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| » » » 07.11.07 |
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Ainda bem que eu deixei claro, há algumas semanas, na coluna intitulada Deus Kimi livre, que considerava Kimi Raikkonen um piloto tão veloz quanto Alonso ou Massa, altamente técnico e muito próximo do estilo silenciosamente perfeito de Alain Prost e outros da escola Fangio, qualquer que viesse a ser o desfecho da luta pelo título de 2007. Repetido o inequívoco e prévio reconhecimento das qualidades do novo campeão na pista – e pedindo perdão pela reincidência no trocadiho do título - devo dizer que meus temores, como jornalista, começaram a se confirmar já nas entrevistas (?) que ele concedeu após aquela tarde sobrenatural em Interlagos.
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| Kimi e Todt nas comemorações pelo título, em Mugello, semana passada |
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Fora o script que a Fórmula 1 inteira já previa para ele depois da corrida – uma noitada com os amigos regada a muita vodka em uma casa noturna de São Paulo –, não me lembro de nenhuma declaração ou revelação marcante do novo campeão. Tudo bem que a notícia era muito mais a derrota de Lewis Hamilton do que o título de Raikkonen, mas o finlandês, como eu temia antes do desfecho do campeonato, só confirmou o personagem intelectualmente insípido e jornalisticamente pouco estimulante que eu temia na citada coluna Deus Kimi livre cujo conteúdo, claro, não pretendo repetir aqui.
“Dane-se!”, dirão os fãs de Kimi.
“Problema seu!”, diria meu chefe, na redação, se eu ainda tivesse um e fosse correspondente de Fórmula 1.
“Piloto tem que acelerar e não ficar contando histórias pra jornalista”, aconselharia Nigel Roebuck, o mais brilhante e bem-informado cronista de automobilismo que conheço.
“(Impublicável)-se!”, rosnariam os fãs mais exaltados da Ferrari que me xingaram pelo fato de eu ter revelado minha antipatia pela famiglia na última coluna.
Todas as alternativas acima, de certo modo, são plausíveis ou aplicáveis, ainda que eu não tenha de concordar ou aceitar algumas delas.
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| Emerson esteve em Mugello |
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O fato novo, porém, é que fui tomado por uma nova compreensão da personalidade de Kimi Raikkonen depois de uma bela reportagem do programa Esporte Espetacular, feita não com ele, mas sobre ele. A matéria mostrava as origens humildes de sua família em uma cidadezinha perdida no interior da Finlândia, o surrado kartódromo de iniciação, hoje prestes a dar lugar a um cemitério, o depoimento do irmão mais velho sobre a distância planetária entre aquele cenário e o mundo milionário da Fórmula 1, e a tocante solidariedade do pai de Kimi, que abriu mão de construir não um mas o banheiro no barraco em que a família vivia para poder comprar um kart para ele.
No final da reportagem, surpreso, eu me peguei perguntando qual a diferença cultural e intelectual que deveria existir entre Kimi e esses gênios do futebol que brotam incessantemente das favelas e periferias brasileiras? Por que cobro de Raikkonen o que não cobro, por exemplo, de um Robinho? Por que a pele branca, os olhos azuis, os cabelos louros e o passaporte do Hemisfério Norte do atual campeão mundial de F1 o obrigariam a conhecer Mozart, ser leitor de Umberto Eco, ter uma posição sobre o aquecimento global, saber indicar um bistrô em Paris ou ser assinante da revista The Economist ?
Ao refletir sobre a turma que pega pesado fora dos campos de futebol, como muitos jogadores brasileiros, e dos autódromos, como Kimi, eu também me perguntei qual a diferença entre vodka e cachaça. Ou entre música tecno e pagode. Não vi contrastes significativos. E comparando o cotidiano dos astros desses dois esportes, pensei nas semelhanças entre o tênis Nike e as sandálias Havaianas. E na mentalidade shoppiniana da maioria desses meninos.
Aí caiu a ficha. Imaginei Kimi com o uniforme do Real Madri, zerei o preconceito às avessas com o fato de ele ser um europeu e, de repente, minhas exigências jornalísticas em relação ao novo campeão mundial de Fórmula 1 diminuíram brutalmente, ficando muito próximas das de Tino Marcos ou de Mauro Naves, quando eles se preparam para entrar ao vivo, na beira no campo, depois dos jogos da seleção brasileira.
Menos aflito, concluí que assim como Robinho não tem nada a ver com a sofisticação intelectual de um Tostão, a militância de Afonsinho e Sócrates, o instinto comediante de Dario Maravilha, o pragmatismo político de Platini e Beckenbauer, a vocação de showman de Júnior e o eterno senso de humor de Romário, Kimi Raikkonen não tem nem está preocupado com o approach filosófico e corporativo de Stewart, a língua cortante e irreverente de Piquet, a torturante seriedade de Senna, a coragem kantiana de Lauda, a classe de Moss e o faro político de Schumacher.
Raikkonen e Robinho fazem o deles muito, muitíssimo bem. E ponto.
Antes e depois, eles ligam o, digamos, dane-se.
Eu Kimi vire.
Junto com o abraço a todos, a promessa de um basta irrevogável nos trocadilhos com o nome do campeão.
Ernesto
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