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Valentino I – ou: Valentino Rossi para papa! 27.04.05
A vidinha anda meio parada? A Fórmula 1 e suas shit-rules te aborrecem? O seu time de futebol não consegue chegar na final? A auto-estima anda em baixa? Meu amigo, seus problemas acabaram. Pegue o calendário do campeonato mundial de Motovelocidade, marque bem as datas de GP, prepare um belo café da manhã e prepare-se para ver sua dose de adrenalina bater recordes. Antes consulte um médico para saber como andam pressão arterial, taxa de glicemia, triglicérides, entupimento das veias e artérias. Mesmo assim, mantenha um desfibrilador à mão, porque pode ser útil.

Rossi e a Yamaha, vitoriosos na Espanha.
O que eu vi no prazo de uma semana, entre os GPs de Jerez de la Frontera e Estoril, na categoria MotoGP fez meu sangue entrar em ebulição e eleger mais uma vez Valentino Rossi como o mais abençoado e talentoso piloto de moto que já vi na vida. Está certo, sou novo, apenas 46 aninhos, e não vi corridas de Giacomo Agostini, John Surtees, Phil Read e outros tantos. Mas Agostini em pessoa, vivinho da silva, declarou que Rossi é um fenômeno!

As duas últimas voltas do GP da Espanha, dia 10 de abril, justificam qualquer sacrifício para ver as corridas do mundial. Rossi passou Gibernau, errou, passou de novo, voltou a errar e usou Sete Gibernau como apoio para passar na última curva da última volta. Foi a cena que gostaria de ver todos os dias, ao acordar, para iniciar o dia com aquela sensação de tudo é possível e nada está perdido. Bem, talvez Gibernau não concorde.

Valentino é mais novo que Sete. Só que muito mais esperto. Ele sabe que o piloto que está por fora na curva pode ser usado como escora para evitar um tombo. Se Sete se lembrasse disso teria freado e veria Rossi saindo reto rumo à brita, mas a vontade de ganhar na Espanha fez Gibernau esquecer alguns preceitos elementares do motociclismo de velocidade. Outro esquecido deste GP foi o paulistano Alexandre Barros. Com 242 GPs nas costas, 36 anos, ele é chamado de tiozinho entre os pilotos. E num ataque de vechiaia “esqueceu” de ligar o controle de tração na largada. Todo mundo saiu e ele foi parar lá atrás, pra baixo do 13º lugar. Recuperou-se e terminou em 4º, muito insatisfeito. Admitiu o erro e ainda disse que a moto estava uma caca de suspensão.

Barros comemora a vitória em Portugal.
Esta foi a prova de abertura. Uma semana depois, no dia 17 de abril, meu aniversário, novamente acordei cedo, passei na padaria, juntei o pãozinho quente ao café fresco, manteiga, queijo, presunto e liguei a TV na Sportv. Isso foi às 8:30. Precisamente às 8:55 Alexandre Barros alinhou sua Honda RCV 211 na primeira fila, naquele imaculado espaço da pole-position. Segundo o veinho, encontraram o ajuste fino da suspensão dianteira e no primeiro treino ele enfiou 1,5 segundo na fuça do Rossi. Em termos de MotoGP, isso é uma avenida Paulista. 

A pista estava na pior condição possível: úmida, aquela coisa PSDB – nem seca, nem molhada, mas úmida. Correr nestas condições de pneus slick é como atravessar a avenida Vieira Souto, ao meio-dia, de olhos vendados. Já passei por isso (andar na pista úmida, não atravessar a Vieira Souto...) e não recomendo. Tem-se a certeza absoluta que a cada curva é um tombo. Frear então, é preciso imaginar um ovo cru colocado entre os dedos e a manete de freio e tentar terminar a corrida sem fazer um omelete. Não recomendo para pessoas tensas. Sabe aquelas faixas brancas que delimitam a pista? Ficam mais escorregadias do que baba de quiabo. Se passar em cima é tombo. 

Nestas condições os pilotos largaram e Alex passou na primeira curva em 5º. Deu uma aula de auto-controle (moto-controle?) e fechou a primeira volta em 3º. Caçou, apavorou, infernizou e passou Valentino, colocando-se em 2º. Começou a garoar no Estoril, pista que viu a primeira vitória na F1 de outro paulistano, Ayrton Senna. Alex é tinhoso e foi tirando a diferença pro Gibernau, o nervoso espanhol. 

Deixa eu dizer uma coisa. Nem todos os pilotos de moto usam rádio pra tagarelar com os boxes. A maioria prefere ler aquelas arcaicas e eficientes placas. Então imagine a situação do Sete: em alguns pontos da pista estava garoando. Quando ele passava em frente ao seu box a equipe sinalizava que Alex estava em segundo, diminuindo a diferença entre eles. Como num filme de suspense, Sete aumenta o ritmo e a diferença. Mas Barros faz conseguiu ser mais rápido na volta seguinte e a diferença diminuiu de novo. Nem monge budista agüentaria tamanha pressão psicológica. E Sete foi pro chão.

Alex chegou a abrir 11 segundos sobre Rossi e venceu seu sétimo GP em 243 participações. Um presente para a equipe Pons, que acreditou no velhinho Alexandre (eu fui vice-campeão brasileiro com 39 anos!), um presente para mim, afinal era meu aniversário e um presente para quem acordou cedo e viu esta corrida. A ironia maior para os brasileiros é que esta prova foi realizada no lugar do cancelado GP Brasil. Imagine se Alex vencesse aqui no Rio de Janeiro. Rossi admitiu publicamente que não gosta de pilotar no molhado, principalmente de pneus slick. Ele teve de suportar o experiente Max Biaggi durante todo o GP fungando no cangote, por isso seu segundo lugar foi um prêmio.

Ainda é muito cedo para previões. O mundial tem 17 etapas e ninguém é favorito de nada. A Honda tem um esquadrão de super pilotos para combater Rossi, sozinho na Yamaha. E, cá pra nós, essa baboseira de que Valentino vai pra Ferrari é sandice pura. Ele pode até migrar para o automobilismo, mas quem garante que a Ferrari será a equipe da vez daqui a três ou quatro anos? Ainda tem muita água para passar pelo radiador...

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