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O bom e velho filme 10.03.08


Amigos do GPTotal,

Tenho lido reportagens e crônicas sobre o estilo supostamente agressivo de Lewis Hamilton.

Senna com o Lotus 99T
Já vi esse filme. Várias vezes, nos quase 35 anos em que acompanho a Fórmula 1. E algumas das cenas desse bom e velho filme da Fórmula 1 estão registradas no meu livro, “Ayrton, o herói revelado”, que ouso citar novamente, quebrando escandalosamente a promessa de encerrar as citações.

São dois momentos emblemáticos dos primeiros anos de Ayrton na categoria. O primeiro deles envolve uma disputa de posição de Senna com Keke Rosberg, pai de Nico, no Grande Prêmio da Europa de 1985, em Brands Hatch.

Transcrevo um trecho:

Não era uma crítica exatamente depreciativa. Era mais uma mistura de contrariedade e espanto, partindo de um dos mais arrojados pilotos da história da Fórmula 1. Era Keke Rosberg, depois de uma dramática disputa com Ayrton Senna em Brands Hatch, ao comentar, para Christopher Hilton, as tentativas de Senna de impedir a ultrapassagem:

“Depois de oito anos na Fórmula 1, parece que eu preciso voltar aos tempos da Fórmula 3 e ficar lá por um mês para aprender como se pilota um carro de corrida. Os olhos ficam esbugalhados quando você vê alguém fazendo ziguezague na sua frente a 200 quilômetros por hora. Você não se acostuma com isso. Admito que não tenho culhões para começar a tocar rodas nessa velocidade. E isso é o que eu teria de fazer se não tivesse recuado”.



Keke dava a dimensão da dificuldade de se enfrentar, na pista, um piloto que, ainda no início daquele ano, dissera em uma entrevista que nunca seria capaz de fazer o que ele, Keke, fazia com um carro de corrida.

Agora, outro momento, dois anos depois, envolvendo Ayrton e o italiano Michele Alboreto. Transcrevo-o:

Se na mídia e na estratégia das grandes equipes, Senna já era tratado como um fenômeno, na pista, na segunda metade da temporada de 87, ele continuava enfrentando disputas ferozes. Michele Alboreto, da Ferrari, por estar quase sempre disputando com Ayrton as sobras da supremacia da Williams de Piquet e Mansell, era, nessa época, o mais refratário a generosidades. Na arriscada contabilidade de fechadas e revides que os dois atualizavam a cada abertura de pista para treinos ou corridas, o saldo, positivo para um e obrigatoriamente negativo para o outro, às vezes era corrigido a 300 quilômetros por hora.

Fora nessa velocidade que Ayrton fizera um ziguezague à frente de Alboreto, para evitar uma ultrapassagem em uma das longas retas de Hockenheim, durante o GP da Alemanha. E foi mais ou menos na mesma velocidade que Alboreto aplicou o revide, desta vez nos treinos de sexta-feira para o GP da Áustria, em Zeltweg, ao jogar a sua Ferrari contra a Lotus de Senna na saída da curva Bosch, depois de ser bloqueado por Ayrton na entrada da chicane da curva Rindt. Alboreto era um piloto veloz. E, depois do empurra-empurra que custou o bico do carro de Senna, revelou também uma ameaçadora sinceridade:

“Senna age na pista como um bandido. A impressão que tenho é que, sob o capacete, ele guia com uma faca entre os dentes. Nem mesmo nas categorias inferiores do automobilismo se age assim. Acho bom que ele se cuide em Monza. Se se fizer de bobo outra vez vai parar fora da pista. Não creio que ele tenha coragem de aprontar com a Ferrari em pleno GP da Itália, mas, de qualquer forma, fica desde já o meu aviso”.

Perto dessa turma do século passado, Lewis Hamilton, com suas manobras monitoradas pela Guarda Politicamente Correta da Fórmula 1 atual, fica parecendo um seminarista virgem, mãos postas, a caminho da comunhão...

Um abraço a todos

Ernesto Rodrigues

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