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| » » » 24.06.05 |
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| O culpado sou eu |
24.06.05 |
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| Os seis carros que largaram no GP dos Estados Unidos. |
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Na segunda-feira, dia 20 de junho, fiz questão de procurar na internet os sites dos principais jornais americanos e europeus para sondar o que o mundo achou da nova categoria criada pela F-1, que deveria ser batizada de “Six
Speed”. Os italianos foram lacônicos, afinal a Ferrari venceu e com dobradinha. Os franceses só enalteceram o fato de as ações da Michelin terem despencado 3,1% na abertura do pregão em Paris, mas fecharam o dia com uma baixa de 1%, o que é uma variação normal. Mas o legal mesmo foi ler o que os americanos escreveram. Ah, isso foi lindo de se ler.
A palavra “farsa” apareceu em absolutamente TODOS os noticiários e editoriais. Muita gente confunde farsa com mentira, mas a origem da palavra farsa vem do teatro romano e tem um significado muito mais apropriado ao caso, pois representa uma peça burlesca, cômica, com final inesperado. Em português adquiriu o sentido de estória ardilosa.
Aos 16 anos, quando tive a ilusão de ser piloto de kart. Fiz o caminho normal de escolinha de pilotagem, a compra de um kart novo e entrei na categoria novatos. Minha esperança de me tornar piloto de F1 desmoronou simplesmente porque não conseguia ir além de terceiros e segundos lugares por falta de
equipamento competitivo. No íntimo sabia que eu era rápido, mas nada de vitória. Anos mais tarde, já como jornalista descobri como aqueles pilotos que me venciam faziam para burlar o regulamento, com anuência de fabricantes, fiscais, federação e o diabo a quatro. Eu fui enganado em uma fase da vida em que nós ainda acreditamos na humanidade e na justiça. E 150 mil americanos tiveram o mesmo desgosto.
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| Tite, nos tempos em que acreditava no estrito cumprimento dos regulamentos. |
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Pois eu acho que buscar um culpado na farsa de Indianápolis é perda de tempo. O culpado sou eu, que ainda acredito nas instituições, como FIA, FIFA, FOCA,
CBA, FASP, CBM e várias outras siglas. Alguns anos atrás escrevi uma peça de teatro chamada “A Conspiração” (sim, leitores, eu não vivo só do salário do
Gepeto), na qual um personagem descobria que o culto à beleza era uma enorme conspiração para vender mais eletrodomésticos, apartamentos, carros, etc. Não vou contar toda a história senão vocês não pagarão para ver a peça e eu preciso de din-din para abstecer minha moto com gasolina Podium.
Acho que a redação daquele texto – que é uma sátira ao filme “A Teoria da Conspiração” – abriu uma luz na minha vida que é a seguinte: é tudo mentira! Tudo isso é uma grande mentira, tudo: o BBB, o Baú da Felicidade, o PT, a Daniela Cicarelli, o Pierre Dupasquier, o Max Mosley, o Bill Gates, Saddam Hussein, tudo isso não existe, são armações que os americanos criam para vender mais tudo. Criaram aquela armação do homem pisar na lua e já tem nego vendendo terreno no meio da cratera. Inventaram o fast-food para vender pílulas pros caras emagrecerem depois de ingerirem aquela meleca toda. Popularizaram o cigarro para vender caríssimos tratamentos de câncer no esôfago. E criaram a F-Indy, Nascar e outras para vender mais pipoca e cerveja nas arquibancadas. Podem ter certeza que a GM está por trás das grandes corporações plantadoras de milho e de cevada.
No fundo, a culpa é da FIA sim senhor. Sempre fui contra federações. Hay federação, soy contra! Naquela minha ingenuidade adolescente cumpri o regulamento e perdi quase todas as corridas em dois anos de tentativas. Se tivesse passado uns cobres pro mané que soldava as mangas de eixo na fábrica de chassi, hoje eu poderia ter um diploma de campeão paulista de kart na parede de casa. As federações estão para as competições motorizadas assim como o cisco no olho está para a visão: mais atrapalha do que ajuda. Participei de campeonatos de kart indoor sem interferência de federações e foi muito mais divertido, organizado e equilibrado que as farsas burlescas que vejo nos kartódromos paulistas, com excesso de categorias, regulamentos complexos e, certamente, as mesmas formas de rasgar aquela papelada toda e manipular os resultados. Tenho pena de quem leva isso tudo a sério.
O Max, tadinho, acredita que é presidente da FIA e manda alguma coisa. Fez um regulamento para equilibrar a competição motorizada mais famosa do planeta e, como dizem os iatistas, cagou na retranca. Ele não imaginou que essa situação pudesse rolar. Que os pneus Mixulam explodissem em curvas com mais de 9º de inclinação em relação ao cosceno ascendente da tangência vertical inferior do braço da suspensão traseira esquerda. E POF, lá se foi o Ralf Cobaia Schumacher fazer o papel de boi de piranha e pregar os cornos no muro.
O franceses começaram a bufar, como só os franceses sabem fazer, e berrar, “bufffff, temos de parrrar a corrida, senon os pilotos vão morrer!”. Boa idéia. Imagine, os francesinhos da Mixulam atravessando a pista e explicando a todos os 150 mil torcedores que os pneus são umas porcarias naquelas condições.
A fábrica de pneus Mixulam tem culpa também. Amigo leitor, eu já fui piloto de teste de pneus de moto e sei que o troço é complexo demais para deixarem uma estrutura do tamanho da F1 ficar a mercê da escolha errada do tipo de pneu. Em suma, pneus podem funcionar muito bem no simulador, na pista fresquinha dos Apeninos, no sol escaldante de Bahrein, mas podem simplesmente não funcionar no semi-oval de Indianápolis. Isso é uma possibilidade muito real. Tanto que aconteceu no templo sagrado do automobilismo americano. Podem apostar que este regulamento vai mudar novamente ainda nesta temporada, porque se a palhaçada rolar novamente, e ainda por cima na Europa, vai voar shit no ventilador.
A ironia disso tudo é que a parada toda rolou com a Mixulam, que fornece borrachinhas para 14 dos 20 carros. Se fosse com a Bridgestone, a corrida teria 14 monopostos alinhados e ninguém tocaria no assunto na segunda-feira. Eu adorei, porque expôs a ferida purulenta que é a categoria mais afrescalhada do automobilismo mundial, diante de um público que sabe exatamente quanto a F1 vale: shit! Apenas quatro corridas são transmitidas ao vivo para os EUA, não tem americano correndo, nem equipe com cacau do tio Sam. Eles preferem assistir flashes ao vivo da guerra no Golfo, no Irã, no Iraque ou no pátio de alguma escola de segundo grau. Basta ter tiro para dar audiência. Se o Gerard entrasse na pista vestido de homem-bomba e explodisse no meio do grid, as 150 mil pessoas aplaudiriam de pé e elevariam a F1 à condição de melhor espetáculo da terra.
Mas ele enfiou o rabo entre as pernas e ainda recomendou que os pilotos Mixulentos tirassem o body fora dali porque o bicho ia pegar. Foi a maior demonstração de arregaço que a F1 poderia dar ao mundo. Em vez de “Sras e Srs acionem seus motores”, foi “Sras e Srs caiam fora daqui porque está aparecendo a mancha marrom em seus fundilhos”.
Foi a crônica de uma morte anunciada aqui mesmo, no Gepetotal, por meio dos incansáveis desaforos do Pandini ao regulamento cagado de urubu. Perdi a crença em mais uma categoria. E o culpado de tudo isso sou eu, que ainda não aprendi a desconfiar de tudo.
Tite
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