<% strBraco = "Convidados" strSub = "Ernesto" strDoc = "20070202" strData = "02.02.07" strNome = "Ernesto Rodrigues" %> ..:: GP TOTAL ::..
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2/2/2007

Amigos do GPTotal,

É sempre bom, principalmente neste início de temporada e considerando a altíssima octanagem das “torcidas” que se digladiam neste site, lembrar o seguinte: ainda ocupo esta coluna porque escrevi uma biografia de Ayrton Senna – “Ayrton, o herói revelado” – e porque meu amigo Eduardo Correa, generoso como sempre, acha que vale a pena continuar atendendo ao desejo dos meus leitores, ainda que eu os imagine suficientes para, no máximo, lotar um Fiat Doblò.

Feito o alerta, vou tomar a liberdade, desta vez, não de reproduzir, como sempre, um trecho do livro, mas a primeira parte de um artigo – “A síntese impossível do santo com o guerreiro” - que me foi encomendado pela revista Paris Match à época do lançamento da biografia. E aqui torna-se providencial um outro alerta: o assunto continua sendo Ayrton Senna, mas não o piloto.

O pessoal do Fiat Doblò dá uma olhada e, se for o caso, avisa se quer ou não o resto do artigo, que é mais relacionado com a carreira de Senna.

Um abraço e boa temporada para todos nós!

Ernesto

De Lilian a Galisteu

A distância entre a glória e o fracasso, no mundo de Ayrton Senna, era medida em décimos de segundo. Nas pistas, ele venceu e redefiniu o significado de palavras como limite, risco, esforço, dedicação e coragem, deixando a certeza de que dificilmente será igualado em intensidade, dedicação e bravura.

Fora do cockpit, porém, como qualquer mortal, ele não escapou da imprevisibilidade da paixão e do lento aprendizado do sentimento. Não eram curvas que ele tinha de enfrentar. Era a vida.

Muitos de nós, anestesiados por seu espetáculo na pista e arrebatados pela solidez perfeita daquele capacete amarelo atravessado de verde e azul, não lhe demos o direito de ser humano, de ter defeitos e de ser frágil. Mas ele sofreu muito ao tentar conciliar o coração ingênuo e quase adolescente com a oferta incessante e exigente de sexo, aventura e badalação que o rodeava nos autódromos do mundo, seu local de trabalho.

O casamento com Lilian de Vasconcellos, uma tentativa apressada de conciliar a iniciação profissional na Fórmula Ford, na Inglaterra, com um namoro que mal tinha começado, desfez-se no frio e na solidão a dois, no interior da Inglaterra. Seu momento mais amargo aconteceu dentro de um velho Alfasud, a caminho de Norfolk, depois de uma corrida de Fórmula Ford, quando a notícia de uma suspeita de gravidez da mulher foi recebida por ele com frieza e pragmatismo.

<% camimg = "Img/20070202/lilian.jpg" titimg = "Com Lilian, a esposa, nos primeiros tempos de Europa" %> Estivesse Lílian grávida, Ayrton queria que ela voltasse ao Brasil para cuidar sozinha da criança. O tempo mostraria que não era gravidez. Mas a ternura, àquela altura, estava com os dias contados. Depois do divórcio com Lílian, Senna optou por uma vida bem ao estilo de sua educação tradicional: um namoro comportadíssimo com a filha de um industrial de São Paulo e casos ocasionais em Portugal, Mônaco, Londres e Rio de Janeiro. A única condição que ele impunha a si e a elas era a de que nada ou ninguém poderia desviar sua atenção da Fórmula 1. Nenhuma ousou propor que ele fizesse uma opção entre o namoro e as pistas. Elas sabiam a resposta.

A primeira e, possivelmente, a única a abalar o compromisso religioso de Senna com a Fórmula 1 foi Xuxa Meneghel. O romance aconteceu no final de 1988. Foi como se Alain Prost e Juliette Binoche incendiassem a França com uma paixão arrebatadora. Um caso tão perfeito para a mídia que muitos brasileiros desconfiaram e passaram a tratá-lo como uma meticulosa operação de marketing pessoal, sob medida para duas celebridades cujas vidas pessoais inspiravam muitas perguntas e curiosidade.

<% camimg = "Img/20070202/xuxa.jpg" titimg = "Abrançando Xuxa" %> O romance acabou um ano e meio depois. A mídia, ao se dar por satisfeita com as explicações de Ayrton e Xuxa, que atribuíram o fim do namoro à incompatibilidade das respectivas agendas profissionais, acabou ficando à distância da maior decepção amorosa da vida de Senna. A dor do momento mais sofrido ele dividiu com alguns poucos de sua intimidade. Aconteceu em Nova York, no final de 89, quando Ayrton visitou Xuxa de surpresa, vestido de Papai Noel. Ele tentava uma reconciliação, mas não teve sequer permissão para entrar na casa em que ela estava.

Ainda sob o impacto do afastamento de Xuxa, Senna começou a se relacionar com outra brasileira, Cristine Ferracciu. Para ela, ele se revelou um homem dramaticamente dividido entre a carreira e a busca da felicidade pessoal, desconfiado de todos que se aproximavam dele e, apesar de já estar nos seus trinta anos de idade, afetivamente ainda muito dependente da família. Cristine chegou a ter o que chamou de "vida de casada" com Ayrton por cerca de um ano, mas não teve condições de concorrer com a Fórmula 1 e a família. O namoro acabou no final de 91, com uma conversa dolorosa dos dois na mansão de Senna, diante do mar paradisíaco de Angra dos Reis. Ao encontrar, no início de 1993, Adriane Galisteu, uma modelo iniciante que ganhava mil dólares para posar de recepcionista no hospitality center do autódromo de Interlagos, durante o GP do Brasil, Ayrton, já consagrado como tricampeão mundial, parecia cansado de relacionamentos muito sérios e “projetos” afetivos. Os amigos, mesmo os que no futuro se colocariam contra ela, perceberam nele um inédito relaxamento, um genuíno desejo de, enfim, aproveitar um pouco mais a vida e a fortuna, depois de tantos anos de devoção à Fórmula 1. A estes mesmos amigos, Ayrton dizia que Adriane era uma boa companhia, uma mulher que "não atrapalhava" e que o deixava mais leve e descontraído. Nem todos à sua volta gostaram de ouvir.

<% camimg = "Img/20070202/adriane.jpg" titimg = "Senna com Adriane Galisteu" %> O namoro com Adriane marcou o início de um doloroso processo de emancipação e distanciamento de Senna em relação à família. Uma crise que estava em seu auge no fim de semana em que ele morreu. Na véspera da tragédia, através do irmão Leonardo, ele ouviu a gravação de uma conversa telefônica na qual o ex-namorado de Adriane a provocava, dizendo-se melhor na cama que Ayrton. Não foi um momento fácil para Senna. Era mais um motivo de tristeza e aborrecimento naquele fim de semana sombrio e fatal.

Até aquele momento, Senna conciliava o estilo conservador na ideologia e no comportamento com uma discreta sucessão de aventuras sexuais e casos amorosos ligeiros. Um sincero apreciador do quesito virgindade, na hora de escolher uma mulher "para casar", Senna não hesitara em seguir, desde a juventude, os rígidos caminhos morais que lhe eram indicados pelos pais, Milton e Neyde. Fora profundamente influenciado por eles nas decisões importantes que tomara na vida. Naquele maio de 1994, porém, Senna era um homem determinado a cuidar mais diretamente de seu destino. E Galisteu era sua companheira na travessia.

Ernesto Rodrigues

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