Silverstone, 1987. Voltas finais do GP da Inglaterra. Nelson Piquet lidera, com sua Williams-Honda, poupando os pneus já bem gastos e mantendo uma pressão conservadora no turbo, confiante no cálculo de consumo do computador de bordo. Em segundo lugar, incendiando a torcida com uma tocada espetacular, com quatro pneus novos, trocados em um pit-stop extra, Nigel Ernest James Mansell, com o outro carro de Frank Williams, descontava perigosamente a diferença que o separava de Nelson.
No cockpit, Piquet, aplicando seu raciocínio à Williams de Mansell, estava certo de que o inglês não conseguiria terminar a prova naquele ritmo. O combustível acabaria antes. Tinha certeza.
No meio da última volta, Mansell, já ocupando integralmente o retrovisor de Piquet, resolve partir para o ataque, desenha um dos dribles mais espetaculares da Fórmula 1 dos anos 80 e ultrapassa Nelson, depois da inútil tentativa do brasileiro de fechar a porta. Silverstone treme como um Wembley lotado. Piquet passa resto de volta que separava as duas Williams da bandeirada pensando e torcendo: "Vai parar! Vai parar! Para, filho da puta"!
Mansell parou na pista sem combustível. Só que algumas centenas de metros depois de cruzar a bandeirada em primeiro, no meio de uma apoteose da torcida. Piquet teve combustível para cruzar em segundo e amargar aquele que foi o momento mais desconcertante de sua brilhante carreira.
Mansell com o Williams Honda de 87
A razão desse rasgo saudosista com autonomia de 22 anos - eu não achava que fazia tanto tempo, no início deste texto! - é a sensação de que a tecnologia da Fórmula 1 de hoje acabou com a margem de erro que havia nos computadores de bordo das Williams de Piquet e Mansell. E que, assim fazendo, também diminuiu drasticamente as possibilidades de assistirmos, de novo, momentos como esse histórico espetáculo do imprevisível, essa vitória desesperada da vontade (de Mansell) contra a certeza tática, racional e matemática (de Piquet).
Com seus carros que não quebram, suas charadas de calculadora na hora do reabastecimento, o impressionante monitoramento ao vivo dos pilotos por seus respectivos engenheiros e a blindagem tecnológica que protege carros e motores de pilotos pés-pesados (que destruíam pneus, motores e freios) e de mãos estabanadas (que mandavam câmbios para o espaço), a Fórmula 1 de hoje já não premia tanto - ou pune na mesma medida - estilos tão diferentes como os de Piquet e Mansell.
O papel dos pilotos é cada vez menor, como já era, se compararmos a época de Nelson e Nigel com a de Clark e a deste com a de Fangio.
É outro departamento. A Fórmula 1, hoje, é mais parecida com a produção de um mega filme de Hollywood do que com a pintura de uma tela ou a criação de uma escultura.
Nada contra.
Apenas um pouco de saudade dos tempos em que o cockpit era um lugar onde o piloto ficava mais às sós com seus limites e suas qualidades.