Eu devo ser o milionésimo fã de Fórmula 1 que escreve sobre o assunto, mas o fato de estarmos às vésperas do GP da Hungria só faz me remeter para um dos episódios mais espetaculares da história da categoria. Daí que peço licença para dar minha modesta contribuição ao culto “suprapartidário” desse episódio, publicando abaixo o trecho do meu livro “Ayrton, o herói revelado” em que ele é reconstituído.
Vocês sabem, claro, de que episódio estou falando. Apertem, pois, os cintos e vamos em frente...
Ernesto Rodrigues
A batalha de Budapeste
Piquet com seu Williams de 86
As voltas finais da primeira corrida de Fórmula 1 no bloco socialista, no dia 10 de agosto de 1986, em Hungaroring, arredores de Budapeste, foram de mexer até com o coração daqueles comunistas que costumavam condenar o automóvel como um capricho decadente da burguesia imperialista ocidental. Na pista, Senna e Piquet, que tiravam o fôlego de todo mundo, bem que poderiam ser considerados, no jargão marxista das escolas de Budapeste, filhos da elite reacionária de um país subdesenvolvido e explorado.
Senna e Piquet provavelmente nem saberiam explicar o significado político e ideológico daquela corrida. Mas este detalhe não fazia a mais remota diferença naqueles momentos decisivos do GP da Hungria. Nelson, mais rápido, encostara em Senna e dava todos os sinais de que pretendia passar a Lotus na freada para a longa curva no final da reta dos boxes. Mas Senna não facilitou, mantendo o carro na parte central da reta e, com isso, deixando pouco espaço para Piquet fazer a tomada da curva.
Ninguém refez os planos reta abaixo. Resultado: Piquet chegou a ficar à frente de Senna por alguns instantes antes de escapar com as quatro rodas para a parte externa da curva e ver Ayrton reassumir a ponta. Nelson não gesticulou nem ensaiou qualquer protesto. Mas estava furioso.
Duas voltas depois, o público das arquibancadas e o pessoal do paddock mal respirando, os dois brasileiros entraram novamente pela reta, a Williams de Nelson grudada na caixa de câmbio da Lotus de Ayrton. Mais uma vez, Senna não facilitou, tentando apertar Nelson para o lado de dentro. Surpreendente, Piquet, em vez de se lançar por dentro, optou pelo lado externo, à esquerda.
Era o trailer de um grande acidente. Nelson Piquet, ora vejam, tentando ultrapassar logo quem, Ayrton Senna, e ainda por fora. E por alguns instantes, o que Ayrton viu, a poucos metros do bico de sua Lotus, foi um carro de Fórmula 1 completamente de lado, como se fosse um kart, continuar fazendo a curva, sem escapar para a caixa de brita como ele, os chefes de equipe, os mecânicos, os comissários de pista e milhões de espectadores mundo afora esperavam.
Piquet contrariou milagrosamente todas as previsões. Saiu da curva na frente de Senna, arranjou tempo para acenar um “adeus” para Ayrton com a mão direita, venceu a corrida e, em vez de saborear a façanha, criticou:
“Senna não podia ter mudado a trajetória no momento em que eu corria mais e estava preparado para passar. Fui obrigado a ir para o lado de fora da pista. Ele é assim mesmo na hora de entregar uma posição. A gente tem é de se acostumar com isso quando estiver numa disputa com ele”.
Os dois mal se cumprimentaram na cerimônia do pódio. Mais tarde, Ayrton não estava para elogios e esqueceu do próprio estilo ao criticar o rival: “Tive de frear muito para evitar um acidente. Foi uma manobra perigosa dele”.
Senna deixou rapidamente a pista. Ele e Prost eram convidados de Gerhard Berger para alguns dias de descanso na fazenda do austríaco, perto do circuito de Zeltweg, na Áustria. Não se sabe se a ultrapassagem de Piquet, no outro lado da Cortina de Ferro, foi assunto das conversas.
O veterano jornalista Lito Cavalcanti, correspondente brasileiro da Autosport, resumiu anos depois o significado daquele duelo: “Ninguém jamais parou Senna como Piquet fez naquele dia”.
Para Jackie Stewart, a façanha de Nelson teve uma descrição aeronáutica: "Foi como fazer um looping com um Boeing 747".