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Marido corno bate em jornalista errado! 23.03.05
É, a chamada te pegou, né, seu desajustado, leitor da Caras? Mas espera só até eu contar a história toda, que tem como um dos personagens ninguém menos que Ari Vatanen, Jean Todt, além de um gaúcho corno, uma mulher piloto, dois jornalistas de olho roxo, um militar italiano e muita pancadaria.

O Ford Escort de Ari Vatanen/David Richards, vencedor do Rali do Brasil de 1981. Richards é o mesmo que foi chefe da equipe BAR até 2004.
Primeiro devo esclarecer que a história é ficção e qualquer semelhança com pessoas ou fatos da vida real terá sido uma coincidência dos diabos. E avisar também que os personagens que inspiraram esta ficção ainda estão vivos - suponho - e, portanto, deverei omitir a verdadeira identidade de alguns para preservar a privacidade dos citados e a minha própria existência terrena. Tinha prometido a mim mesmo só narrar este episódio depois da morte dos envolvidos, mas como todos gozam de perfeita saúde, são aparentemente jovens e o Romeu Nardini está sedento de palhaçada, decidi revelar tudo. Além disso, recentes fatos envolvendo o Chico Buarque de Hollanda fez da entidade "o corno" algo respeitável, elegante e até moderno. Em épocas de metrossexualismos ser corno pode acabar virando "in". Para mim está muito mais para "ex", de externo, excomungado, exposo e outros adjetivos menos nobres!

Vamos, pois, ao tão segredado evento. Tudo se deu durante a primeira edição do Rally do Brasil, etapa válida pelo campeonato mundial de rali, em 1981, se não me engano, em São José dos Campos, SP. Vocês já perceberam que não sou muito bom com datas e nomes. Eu era foca - apelido carinhoso para jornalista cabaço - fotógrafo e fui cobrir o evento para um jornal. Fui escalado para entrar no trecho junto com o fotógrafo Milton Shirata, um japonês zen total. Só que eu não sabia que teria de ficar parado quase o dia todo sem poder sair de lá. Não tinha levado comida, nem bebida e fazia um calor dos infernos. Eu estava odiando aquilo.

Meu companheiro de reportagem ficou encarregado de cobrir os bastidores, entrevistar pilotos, boxes, estas coisas. Ele tinha a liberdade de entrar e sair de restaurantes, tomar coca-cola, comer misto quente, tudo no ar-condicionado.

Nesta prova havia alguns brasileiros caindo pelas tabelas com equipamento limitado, enquanto os estrangeiros estavam de Ford Escort, Talbot, Datsun, Fiat etc. Entre os brasileiros havia mais de uma dupla formada por mulheres e o marido de uma delas também estava correndo. Durante um dos trechos neutralizados houve uma briga feia entre marido e mulher. Esta, inconformada com a agressividade de seu cônjuge, representante original dos homens dos pampas gaúchos, dos bravos mesmo, decidiu que isso não ia ficar assim. Para piorar, o carro dela tinha quebrado e ela estava a pé. Leitor amigo, nunca deixe uma mulher ofendida nos boxes e entre em uma especial de rali, porque ela terá muito tempo livre para arquitetar uma vingança à altura.

Como as mulheres são seres desprovidos de originalidade quando o assunto é vingar-se do marido, a dita elementa encontrou em meu amigo repórter a forma mais fácil e contundente para responder à altura os chiliques do maridão afetado. E como homem também não é lá muito original quando o tema é se jogar aos pés da primeira baranga que lhe sorri, meu amigo mordeu a isca e foi balançar a rede adversária enquanto o rali caminhava para a bandeirada. Mal sabia ele que mulher é tinhosa. Ela usou meu amiguinho como uma arma pérfuro-contundente para atingir em cheio o marido. Mais especificamente a testa dele. Mas a vingança só seria completa se o bom esposo ficasse sabendo, coisa que foi muito fácil de realizar, dado que à volta dela (e em cima também) havia um elenco dos mais fofoqueiros jornalistas do Brasil e do mundo.

Este Talbot Sunbeam Lotus terminou em segundo lugar no Rali do Brasil. Seu piloto era Guy Frequelin (hoje chefe da equipe Citroën no Mundial de Rali) e Jean Todt (ele mesmo, o chefão da Ferrari).
O maridão chegou de sua especial, mal desceu do carro e foi informado que a cerca havia sido pulada. Ainda deram o detalhe "parece que é um jornalista de São Paulo e está no quarto número tal". O cara saiu bufando mais que marruco no pasto, direto para o quarto mencionado. Esqueceram de avisar o recém-corneado que no quarto havia outro jornalista: eu! Enquanto o míssil balístico terra-terra subia as escadas, eu saía do quarto depois de um merecido banho de nubente, mais perfumado do que filho de barbeiro. Abri a porta e senti o chão tremer à minha volta. No corredor vi se aproximar um ser poeirento, com cara de poucos amigos, espumando pelo canto da boca, direto na minha direção. Olhei para trás, na desesperada tentativa de ver se era com outra pessoa, mas aquele não realmente meu dia de sorte. Depois de passar o dia inteiro em uma especial, sem água, sem comida, tomando sol na moleira, acompanhado de um fotógrafo monossilábico, encerrei a noite com uma porrada bem no meio do olho direito. Justamente o olho que uso para fotografar.

As imagens e sons foram ressurgindo aos poucos e comecei a entender que minha alma ainda não havia se despreendido do corpo físico. Percebi o equívoco quando o corno se preparava para continuar o massacre e consegui escapar, escorregando que nem uma tilápia ensaboada. Enquanto eu corria escada abaixo adivinhe quem vinha subindo? Meu amigo!

- Foi ele! e apontei o dedo duro.

- Poft! e meu amigo também ficou de cara inchada.

O cara parecia que ia bater em toda espécie humana, mas ele não esperava que a reação dos dois corajosos jornalistas seria tão rápida: volatizamos daquele lugar e nos materializamos novamente em algum canto bem escondido do restaurante esperando o corno se acalmar, se é que os cornos se acalmam um dia.

Enquanto eu colocava gelo e tentava diminuir o tamanho do calombo, vi de longe, meio embaçado, é claro, a minha doce vingança tomando forma.

No dia anterior, quando meus olhos ainda eram alinhados, havia conhecido vários italianos militares da Aermachi, empresa que tinha formado joint-venture com a Embraer para produzir aviões de uso militar. Os caras estavam hospedados no mesmo hotel e muito agradecidos por eu ter ajudado a conseguir permissão para visitarem as equipes, especialmente as estrangeiras.

Quando vi os militares no restaurante fui perto deles, segurando meu olho como se fosse despregar do globo ocular a qualquer momento. Imediatamente eles começaram a fazer perguntas e eu, disfarçando, não revelava a verdade. Até que, diante de tanta insistência, abri o jogo:

- É, tomei uma porrada de um marido cornuto! Mas deixa pra lá, vocês são estrangeiros, podem ter problemas com a polícia, com a imigração e...

Antes de eu terminar de falar vi que o cornudo tinha acabado de entrar no restaurante, ainda sedento de sangue. O meu sangue. Apontei para o cara, virei para a matilha de italianos e só fiz assim:

- É aquele ali, ó!

O italiano maior de todos tirou o casaco com o logotipo da Força Aérea Italiana, afastou a cadeira e esbravejou:

- Estrangeiro un cazzo, io sono carioca!

Você conhece a fama dos italianos. Sabe o quanto eles são fleumáticos e pacatos. Sobretudo os militares. Quando virei as costas para fugir do restaurante ainda consegui escutar barulho de baixelas caindo pelo chão, entremeado por berros como "mas bah, que tá havendo aqui, ui!?", "Que passa, te acalme tchê, ai!".

Pensa que a vingança acabou aí? Quando me mandei para o quarto antes de toda gauchada descobrir a armação, não achei a chave na recepção. Subi e escutei, através da porta, um nheco-nheco familiar de colchão de mola. Não é que a esposa foi no quarto examinar o dodói do meu amigo e continuou a vingança?

Dia seguinte, na largada, ninguém tinha explicações para a desistência de uma das equipes brasileiras. Perguntei a um fiscal sobre o piloto e ele disse:

- Tudo indica que está com problemas físicos.


Fui escarafunchar as cartas dos leitores e achei uma polêmica deliciosa: qual o pior brasileiro na F-1. Olha, taí uma resposta difícil, mas quem votou no Ricardo Rosset pode ter chegado mais perto do bulls eye. Eu presenciei uma carne ralada e pele hematomada uma linda história de braçodurismo do Rosset que merece ser revelada. Tava eu na redação, enrolando como sempre, quando me liga um informante com a bomba: o Rubens Barrichello vai treinar de moto junto com o Alexandre Barros. Pô, passei a mão na máquina fotográfica e fui voando. Mal cheguei na pista, o Rubitcho me viu e quase pediu de joelhos: "C****, não me fotografe aqui senão a Ferrari me f***!" (o Rubens não foi colega da Alessandra na escola de freiras). Guardei a máquina mas vi o treino. O cara andou direitinho, puxado pelo Alex.

O melhor viria no final. Ricardo Rosset apareceu com uma roupa de couro destas de yuppie de butique, alegando ser bão em duas rodas, e quis dar uma voltinha . Olhei para a cara do preparador, meu informante, e ele estava com a conhecida expressão de vai dar m***!. Enquanto Rosset miguelava a voltinha, caiu uma garoa fina, típica de final de verão em Interlagos. Quem corre de moto sabe que esta garoa derruba só de olhar. Mas lá foi o pilotaço Rosset. Saiu do box, entrou na reta, freou para a descida do lago e... catapumba! Saiu capotando que nem dadinho em mesa de cassino. A moto moeu e eu não sairia de Interlagos sem ver a cara de c* dele, mesmo que isso demorasse até meia-noite. Chegou a picape, moto toda torta em cima, silêncio sepulcral nos boxes e o Rosset com aquela cara de quem fez pum no elevador.
- Este riquinho filho da p*** vai pagar cada parafuso - me confidenciou o pouco refinado amigo preparador. Alguém ainda tem dúvidas quanto à minha opinião sobre o pior piloto brasileiro que já guiou um F-1?
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