interlagos, que era feita sem frear, quando ele passou por mim, de lado, com apenas a mão esquerda no volante e a direita no carburador. Tudo bem, ele corria na 1ª categoria 100 POC e eu na estreante, de pneu fino e motor original. Mas o que deixou impressionado foi ver ele fazendo a curva, em derrapagem controlada, abraçado ao motor e só uma mão no volante!
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| Senna, nos tempos do kart, carburando com a mão direita. |
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Os motores Parilla 100 cc naquela época tinham alimentação por válvula rotativa e o carburador ficava com a boca virada para o lado direito do kart, tão perto do pinhão que alguns pilotos perderam o dedo na hora de carburar. Perguntem ao Afonso Giaffone e Atila Sipos. Imagine a situação: aquele motor já girava algo perto de 14 mil rpm, dois tempos e uma vibração de arrancar as obturações. Os pneus eram duros e o kart pulava que nem touro de rodeio. O piloto tinha de acertar a carburação ao mesmo tempo em que pilotava e para fazer isso tinha de achar e girar as agulhas de alta e de baixa do carburador, ali, bem perto do pinhão e sem olhar! O Ayrton era canhoto, logo tinha de carburar com a mão-burra, a direita, enquanto a mão-esperta controlava o volante.
No meu motor 125 Riomar, a admissão era por palhetas e os carburadores (eram dois) ficavam apontados para a frente. Era mais seguro e fácil, mas toda vez que eu tirava a mão do volante, mesmo na reta, dava a impressão que iria voar fora da pista. Tentei com a mão esquerda, mas não achava as agulhas; com a direita o máximo que consegui foi acertar a mistura e deixá-la imexível até o final da corrida. Mas o Ayrton não. Olha só o cara: ele mantinha a mão direita praticamente o tempo todo naquelas borboletinhas do tamanho de uma moeda de 1 centavo e engrossava ou afinava a mistura conforme a situação. No final da reta, ele engrossava para o motor não travar e do meio da curva em diante ele afinava para ter mais retomada. Ah, nesse meio tempo ele freava, jogava o volante no contra-esterço, corrigia, cutucava o acelerador para manter o giro lá em cima, usando os dois pés e uma mão, porque a outra estava lá no carburador. Quem tiver fotos daquela época poderá vê-lo "abraçado” ao cilindro.
Como eu não entendia nada, fui perguntar para o Lúcio Pascoal, o Tchê, como aquilo era possível sem ficar maneta. O Tchê era um espanhol radicado no Brasil e o cara que preparava todos os motores do Ayrton. Com certeza ele conviveu mais com o Ayrton do que a própria família. E o Tchê tinha muita paciência comigo porque eu não era arrogante como a maioria dos pilotos de kart. Ele me ensinou um truque para fazer o mesmo efeito, sem tirar a mão direita do volante: bastava usar a mão esquerda como um compressor ou difusor dinâmico. Explico: conforme a posição da mão em concha sobre a entrada de ar do carburador ou poderia aumentar ou reduzir a passagem de ar, empobrecendo ou enriquecendo a mistura, de acordo com a situação. Nunca mais minha vida foi a mesma depois daquela lição, porque eu poderia manter a mão direita no volante enquanto carburava.
Depois de 10 anos fui correr de moto. Era uma Yamaha RD 350LC, arrefecida a líquido. Por força do regulamento não podíamos usar etileno-glicol no radiador e desligávamos a ventoinha elétrica para não roubar energia do motor. O motor dois-tempos tinha de funcionar por volta de 65ºC para ter uma boa queima, mas em Interlagos o clima era doido varrido. No mesmo dia, entre o warm-up e a corrida a diferença de temperatura caía 10ºC! Muitas vezes passei frio naquela pista. Para o motor manter uma boa temperatura nas primeiras voltas, colávamos silver-tape na parte de trás do radiador durante a volta de apresentação. Na hora da largada bastava arrancar fora e pronto. Para facilitar a operação, eu fazia uma armação de arame por baixo da fita e deixava um anel pra fora, entre o motor e a carenagem. Era só puxar o arame que a fita descolava. Era como uma sobre-viseira.
Numa das últimas etapas, ainda no circuito antigo de Interlagos, meu nervosismo era tanto que esqueci de arrancar a fita. No final do Retão deu um estalo: “A porra da fita!”. Curva 3, curva 4, depois vinha uma reta antes da Ferradura e nada de eu achar a desgraça do arame. Saímos da Ferradura e eu nem queria olhar o termômetro. Fizemos o Lago e na Reta Oposta enfiei a cabeça dentro da carenagem e o arame estava pulando de um lado pra outro por causa do vento e da vibração. Se não conseguisse tirar antes da curva do Sol só iria ter chance na Subida do Box, se o motor não travasse antes. Meti a mão e senti o desgraçado. Puxei e a fita realmente saiu, mas colou no escapamento!
Tudo bem, não fez muita diferença, só deixou o maior cheiro de queimado.
A história narrada sobre o Ayrton na F3 só poderá ser confirmada, ou não, pelo Martin Brundle. Posso afirmar o seguinte. A fita só poderia estar na SAÍDA de ar. Lembro que todo radiador é um trocador de calor: o ar frio passa pela aleta, “esfria” a água e sai quente do outro lado. Logo, ele só exerce função arrefecedora se o ar PASSAR pelas aletas. Se colocarmos uma fita na parte de trás do radiador a temperatura também aumenta pois não há troca de calor. Nas motos eu colava a fita na parte de trás da colméia para ter certeza que a desgraçada sairia, senão o vento a manteria colada.
Acho que a maioria das pessoas ficou imaginando o Ayrton tentando desgrugar uma fita puxando a pontinha dela que nem um rolo de durex. Digamos que os mecânicos do Ayrton tenham feito a armação com arame, com uma ponta bem saliente e fácil de achar. Seria totalmente possível alcançá-la e puxar tudo fora, ainda mais para um cara acostumado a pilotar só com uma mão.
O que acho o mais inverossímil da história toda vem depois: afivelear o cinto de segurança de 4 pontos. Caras, nas poucas vezes que pilotei um Fórmula foi preciso um mecânico se enfiar dentro do cockpit para fechar o cinto. É preciso 4 mãos e muita pontaria. De toda a história narrada, o que soa mais difícil é soltar e voltar a afivelar o cinto. Desculpem, mas essa é difícil de engolir. Na próxima vez que vocês virem um carro de corrida, dêem uma olhada no cinto de segurança e depois reflitam: é possível afivelar aquela coisa cheia de tentáculos, dentro de um monospoto apertado e sem sair da pista? Se realmente a história for verdadeira, o Ayrton fez todo o resto da corrida sem afivelar o cinto, o que é perfeitamente crível pois ele era um cara muito relaxado com a segurança – ele raramante afivelava o capacete que chegou a sair voando da cabeça dele quando o Mário Sérgio de Carvalho estampou-lhe a traseira. Ou ele parou depois da corrida, antes de chegar nos boxes e afivelou o cinto para não ser punido. Ou toda esta história é mais uma lenda. Mas eu afirmo sinceramente que a parte da retirada do adesivo é perfeitamente possível.
Meninos, o Galvão Bueno está cada dia mais gagá. Ele só narra F1 porque isso caiu no colo e o bicho agarrou que nem carrapato porque sabia que ganharia muita grana e ganhou mesmo. Mas é irritante o nível de desconhecimento técnico e bobagens que ele dispara no ar e que correm o risco de ser engolidas pelo pobrezinho do público.
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| Kimi nos treinos de sábado para o GP da Alemanha. |
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Nos treinos de sábado para o GP da Alemanha, quando Kimi Raikonnen fez a pole position, na última curva antes da reta de chegada, o finlandês fez uma manobra que deveria entrar para a galeria dos momentos mais sublimes de pilotagem. Tipo um gol do Pelé que virou placa. Uma estátua de Michelangelo. Uma sinfonia de Offenbach. Arte pura, diante de milhões de estupefatos espectadores. O genial Kimi botou o McLaren de lado, manteve o pé fincado no acelerador, virou o volante em contra-esterço e meteu meio segundo em todo mundo.
Para falar a língua chula que só aquele idiota global conhece, o Kimi fez algo comparável a um gol a 50 metros de distância das traves, faltando dois segundos para acabar o jogo e meteu a bola na gaveta. A TV alemã reprisou três vezes a cena e eu nem consegui respirar. De lado, amiguinhos, quando foi a última vez que você viu um F1 de lado que não terminou em rodada. Aliás, o gordito Montoya foi tentar imitar e comeu brita.
Mas aí, água fria total, o anencéfalo do Galvão diz “Ah, está explicado onde o finlandês perdeu tempo”. Pode um sujeito ser tão burro e não pagar mais imposto de renda por isso? Pode um cretino esférico ficar à solta para transmitir F1? Meu filho, vá transmitir futebol, porque não tem erro. Quanto a nós, quem gravou o treino, assista várias vezes aquela manobra porque outra igual não vai rolar tão cedo.
Na próxima coluna prometo revelar a segunda parte do “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, com mais sexo, mais drogas e alguns sopapos no pé d’ouvido! E falado em alemão!!!
Tite
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