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Mundo de mentirinha 04.05.07


- A volta foi até boa, mas tem um barulho estranho no motor.

Giacomelli e seu Life em Mônaco 90
O diagnóstico preciso, ouvido com atenção pelo engenheiro da equipe, era do piloto italiano Bruno Giacomelli, ao voltar para os boxes de Imola com seu Life L90, um dos carros mais catastróficos da história da Fórmula 1. Corria o campeonato de 1990 e Giacomelli, num retorno surpreendente à categoria, depois de temporadas sofridas na Alfa Romeo, entre 1979 e 1982, e na Toleman, em 1983, não conseguia tempo suficiente sequer para alinhar na última fila do grid. O Life de Bruno era um desastre e o motor, um 12 cilindros em “W” projetado pelo italiano Franco Rocchi, era a piada do momento.

A resposta do engenheiro ao comentário cirúrgico de Giacomelli sobre aquele barulho estranho fez muita gente desabar no paddock:

- Não liga para o barulho, Bruno. É que esta foi a primeira vez em que todos os doze cilindros funcionaram.

Histórias como esta, fossem baseadas em fatos ou apenas no folclore da Fórmula 1, podiam ser ouvidas com razoável freqüência e facilidade no paddock, na época de Giacomelli E quanto mais retrocedemos no tempo, mais a literatura e os testemunhos relacionados à categoria máxima do automobilismo nos oferecem páginas saborosas, dramáticas ou eletrizantes sobre os bastidores desse esporte sensacional.

Não acompanho mais a Fórmula 1 de perto, mas fico imaginando, solidário e preocupado com meus colegas de profissão, a dificuldade que eles enfrentam atualmente para garimpar histórias verdadeiras e humanas na chatice reluzente desses paddocks cada vez mais assépticos, inacessíveis e controlados pela chamada comunicação empresarial.

Os próprios pilotos, pelo que leio, cada vez mais se tornam menudos comportados, enfadonhamente fiéis aos scripts que lhes são contratualmente impostos pelos chefes de equipe. Aos poucos, vão ficando a anos-luz do comportamento e das atitudes de personagens – para citar apenas exemplos brasileiros - como Nelson Piquet, a irreverência e o senso (sacana) de humor em pessoa, e Ayrton Senna, cujo temperamento guerreiro não lhe permitia levar desaforo para casa.

Um exemplo engraçado do que acontece de mentirinha - e de verdade - nesse mundo dos press releases da Fórmula 1 pode ser encontrado na página 160 do livro The mechanic´s tale, escrito em 1994 pelo ex-mecânico da Ferrari e da Benetton Steve Matchett. Verdadeiro insider da Fórmula 1, Steve foi um dos mecânicos envolvidos pelas chamas da Benetton de Jos Verstappen, naquela quase-tragédia ocorrida durante um pit-stop, em Hockenheim, também em 94.



Baseado no que assistiu, calado, em uma centena de grandes prêmios, Steve reproduziu, no livro, o comportamento predominante dos assessores de imprensa das equipes. E eu tento traduzir corretamente.

Primeiro, o que os assessores dizem, sempre sorrindo: “Está tudo bem. Não existe problema sem solução. Nossos dois pilotos estão com leves dificuldades no sistema de direção, mas a equipe estará concentrada nesse pequeno contratempo durante a tarde e certamente estaremos aptos a conseguir voltas mais rápidas amanhã. Os tempos dos nossos pilotos foram altos por causa de um pequeno problema no câmbio, mas estamos confiantes de que os dois carros da equipe estarão entre os seis primeiros do grid e de que, tudo correndo bem, um lugar no pódio não está fora de questão”.

Agora, o que os assessores gostariam de dizer, rosnando: ”A verdade é que esses nossos carros não estão em condições mínimas de serem utilizados, mesmo que os mecânicos trabalhem neles o resto do dia. Nenhuma mudança que se tente fará a menor diferença, já que esse chassi se mostrou completamente inútil em todos os circuitos, desde quando a equipe virou noites para construí-lo, no início da temporada. O câmbio, na verdade, foi completamente destruído por um problema latente que vem acontecendo nas quatro últimas corridas. E o pior é que nada foi feito para resolver o problema. Os mecânicos estão ameaçando incinerar seus uniformes, ir embora para o hotel, encher a cara e antecipar em dois dias a volta para casa. Os pilotos e os engenheiros passaram a manhã inteira gritando uns com os outros pelo rádio. Os pilotos são acusados de não ter talento para pilotar um Fórmula 1 e os engenheiros de não serem capazes de consertar nada além de um cortador de grama. E para completar, o patrocinador oficial da equipe, cansado de esperar por resultados, está quase pulando fora”.

Alguém tem dúvida de que situações como esta continuam acontecendo?

Um abraço

Ernesto Rodrigues

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