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| » » » 15.06.05 |
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| O regulamento e a frustração |
15.06.05 |
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Vamos mudar tudo, na F1, no futebol e na vida
Acordei com uma baita ressaca no dia 9 de junho. Não foi fácil acreditar naqueles primeiros 45 minutos da seleção argentina batendo na seleção brasileira de futebol. Não sou um doente por futebol, mas já fui. Meu divórcio com o futebol foi na Copa do Mundo de 1982, quando o verdadeiro dream team caiu diante de um Paolo Rossi com o diabo no corpo. Felizmente, tivemos um dream team na F1 representado pela dupla Piquet-Senna (este último a partir de 1984), que lavou nossa honra com gasolina de alta octanagem.
É, mas veio 1994 e meu coração voltou a bater forte diante daqueles homenzinhos vestidos de camiseta amarela e calção azul. Que copa, meus amigos, que final de mandar muita gente pra UTI de cardiologia!
Aí vem a Argentina e soca 3x0 no primeiro tempo, uf!
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| Blatter e Mosley: incredulidade do primeiro na hipotética conversa sobre o regulamento. |
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Por isso, assim que o jogo acabou liguei para meu amigo Max Mosley e tivemos uma conversa muito produtiva. Argumentei que assim não dá, que a seleção argentina iria transformar a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha em um verdadeiro passeio. Que depois dos primeiros jogos o público esvaziaria, que a TV não transmitiria um jogo no qual um cabeludo com nome de remédio para congestão nasal (Sorini) fizesse gols. Seria o fracasso total de um evento que movimenta bilhões de american dollars e european euros day by day.
- Uh, dear Chiche (ele não consegue falar Tite, o véio inglês), você estar coberto de razon, vou falar com o presidente do Fifa e propor mudanças no regulamento, como fiz com o Fórmula 1.
Ontem de manhã recebi a ligação do Joseph Blatter, presidente da Fifa. Ele parecia aborrecido, mas quem deveria estar pê da vida era eu, que fui acordado às 4 da manhã. Joseph disse que Mosley havia lhe telefonado e posposto mudanças no regulamento do futebol para evitar que a Argentina vencesse de lambreta a Copa de 2006.
- Alles gut, Joseph? E o que foi que Mosley sugeriu? – perguntei.
- Ele quer que cada tempo do futebol corresponda a um jogo. Você tem idéia do que isso significa? – indagou-me Blatter.
- Ja, ja, Herr Blatter, hoje eu estaria mais feliz porque poderia dizer aos argentinos que empatamos no jogo de 8 de junho: eles venceram o primeiro tempo de 3x0 e nós vencemos o segundo tempo de 1x0. Acho a idéia ótima! Os dois times estariam classificados para a Copa e eu não teria de suportar os jornalistas argentinos entupindo minha caixa postal com piadinhas infames. Imagine que um deles disse que os torcedores brasileiros voltaram de Buenos Aires com os bolsos vazios e os sacos cheios. Que grosseria destes portenhos.
Bom, a conversa continuou e fiz outras sugestões para deixar o futebol melhor, tais como, limitar o impedimento à pequena área; o lateral será cobrado apenas com os pés; quando um time estivesse vencendo de 3x0 o jogo seria encerrado e dar-se-ia o início de uma nova partida para evitar as modorrentas goleadas de 5x0, 7x2 etc. Nenhum jogador poderá fazer mais de um gol por partida e, finalmente, o tempo de 45 minutos será apenas de bola corrida, ou seja, como no basquete, só conta tempo enquanto a bola estiver em movimento.
Vamos esperar a Copa de 2006 para ver os resultados.
Como sou um pentelho, gosto de ler cartas de leitores, expediente de revista, bula de remédio e contrato de locação. Fazer o quê, sou maníaco por leitura e se for ao banheiro, para minhas abluções matinais, sem algo para ler corro sério risco de ter prisão de ventre.
Por isso leio diariamente as cartas dos leitores do Gepetão, nosso amado e querido site de fofocas e F1. Foi assim que li uma carta bem malcriada de um cara que não lembro o nome, acusando o Panda de ser um frustrado. Ué, e quem NÃO é frustrado neste mundo de meu Deus, além do Antônio Ermírio de Moraes?
Uma das coisas que mais me irrita é esse papo de falar que jornalista especializado é um qualquer-coisa frustrado. Os de automobilismo são pilotos frustrados, os de futebol são jogadores frustrados, os de balé clássico são bailarinos frustrados, assim por diante.
Uma das poucas vezes que quase pulei na jugular de um piloto foi um idiota mauricinho que corria de F-Chevrolet na primeira temporada da categoria. O cara veio com papo de que escrevi a matéria de maneira “deturpada” e me chamou de piloto frustrado. Minhas veias do pescoço ficaram do tamanho de uma manilha de esgoto e fui pra cima disposto a arrancar um naco de carne da fuça do desgraçado, mas os dóceis mecânicos dele me convenceram a sair fora se não quisesse ser lobotomizado por uma chave de fenda nos miolos.
Passados alguns anos este mauricinho não virou m... nenhuma no automobilismo, mas de uma forma muito estranha o destino fez justiça ao me inscrever em uma prova de 100 Milhas de Kart da Granja Viana e quem estava correndo? O próprio petit maurice! Caras, vocês não imaginam minha felicidade ao largar na frente do mala e ainda chegar com uma volta de vantagem. Quando a corrida acabou, passei ao lado dele, tomando uma Coca-cola,e comentei:
- É, é frustrante chegar atrás, né?
Eu sou frustrado. Depois de ler meu amado e saudoso poeta Mário Quintana ensinando que “não se deve morrer sem amar uma ruiva”, passei por uma crise depressiva existencial. Com meu daltonismo congênito e incurável como saberei se já amei ou não uma ruiva? Aquela mina poderia ser uma ruiva ou uma loira albina, nunca vou saber. Pior ainda: depois do Wellaton, a gente só vai saber se a gatita é ruiva, morena, loira ou afro-descendente depois de arrancar a roupa e conferir outras pelagens. Que frustração!
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| Carolina Dieckmann, a musa que inspirou esta coluna do Tite. |
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Todo mundo é frustrado, leitor, em maior ou menor grau, todo mundo pára diante de uma Carolina Dieckman e pensa: “Por que ela não pula no meu colo e diz que sou a coisa mais importante da vida dela”?
Existem vários exemplos históricos de frustração. O terceiro astronauta da Apolo XI, que viu os dois pisotearem a Lua enquanto ele ficava ali, controlando um monte luzinha piscando sem saber se a geringonça voltaria à Terra. O Napoleão Bonaparte achou que seria moleza invadir a Rússia 20ºC abaixo de zero e acabou atrás das grades, com as bolas congeladas. O Stirling Moss, que foi correr de F1 justamente na mesma época do Juan Manuel Fangio. O Rubenzinho Barrichello que finalmente viu a possibilidade de Schumacher se aposentar no final de 2005, mas a Ferrari tá o fio da rabiola. É assim, a frustração só é esquecida pela realização.
Quando um grupo de jornalistas “frustrados” se reúne para criar o mais completo, divertido, didático e opinativo site sobre automobilismo, respiramos uma alegre sensação de realização que faz muita gente se resignar por não atingir estes méritos. Tenho pena dessa gente que não consegue chegar a este nível e é obrigada a viver na frustração.
Tite
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