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Home » Convidados » Ernesto Rodrigues » 02.03.07
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Passo um Fiat Dobló 02.03.07
Amigos do GPTotal,

Antes de encerrar esta coluna da forma como ela foi editada até hoje, em respeito aos que gostavam de freqüentá-la, devo fazer, além dos comentários que se seguem, uma inequívoca e estrondosa ressalva: como apaixonado por automobilismo, adoro o GPTotal, seus colunistas, os ensaios fotográficos, o emocionante garimpo de imagens históricas, as resenhas que se seguem aos grandes prêmios e a maioria – a maioria, repito - das polêmicas que são travadas aqui.

Isto posto, quero dizer que me convenci de que a reprodução de trechos do meu livro Ayrton, O Herói Revelado não faz mais sentido. O empurrãozinho final para a decisão foi a lúcida observação do leitor Anderson Rubin, que, embora elogiando meu trabalho, chamou atenção para o inconveniente de se publicar, mensalmente, sem contextualização, trechos soltos de um livro que, inteiro, tem 640 páginas. Certíssimo o Anderson.

Também ajudou, na decisão de mudar a forma da coluna, a quantidade de sandices que algumas pessoas se dispuseram a escrever sobre mim e sobre o meu livro, depois que publiquei parte de um artigo no qual abordava, de forma jornalisticamente séria, aspectos polêmicos e controversos da vida sentimental de Ayrton Senna que ficaram para sempre associados à sua história.

É claro que houve compreensão, solidariedade e elogios de parte de alguns leitores, aos quais volto a agradecer. Mas nada me exime do erro de ter acreditado que estava escrevendo para um público predominantemente neutro, em relação a essa insuportável e vergonhosa guerra póstuma entre piquetistas e sennistas.

Errei feio, ao pensar que o grau admirável de conhecimento de automobilismo demonstrado pela maioria dos leitores deste site fosse equivalente à capacidade desses mesmos leitores de perceber que o autódromo onde corriam Senna e Piquet está vazio, a noite já caiu, os boxes estão vazios e silenciosos, e o campeonato acabou. Para sempre. Quem duvidar que vá ao cemitério do Morumbi ou tente, com a secretária de Piquet, uma horinha para conversar com ele sobre blindagem de automóveis ou monitoramento de caminhões por satélite.

Em vez de enrolar as respectivas bandeiras e voltar para casa, acariciando os bonés de estimação, lustrando a memória de seu respectivo ídolo ou preferido, de olho no futuro desse esporte maravilhoso, esses sennistas e piquetistas insistem em permanecer na arquibancada – no caso, a seção de cartas deste GPTotal – trocando hostilidades, insultos e provocações, em versões pretensamente literárias dos paus, pedras, facas e tiros que as manchas verdes, alvinegras e tricolores trocam semanalmente nos estádios brasileiros.

Senna e Piquet juntos, no Rio 88 - Clique para ampliar
Dizem que o brasileiro é um povo alegre, que não gosta de sofrer. Balela.

Um povo que não gosta de sofrer não fica destruindo seus grandes profissionais, nessa busca frenética de carniça.

Um povo que não gosta de sofrer não faz o que fazemos não apenas com Senna e Piquet, mas também com Ronaldo Nazário, Rubens Barrichello e tantos outros profissionais que, com seus evidentes erros ou limitações, na maioria das vezes, apenas tentaram ou tentam fazer o deles direito, dignamente, humanamente. Como a maioria de todos nós, em nossas profissões.

Nossa paixão, nos esportes, muitas vezes é estúpida. Se nosso piloto perdeu uma corrida ou nossa seleção foi desclassificada na Copa, a culpa é sempre do nosso piloto e da nossa seleção, respectivamente. Pau neles, os incompetentes, portanto. Não interessa se o adversário, na pista ou no estádio, deu um show de competência. Não temos olhos para o talento dos nossos adversários. Essa é a praga que se espalha e se renova na torcida brasileira.

Os japoneses, para citar um exemplo, não são estúpidos. Sempre conciliaram a admiração pelos pilotos estrangeiros, Piquet e Senna entre eles, com uma respeitosa e paciente torcida por Satoru Nakajima, um piloto que foi, para muitos de nós, brasileiros, uma piada amarrada ao cockpit. A gente ri, mas, no final das contas, os japoneses sempre têm um ou mais pilotos por quem torcer. E nós, consumidos por nosso olhar autodestrutivo, às vezes não temos nenhum, apesar do espetacular retrospecto de nossos pilotos na Fóirmula 1.

Fui assinante da Autosport inglesa por quase duas décadas. Morei em Londres por três anos e lia, semanalmente, por prazer e obrigação profissional, quilos de jornais e revistas. E não me lembro de nenhuma guerra besta entre, por exemplo, torcedores dos ingleses Nigel Mansell e Damon Hill, de um lado, e fãs dos escoceses Jackie Stewart e Jim Clark, do outro. Os britânicos, como os japoneses, não são estúpidos.

Devo confessar que já participei dessa gincana patética, atuando, acredite quem quiser, na tropa piquetista. A meu favor, no entanto, registro que o fiz na época em que Ayrton e Nelson corriam, produzindo novos fatos e emoções na pista. Não era, portanto, essa atual mistura de autópsia com necrofilia automobilística. Não, o que vejo em algumas cartas deste site não é, definitivamente, nostalgia, resgate histórico ou saudade de Ayrton ou de Piquet. Sei a diferença.

Registro também - e este detalhe é bem mais importante – que jamais participei do festival de grosseria, mentira e mau gosto que os piquetistas mais radicais, entre eles alguns conhecidos jornalistas, promoveram em torno dos tais boatos sobre a vida íntima de Senna.

Pois bem. Essa gincana patética, eu descobri com o tempo, começou a provocar em mim uma espécie de pedido antecipado de desculpas – ou licença – antes de transpor, para este site, trechos do livro que escrevi sobre Senna. E a ficha finalmente caiu nos últimos dias, com a ajuda do Anderson Rubin, depois do carnaval que fizeram com o que escrevi, com respeito e cuidado, sobre Ayrton.

E aí pensei: por que tenho de pedir licença para tocar num assunto sobre o qual me debrucei com paixão profissional e dedicação durante dois anos e cujo resultado, além de ser um livro muito bem-sucedido para os padrões editoriais brasileiros, é um dos momentos mais gratificantes dos meus quase trinta anos de profissão? Qual o sentido de ficar “reescrevendo” um livro que já está escrito? Qual é o prazer de ver um trabalho sério ser usado como bucha de canhão pelos dois lados de uma briga idiota de arquibancada? Por que não deixar meu livro quietinho na estante, para quem quiser ler ou comprar?

A resposta, acrescida de um enorme e emocionado abraço de agradecimento ao Eduardo Correa por sua confiança e pela generosidade do convite, e por um imenso obrigado aos leitores que me deram a honra da leitura nos últimos três anos, tem três letrinhas.

Fui.

Mas volto em breve, escrevendo, de alguma maneira, sobre esse negócio fantástico de acelerar e fazer curvas...

Um abraço a todos.

Ernesto Rodrigues
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