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O alemão 16.10.06
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Senna e Schumacher quase se atracaram depois de um incidente entre ambos durante testes em Hockenheim 92
O anúncio da aposentadoria de Schumacher me levou a procurar, no meu livro "Ayrton, o herói revelado", o registro do momento em que ele surgiu no caminho de Senna. Na leitura de dois episódios, fica claro, considerando tudo o que aconteceu depois, que o relacionamento dos dois não poderia mesmo ser diferente.

Um abraço
Ernesto Rodrigues






O alemão

Schumacher estréia na Benetton em Monza 91
O primeiro encontro de Senna com o piloto que foi seu último rival aconteceu, também, naquele GP da Itália. Michael Schumacher já chamara a atenção de todos, dentro e fora da pista, em sua estréia, na corrida anterior. Dentro, por estrear na Fórmula 1 com um brilhante sétimo lugar, pilotando uma Jordan. Fora, por fazer duas vítimas brasileiras: Roberto Moreno, que foi tirado sem a menor cerimônia da Benetton por Flavio Briatore para dar lugar a Michael já em Monza, e Nélson Piquet, que começou a deixar de ser interessante para a mesma Benetton, à medida que o alemão desse a todos uma idéia do tamanho do lugar que ele conquistaria para si na história da Fórmula 1.

No jantar da sexta-feira que antecedeu a corrida, muitos já sabiam, em detalhes, como tinha sido a rasteira dada em Roberto Moreno. Para evitar uma guerra de liminares entre Eddie Jordan e Flavio Briatore, Bernie Ecclestone, sempre ele, se reuniu num hotel com Moreno e ofereceu 500 mil dólares para que ele aceitasse rescindir seu contrato com a Benetton e fosse para o lugar de Schumacher na Jordan.

Ayrton estava acompanhado de Cristine Ferracciu no jantar. Doze anos depois, ela lembrou que a aproximação de Schumacher foi quase uma reverência:

- Ayrton, um dia eu quero ser igual a você.

Senna, na lembrança de Cristine, devolveu o gesto de reverência e recomendou:

- Treina bastante. Vale a pena.

Cristine afirmou que, quando Schumacher se afastou, Ayrton, "mais desconfiado do que nunca", demonstrou ceticismo em relação à sinceridade de Michael.

No domingo, Senna manteve as esperanças de chegar ao título, terminando a prova em segundo lugar, atrás da Williams de Mansell. Schumacher, estreando no carro que era de Moreno, chegou em quinto. Ainda teria de esperar um pouco mais para desafiar Senna, mas seguiria seu conselho à risca.

Schumacher treinaria muito. E valeria a pena. Muito.





A nova encrenca

O toque entre Schumacher e Senna na França 92
Todos já tinham visto o suficiente, depois das cinco primeiras provas da temporada de 92: era uma questão de tempo a eclosão da primeira crise entre Senna e Schumacher, dentro e fora da pista. Ayrton, por tudo que vinha fazendo desde 1984. E Michael, pelo que todos no paddock já tinham certeza que ele faria nos anos que viriam.

Nigel Mansell, pelo estilo e o currículo, certamente complicaria a situação, se corresse por perto de Ayrton e Michael, mas, salvo no GP do Canadá, quando saiu da pista ao tentar tomar a ponta de Senna em uma manobra desastrada, ficou longe da encrenca. Lá na frente. E abrindo.

Nos treinos para a corrida que se seguiu ao Canadá, o GP da França, dia 5 de julho, em Magny-Cours, nada que Brundle, Senna, Schumacher, Berger e os projetistas da McLaren e Benetton fizessem, ainda que em sistema de condomínio, impediu que Nigel Mansell fosse três segundos mais rápido. Na corrida, outra dobradinha de Mansell e Patrese, desta vez garantida pela ordem, cumprida com desgosto por Riccardo, de ceder a liderança a Nigel.

Atrás dos pilotos da Williams, um pouco mais de pólvora para a guerra que todos já esperavam: Schumacher tentou ultrapassar Senna, que, previsivelmente, não facilitou. Os dois se tocaram e rodaram. Ayrton foi até o boxe da Benetton e, dedo em riste, não só reclamou como aproveitou para responder às queixas que Schumacher fizera para Ron Dennis e alguns jornalistas no GP do Brasil daquele ano.



"Você fez uma grande besteira, me jogou para fora da pista e, em vez de falar com seu chefe ou com os jornalistas, estou vindo falar com você agora".

Para quem não entendeu o recado, Senna explicou: "Ele me acusou de atrapalhá-lo no Brasil, mas meu motor estava cortando, não era intencional. Se tivesse conversado comigo, eu diria".

Em Silverstone, dia 12 de julho, em outro passeio de Mansell, Ayrton, em vez de enfrentar Schumacher, travou um duelo antológico de 52 voltas, este sem reclamações das partes, com Martin Brundle, pelo terceiro lugar. Até ter a transmissão quebrada e cair para a 18ªª posição.

O caldo da rivalidade entre Senna e Schumacher entornou de vez nos treinos para o GP da Alemanha, em Hockenheim. E, diferentemente do adversário frio, cerebral e cuidadoso que enfrentara em Prost, Ayrton encontrou à sua frente, no final da reta que dava acesso ao trecho sinuoso do estádio, um rival ousado e agressivo como ele, disposto a aplicar-lhe, a mais de 300 por hora, um brake test. O resultado: furioso, Senna passou quase uma volta tocando rodas com Schumacher. E, em boa parte do tempo, a cerca de 300 por hora.

Ayrton nem esperou o carro parar, na volta aos boxes. Revoltado, tirou o capacete e caminhou firme em direção à Benetton. Alcançou Schumacher no fundo da garagem. Depois de empurrar e sacudir o alemão pelos ombros, gritou: "Da próxima vez vai ser a última!"

Jo Ramirez fez parte da brigada de resgate da McLaren que afastou Senna do agravamento da situação, enquanto um grupo da Benetton se encarregou de arrastar Schumacher para uma providencial entrevista à TV alemã. Mas Senna esperou Michael voltar da entrevista e, com a intermediação de Flavio Briatore, conversou com ele. Por trás do brake test, ainda o incidente do GP do Brasil. Senna explicou que não estava atrapalhando Schumacher intencionalmente. E ofereceu até os registros da telemetria da Honda como prova de que o motor, em Interlagos, estava mesmo sofrendo cortes.

No final daquele dia, era inevitável associar as entrevistas dos envolvidos às dos tempos de Ayrton na Lotus-Renault. Desta vez, era o veterano Senna que falava de um novato brilhante: "Schumacher tem talento, está no início da carreira e sob grande pressão, mas tem que saber logo como são as coisas. Alguém pode se machucar".

No Brasil, no dia seguinte, as manchetes também se pareciam muito com as da imprensa européia nos tempos da Lotus preta de Senna. Com o título "Alemão faz do carro uma arma", a edição do Estado de S. Paulo de 7 de julho de 92 reclamou: "O alemão Michael Schumacher, da equipe Benetton, está se tornando um piloto sem limites. Envolveu-se em inúmeros acidentes, quase todos por culpa sua. O mais grave, porém, acontece quando Schumacher parece não enxergar quem vai à sua frente e tenta ultrapassagens impossíveis".

Eram as voltas, no caso, muito rápidas, que o mundo dava.

Ernesto Rodrigues

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