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19.06.08 |
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Amigos do GPTotal,
Desde logo vou avisando que o assunto, desta vez, é Ayrton Senna.
Não, não se trata de uma volta àquela primeira fase da minha participação neste site, quando meu compromisso era o de reproduzir e comentar trechos da biografia que escrevi, “Ayrton, o herói revelado”.
Desta vez, trata-se de um texto inédito. Mais exatamente, a primeira opção de abertura para o primeiro capítulo do livro, abandonada aos 45 do segundo tempo, por sugestão do meu editor.
Relendo-a, quase me arrependi da troca pelo texto que acabou prevalecendo no livro. Era para ficar inédito, mas está transcrita abaixo, sem modificações, para quem tiver curiosidade e paciência.
Um abraço a todos
O ELETRO
Dona Neyde estava ansiosa para saber o resultado do eletro-encefalograma.
O menino ser canhoto era o de menos. Ela até tinha tentado saber das professoras dele, no colégio, o que podia ser feito para que ele trocasse a mão esquerda pela direita, na hora de escrever e ou de segurar o garfo. Como muitas mães de sua geração, estava preocupada. Mas nada podia ser feito. Resignou-se. Era melhor deixar tudo por conta de Deus e da natureza.
A razão do eletro era outra.
Agitado e desajeitado, o menino, aos seis anos de idade, não conseguia subir uma escada sem tropeçar e se esfolar todo. Inquieto, costumava deixar pelo chão aquelas bolas de sorvete que ficavam no topo das casquinhas e tudo mais que estivesse carregando, tal era a intensidade com que ele se entregava às brincadeiras. Estava sempre com pressa de correr, a pé, de bicicleta, em carrinhos de rolimã ou no kart movido a motor de picadeira de cana que o pai tinha construído para ele.
As botas de cano médio que a mãe comprava regularmente na Sapataria Hollywood, loja tradicional do bairro de Santana, Zona Norte de São Paulo, resistiam não mais do que quinze dias àquela explosão continuada de energia, só interrompida à noite, quando ele ia para a cama, exausto.
O neurologista tranqüilizou Dona Neyde.
O menino não tinha nada de errado. Na verdade, era desajeitado, soube a mãe, por ser rápido demais em tudo o que fazia. Era voraz na hora de experimentar, veloz na hora de aprender. Faltava apenas descobrir um pouco mais de precisão na ocupação dos espaços físicos. E era apenas uma questão de tempo o problema desaparecer, levando com ele o estilo e a fama de desastrado.
O neurologista não fez apenas um diagnóstico.
Tateou um fenômeno.
Antecipou uma vida.
Ernesto Rodrigues
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