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Relâmpago na piscina 04.06.07


Nesse momento em que quase tudo dá certo para Felipe Massa, é curioso observar que, fora do Brasil e, talvez de parte da Itália, não são poucos os que o colocam em uma posição secundária na comparação com Kimi Raikönnen, Fernando Alonso e Lewis Hamilton. Um bom termômetro dessa descrença é o resultado da pesquisa em que mais de 1200 leitores da revista inglesa F1 Racing, edição de maio, fizeram suas apostas e escolhas.

Massa, 3o em Mônaco
De acordo com a pesquisa, feita antes da vitória de Massa no GP de Bahrain. 63,4% dos leitores acreditavam que Kimi seria um substituto à altura de Michael Schumacher. Um percentual semelhante de leitores, 64,6%, dizia que Kimi será o campeão da temporada. A própria F1 Racing, em uma das perguntas, não deixa dúvidas sobre quem, para ela, seria o herdeiro natural de Schumacher na Ferrari: “Felipe Massa vai se aprimorar como companheiro de equipe de Raikönnen?”. Nada menos do que 63% responderam que sim.

Para ilustrar a onda de otimismo em relação à performance de Raikönnen na Ferrari, a revista citou o seguinte prognóstico do leitor Mark Young, de Sydney, Austrália: “Felipe vai crescer como companheiro de equipe de Kimi. Vai vencer corridas, vai cometer erros e vai dar muito sangue, mas tudo na mesma velocidade de Kimi”.

E não foram apenas os leitores que, convidados pela revista a se manifestar sobre o quem-é-quem no campeonato, apostaram no finlandês. Ouçamos David Coulthard: “Eu vou me surpreender se Kimi não deixar Felipe para trás, não porque eu desconsidere Felipe, mas porque Kimi é mais veloz”.

Nick Heifeld foi na mesma linha: “Minha única surpresa nos testes de inverno foi a diferença de desempenho entre Felipe e Kimi. Eu esperava que Kimi fosse mais rápido desde o início”.

Kimi, pouca sorte no último GP
Eu levaria mais em conta o que ficou implícito na cuidadosa resposta de Ron Dennis, o ex-patrão de Kimi, à pergunta sobre as perspectivas do finlandês na Ferrari: “É claro que seria possível para mim dar uma resposta a essa pergunta, mas eu não vou fazê-lo porque, apesar de Kimi não ser mais um piloto da McLaren, eu ainda o considero um amigo. E, como sempre acontece em uma amizade, você acaba conhecendo as qualidades e as fraquezas do amigo”.

Com todo respeito aos participantes da enquete, as razões que levaram Ron Dennis a trocar o “amigo” Kimi pelo bicampeão Fernando Alonso são muito mais fortes e convincentes. Concluo, portanto, ainda que temporariamente, que Felipe Massa, depois de suas consistentes vitórias nos GPs do Bahrain e da Espanha, e do sólido terceiro lugar em Mônaco, tornou-se uma espécie de zebra, no que diz respeito às previsões sobre o futuro da Ferrari sem Schumacher e sobre quem será o campeão de 2007.

O que não resolve nem diminui, absolutamente, a crescente sensação de incapacidade que venho sentindo para interpretar performances e talentos a partir do que vejo nas transmissões dos treinos e corridas da Fórmula 1. Uma sensação que se agravou intensamente há algumas semanas, quando li, neste site, descrições detalhadas e desconcertantes sobre os estilos de pilotagem de vários pilotos, de várias épocas.

Ao final da leitura dessas descrições, tomado por um imenso desconforto com minha dificuldade em perceber diferenças nas tocadas de Schumacher, Alonso, Senna, Prost e outros citados e mostrados em seqüências de on-board cameras, fiquei entre duas alternativas: problema oftalmológico ou incapacidade, digamos, “cultural”, de acompanhar a Fórmula 1 atual.

Aprendi a amar esse esporte observando, acima de tudo, muitas ultrapassagens, o equivalente aos gols do futebol. E identificando pilotos que destruíam ou preservavam pneus, motores que explodiam, caixas de câmbio que não perdoavam trocas de marchas erradas e curvas que assustavam. Esse know-how se mostra cada vez mais obsoleto.

Só não desisto de acompanhar a Fórmula 1 atual porque, de vez em quando, por alguns centésimos de segundo, consigo captar, sem necessidade replay em slow-motion, a magia desse esporte. Como naquelas duas ou três entortadas do Lewis Hamilton nos esses da piscina, em Mônaco, domingo passado, breves e intensas como os relâmpagos.





Dica: enquanto não acaba a moleza do YouTube, sugiro duas preciosidades:

Um desfile de carros que se tornou um pega antológico entre Juan Manuel Fangio e Jack Brabham.



Um show de talento de Jim Clark, ao volante de um Lotus Cortina.



Um abraço

Ernesto Rodrigues

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