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O outro final 16.02.09


Amigos do GPTotal,

Senna com seu primeiro F1, o Toleman Hart TG183B
Em 2003, pouco mais de nove anos depois da morte de Senna, em plena produção de “Ayrton, o herói revelado”, a biografia que lançaria no ano seguinte, fui até um endereço de São Paulo, especialíssimo tanto para Ayrton quanto para seus fãs. Queria verificar, in loco, o que permanecia e o que resistia, do mito e da paixão que ele inspirava, quase uma década depois de Imola.

Fiquei tão impressionado com o que vi que decidi, naquele momento, que a descrição do que encontrei seria o último episódio do livro. Achei que o que vira era emblemático dos fenômenos que surgem e desaparecem no vácuo de ídolos e mitos de todos os esportes e atividades. E escrevi, no mesmo dia, o texto “A sede”.

Meses depois, na fase de edição do livro, optei por outro texto para encerrar o livro e acabei não encontrando um momento da narrativa adequado para encaixar o episódio que vivi daquela tarde de 2003.

O texto, por razões que não cabe aqui discutir, acabou ficando de fora do livro. Mas, para quem possa se interessar, aí vai a íntegra, sem tirar nem pôr.

Ernesto Rodrigues








“A sede”

Só prestando atenção num logotipo pintado numa parede lateral e num busto sem identificação plantado canto do jardim é que se percebe que a casa número 96 da Rua Doutor Edson de Melo, no bairro de Vila Maria, é a sede da Torcida Ayrton Senna. Não há movimento. Não há secretária. O telefone não toca. O único barulho vem dos seis vira-latas que o presidente da entidade, o advogado Adilson de Almeida, mantém nos fundos. Quando os cães não estão latindo, o silêncio só é interrompido pelos poucos carros que passam pela rua de paralelepípedos.

Uma escada de pedra São Tomé leva à porta principal onde fãs japoneses, de vez em quando, posam emocionados. À direita da entrada, um par de sofás de tecido amarelo, um tapete surrado, uma mesa de centro de madeira e flores artificiais compõem uma sala de estar que está sempre vazia. Nas paredes maiores, dois grandes quadros de madeira de Senna e uma lápide vertical de mármore onde estão presas três placas de bronze: uma homenagem das equipes de Fórmula 1 a Senna, outra para José Carlos Pace e uma terceira, pela realização do 15º GP do Brasil de F1.

Na sala principal, uma grande área que Milton da Silva, o pai, e Armando Botelho, o empresário, dividiram entre 1982 e 1992, funciona uma espécie de museu. Uma estante de madeira clara guarda mais de 50 livros, cerca de 20 vídeos, camisetas, botons, miniaturas de capacete e CDs. Nas paredes, 103 fotografias de todas as fases da vida de Ayrton. Em outra sala, mais 60 fotos e cartazes. À direita da entrada, duas salas menores dão à casa um ar de escritório. Em uma delas, instalou-se Adilson de Almeida. A outra sala está completamente mobiliada, mas lá só funciona um fax.

Quem cuida da casa, desde 1999, é o pai de Adilson, Agenor Barbosa de Almeida, de 72 anos, um ascensorista aposentado do Banco Central que, de tanto se exasperar com a falta d´água no sítio em que vivia em Mairiporã, resolveu se mudar para a casa da Rua Doutor Edson de Melo. Assim, acabava a dor de cabeça da água e ele ainda poderia dar uma ajuda ao filho.

Só não adianta perguntar sobre Ayrton Senna.

Agenor sabe muito pouco.

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