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Uma Beretta no meio do caminho 03.10.07


Sem querer polemizar e muito menos contestar a saborosa coluna “That´s entertainment”, em que minha colega Alessandra Alves fala da Ferrari e, indiretamente, das paixões desencadeadas, há décadas, em escala planetária, por essa instituição - carro, equipe, fundador, pilotos, torcida, escudo, cor e todas essas alternativas combinadas de múltiplas maneiras - devo confessar que a leitura do texto me pegou no contrapé.

Pit stop de Kimi em Fuji
Também prefiro, por exemplo, Billie Holiday a Sarah Vaughan e Charlie Parker a Wynton Marsalis. Mas me senti assim como se fosse um solitário torcedor do América Futebol Clube, qualquer América Futebol Clube, quando, no texto de Alessandra, Maranello foi saudada como detentora do monopólio da paixão na Fórmula 1. E me senti assim porque, ao mesmo tempo em que admiro a McLaren de Ron Dennis – e não por causa de Emerson ou Senna, diga-se - sinto uma profunda antipatia pela Ferrari.

O que quer dizer que Alessandra e eu, embora estejamos de certa forma na mesma estrada, a da paixão pela Fórmula 1, trafegamos em sentido contrário. Não em rota de colisão, por favor! Muito pelo contrário: o texto que se segue, longe de se pretender a condição de tese ou argumento de contestação ao que Alessandra escreveu, não passa de uma simples e subjetiva manifestação de sentimentos. Como os que ela expressou, com o talento de sempre, em sua coluna.

Quando penso em Ferrari, vejam vocês, o que me vem à mente é a imagem de uma empresa fechadíssima, uma hierarquia medieval, uma torcida irracionalmente subserviente, um código quase mafioso de conduta interna, uma disciplina meio fascista baseada no medo e uma cultura organizacional que é uma afronta a tudo o que existe de moderno e saudável nas chamadas relações de trabalho. E tudo isso magicamente entrelaçado com o que há de mais moderno e ousado em design e alta tecnologia. É assim como ter, ao lado do mais avançado computador do planeta, uma velha - e ainda fatal - carabina Beretta.

O Ferrari de Kimi, em Fuji
Não sou ingênuo a ponto de achar que as outras equipes da Fórmula 1 formam uma confraria franciscana, mas quando penso em Ferrari não consigo esquecer o desprezo histórico que a escuderia reserva para os pilotos que deixam de ter utilidade para ela, quaisquer que sejam as circunstâncias. Em 1976, por exemplo, não perderam tempo: Niki Lauda ainda lutava contra a morte no hospital, depois do terrível acidente em Nurburgring, e a equipe já estava fazendo uma proposta para Emerson Fittipaldi, então na McLaren.

No culto cego à própria mística, a Ferrari não destrói apenas pilotos medianos como fez com Ivan Capelli. Consegue queimar estrelas como Nigel Mansell. E cometeu a proeza histórica de demitir – de forma humilhante, diga-se - um dos maiores pilotos de todos os tempos, Alain Prost. Há quem veja charme e romance nesse tipo de política de recursos humanos. Discordo, respeitosamente.

Com a palavra, Prost, que, mesmo nunca tendo sido nenhuma flor que se cheire, merece ser ouvido sobre o que significa trabalhar na casa dos herdeiros do Comendador: “Cometi dois erros na Ferrari: primeiro, acreditar que poderia mudar a mentalidade daquela gente. Em Maranello não há solidariedade, entusiasmo e a humildade necessária para se vencer. E falta acima de tudo profissionalismo como o que os japoneses (da McLaren-Honda) têm. Meu outro erro foi dizer a verdade", disse o francês em 1992, meses antes de voltar à Fórmula 1 para ser tetra na Williams.

Para completar minha assumida antipatia pela instituição Ferrari, vem a chamada “era Michael Schumacher”, a Fórmula 1 de um gênio só, solitário, absoluto e que, além de não encontrar rivais à altura nas outras equipes, teve, na trajetória de seu mais duradouro “companheiro” de equipe, Rubens Barrichello, com o consentimento bem-remunerado de Rubens, claro, um retrato acabado do que a Ferrari é capaz de fazer com seus empregados.

Massa, nos treinos de sábado, em Fuji
A ridícula entrega da vitória ao alemão, a metros da chegada em Zeltweg, as inúmeras lambanças táticas, técnicas e mecânicas que só aconteciam com o carro de Barrichello, a desculpa idiota de que o eixo traseiro do carro de Rubinho se quebrou por causa de um ângulo de ataque errado nas zebras de Hungaroring e mais o saco mensal de mentiras ou amenidades inúteis que a assessoria de imprensa de Maranello há anos impõe regularmente aos jornalistas, tudo isso só me faz lembrar uma frase que corre o paddock e cuja transcrição é mais ou menos a seguinte: “Aquele cavalinho também dá muito coice”.

Um abraço

Ernesto

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