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| » » » 04.04.08 |
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| Sacanagem na Fórmula 1 |
04.04.08 |
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| Rubinho, indo à luta no Bahrein |
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Felipe Massa prestes a ser moído pela máquina impiedosa do mercado da Fórmula 1, com a ajuda histérica, como sempre, da torcida ferrarista e da exagerada imprensa italiana. Nelsinho, sem emitir uma centelha sequer que nos remeta à trajetória do pai, a não ser, pelo que leio, a arrogância na hora de falar com os jornalistas, brasileiros em especial. E os bastidores da categoria mais parecendo uma loja decadente de filmes pornográficos, prometendo, para os próximos dias, quem sabe, com todo respeito, cenas de Flavio Briatore, caracterizado como um devasso senador do Império Romano, sendo espetacularmente sodomizado por dois ou três jovens aspirantes a um cockpit na equipe Renault.
Muito tem sido dito e escrito sobre os três assuntos acima.
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| Massa, o mais rápido no primeiro treino no Bahrein |
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O que me leva a dividir com os amigos do GPTotal um sentimento que creio não ser novidade para os conhecedores profundos do automobilismo, independentemente de nacionalidades, preferências e torcidas. Trata-se de um fenômeno que me incomoda e que atinge um personagem que está para sair de cena. Um personagem que, no âmbito brasileiro, sempre teve suas inegáveis virtudes e seus conhecidos defeitos totalmente embaralhados por circunstâncias do seu tempo, por algumas injustiças e, principalmente, por uma lamentável ignorância em matéria de automobilismo, tanto de jornalistas ditos “esportivos” quanto de milhões de torcedores de ocasião, mal-acostumados com as glórias aparentemente fáceis de Emerson, Piquet e Senna.
Refiro-me, claro, a Rubens Barrichello.
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| Kimi, o segundo mais rápido no treino de abertura do GP |
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Para ficar num exemplo da temporada atual, basta observar o que está acontecendo com o bicampeão Fernando Alonso para entender o que muitos brasileiros - ao contrário, insisto, da maioria dos leitores deste GPTotal - jamais compreenderam, ao cobrar resultados de Barrichello na Jordan e na Stewart: sem um carro competitivo não há vitórias ou títulos, seja qual for o piloto. É claro que Rubens só piorou a situação ao longo de todos aqueles anos de Jordan e Stewart, não na pista, mas nas entrevistas à imprensa brasileira, cedendo sistematicamente à tentação de dizer impossibilidades bem-intencionadas e confiar na vitória, nos inícios de campeonato e nos seus sempre desastrosos Grandes Prêmios do Brasil.
A incapacidade que a maioria dos brasileiros tem de avaliar equilibradamente o desempenho de Barrichello continuou e se agravou ainda mais, tornando-se piada nacional, nos sete anos de Ferrari. Sempre, infelizmente, com a ajuda do próprio Rubens, mais uma vez fora da pista, agora cedendo ao desejo incontrolável de dar entrevistas considerando-se detentor das mesmas atenções que a equipe italiana dava a Michael Schumacher. Essa desastrada estratégia de comunicação, aliada a algumas situações humilhantes que a Ferrari impôs a Barrichello nas pistas, impediu que a grande maioria das pessoas percebesse a façanha que ele protagonizou ao andar tão próximo e por tanto tempo de um dos gênios do automobilismo de todos os tempos. E com um equipamento não necessariamente tão bom.
Até mesmo um momento em que Barrichello foi impecavelmente mais veloz que Schumacher, fazendo com que a Ferrari o obrigasse a ceder o primeiro lugar ao alemão no GP da Áustria de 2002, costuma ser lembrando, por nós, como vergonhoso para Rubens, quando a vergonha e o constrangimento deveriam recair muito mais na hipocrisia da equipe e de Michael.
Não tenho as estatísticas à mão, mas há outro grande feito de Barrichello do qual poucos se dão conta: a baixíssima taxa de erros dele em treinos e corridas, mesmo tendo como parâmetro, ali do lado, no boxe da Ferrari, a montanha intransponível de eficiência e velocidade que era o alemão. Apenas para ilustrar, vale comparar a taxa de erros de Felipe Massa, tendo ao seu lado Kimi Raikkonen, num carro praticamente idêntico.
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| Nelsinho, em 13o, andou perto de Alonso noi primeiro treino |
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A façanha de resistir psicologicamente ao alemão e ao fundamentalismo ferrarista durante tantos anos, vencendo nove corridas e ainda ganhando algumas dezenas de milhões de dólares, dá bem uma idéia da capacidade de Barrichello enfrentar a máquina que hoje parece começar a triturar a carreira de Massa. Mas não adianta: nem o fato de se tornar o recordista em participações e uma das maiores pontuações da história da Fórmula 1, faturando, dizem, mais US$ 12 milhões com a Honda na atual temporada, impede que Barrichello continue sendo uma piada no Brasil. Quanto menos do ramo forem, claro, os participantes da conversa.
Barrichello virou piada no Brasil, de certo modo, por culpa – obviamente involuntária - de Emerson, Piquet e, principalmente, Senna. Tentando explicar: Emerson inspirou o surgimento de milhares de “entendidos” em automobilismo, Nelson os elevou aos milhões sem lhes retirar as aspas e Ayrton incendiou a multidão, transformando boa parte dela em uma espécie de religião, não importando muito entender de automobilismo, principalmente depois da tragédia de Imola. Para complicar, antes mesmo de Imola, houve o choque irremediável entre sennistas e piquetistas, com danos, incompreensões e injustiças irreparáveis e duradouras para ambos os lados.
O tremendo descompasso entre o tamanho do contingente de fãs brasileiros – piquetistas ou sennistas - e o grau de conhecimento que esses mesmos fãs tinham dos princípios básicos do automobilismo só contribuiu para que a discussão sobre Fórmula 1, em nosso país, se tornasse cada vez mais descolada da realidade do esporte. E Barrichello, respeitado e reconhecido lá fora como um dos bons pilotos da categoria nos últimos 15 anos, é a principal vítima desse descompasso na mídia não especializada e em muitas rodas de “entendidos”.
Aqui no Brasil é assim: ou o cara é campeão ou, como diria Marcelo Madureira, é uma merda.
Puta sacanagem.
Um abraço
Ernesto Rodrigues
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