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Adieu 23.06.06
Amigos do GPTotal,

Prost e Senna em Imola 89
Acompanhei, neste site, mantendo uma certa distância, o recente tsunami de cartas comparativas sobre Senna, Schumacher, Piquet e outros. Confesso que não li. E não li porque, ao passar os olhos pelos adjetivos mais fortes dos debatedores, pelas frases devastadoras e geralmente destrutivas de um e de outro lado da torcida, pelo tom categórico e científico das conclusões em favor de um e de outro piloto, me vi de volta aos jantares que estraguei, às amizades que quase perdi, à ressaca intelectual que se seguiu à maioria das discussões que travei e aos neurônios que queimei inutilmente na polêmica sobre Senna e Piquet. Isso no tempo em que ambos corriam.

Fui um dos mais apaixonados piquetistas da imprensa carioca, nos anos 80. Tinha, na ponta da língua, todos os argumentos, explicações e justificativas que comprovariam a supremacia de Piquet. Tanto na gloriosa ultrapassagem de Hungaroring - por fora, com a barata atravessada - (reveja a ultrapassagem clicando aqui) quanto no constrangedor baile que ele levou de Mansell nas últimas voltas de Silverstone, em 1987. Os dois lados da guerra sabem do que estou falando. Fui, talvez, para resumir a história, um dos últimos brasileiros a reconhecerem a genialidade de Senna. E, por ironia, acabei investindo dois anos da minha vida no projeto da biografia de Ayrton.

Vinte anos depois daqueles barracos automobilístico-comparativos, senti uma dorzinha no estômago ao ler, neste site, a paixão violenta com que alguns leitores do GPTotal se lançaram na mesma polêmica, desta vez com um ingrediente chamado Michael Schumacher. Daí a decisão de não ler. Ainda assim, acho que posso dar uma contribuição para que as pessoas encarem essa questão de forma mais equilibrada e, acima de tudo, mais justa em relação a tudo que esses grandes pilotos fizeram dentro e fora das pistas.

Minha contribuição, modesta e despretensiosa, é um trecho do meu livro "Ayrton, o herói revelado", que reconstitui a crise que eclodiu quando Senna ignorou um acordo de pista feito com Prost no GP de San Marino de 1989 e reunião decisiva e histórica de Ron Dennis com seus dois pilotos no circuito de Pembrey, dias depois. O trecho continua com uma série de depoimentos sobre a capacidade que Ayrton tinha - ou não - de acertar carros. Obviamente, não são opiniões minhas, mas de pessoas que conviveram intensamente com Senna e Prost: Gordon Murray, Alain Prost, Steve Nichols, Jo Ramirez, Osamu Goto, Michael Kranefuss e Hiro Teramoto.

Estou convicto de que, por estas e por outras entrevistas, quanto mais informação desapaixonada tivermos em relação ao assunto, mais rapidamente caminharemos em direção a uma visão equilibrada sobre este explosivo "quem é quem" da Fórmula 1.

E desde já vou avisando: não quero mais briga.

Um abraço

Ernesto Rodrigues






Adieu

Prost não se arriscou a exigir que a McLaren escolhesse entre ele e Ayrton. Sabia que era hora de ir embora. Estava claro nos olhos dos japoneses da Honda, na satisfação cifrada dos patrocinadores com o fenômeno Senna, na excitação do público com o estilo espetacular do novo herói da Fórmula 1 e no semblante antártico que Ron Dennis passou a lhe exibir depois das entrevistas que dera, revelando detalhes da reunião de Pembrey. Catorze anos depois da oficialização daquele divórcio, Alain e Ron não discordam, no que se refere às razões do rompimento. Ron explica: "Um dos pilotos tinha de ir embora. E eu fiz a escolha".

As recordações ficam diferentes quando o assunto é a conversa que Ron e Alain tiveram no início de julho para tratar da separação. A questão, no caso, é saber quem deixou quem primeiro. Prost reproduz o que disse: "Ron, não gosto do ambiente e do modo como sou tratado aqui. Nem fiz contato com outra equipe. O que sei é que não quero ficar. Prefiro o risco de não ter equipe o ano que vem do que continuar".

Em sua lembrança, Ron Dennis não contestou o relato de Prost. Apenas revelou que, naquela reunião e nos dias seguintes, quando o rompimento se tornou público, Alain estava sendo poupado de uma notícia desagradável: "Antes de Prost tomar a decisão de deixar a equipe, nós tínhamos contratado Gerhard Berger. Demos a Alain a dignidade de anunciar que ele estava deixando a equipe, mas, na realidade, tínhamos contratado Gerhard duas semanas antes".

Os dias seguintes mostraram que Prost não apenas fez uso pleno da dignidade que lhe haviam concedido. Saiu atirando: "Os dois últimos anos foram só de incerteza. Eu ia acabar maluco. Por que tanta angústia se minha vida é excelente e sou um vencedor? Não! Basta! Agora, deixo isso tudo para o meu rival".

Nélson Piquet, àquela altura disputando posições intermediárias, às voltas com a decadência da Lotus, mantinha a velha metralhadora engatilhada. E ironizou o desabafo de Alain: "Pra mim ele está correndo do pau".

Senna à frente de Prost, no México 89
Prost batia pesado na equipe Honda, chegando a intercalar jocosamente cada frase de uma de suas entrevistas com um "no" interrogativo. Senna, ao contrário, aproveitava a crise para lubrificar, também em público, sua afinidade com os japoneses. A descrição da rotina de um dos engenheiros da equipe, feita por Ayrton a Celso Itiberê no final de maio daquele ano, poderia até ser autobiográfica: "Meu engenheiro principal está casado há pouco mais de dois anos. No fim da temporada passada, despediu-se de mim, disse que havia sido um ano de sacrifícios porque a mulher, em Tóquio, reclamava constantemente sua presença e ele só pôde ir vê-la duas vezes em nove meses. E este ano, quando cheguei à sede da Honda, na Inglaterra, ele foi o primeiro a me receber. Sorridente e preocupado. O sorriso se devia ao nosso motor, que ele dizia ser sensacional. A preocupação era o fato de que, nos próximos oito meses, só poderia ir uma vez ao Japão. Nenhum outro profissional, europeu ou americano, aceitaria esse sacrifício".

Senna e Prost, a dupla da McLaren em 88, aqui no GP da França
Senna também não deixou sem resposta as acusações de Prost de que era favorecido pelos japoneses: "Mesmo sem ler, tenho idéia do que ele disse porque conheço a peça. Vejo o Alain como uma criança que chora o tempo inteiro. Quando se tem um carro igual, o que vale é o acelerador. O Prost esquece que a McLaren e a Honda deram a ele sete vitórias e um número de pontos maior do que o meu em 88".

Catorze anos depois do fim amargo do dream team da Fórmula 1, o compadre Creighton Brown não concordou totalmente com Ayrton: "A gente esperava que os pilotos se comportassem como os outros que passaram pela equipe, mas não foi assim. Quando você está num cockpit, você faz coisas que não faria na vida normal. E a deterioração dentro da equipe foi culpa principalmente da competitividade de Ayrton".





Às alfinetadas em público se seguiu a divisão, também pública, do espólio de defeitos e virtudes da mais perfeita dupla de pilotos jamais reunida em uma equipe de automobilismo. E a disputa maior se deu em torno do balanço sobre qual dos dois pilotos, afinal, era melhor no acerto dos carros: Senna ou Prost? O projetista Gordon Murray, passados catorze anos, mesmo respeitando muito Alain Prost, não tem dúvida: "Senna era melhor que Prost no acerto do carro e na estratégia de corrida, chegando a blefar para Prost em várias ocasiões".

Steve Nichols, tão próximo como Gordon Murray das decisões de pista da dupla de pilotos da McLaren, diz o contrário. Para ele, Prost tinha uma capacidade melhor de explorar o potencial do carro.

Jo Ramirez, embora atuasse na área de logística da equipe, longe dos carros, confirma que, em pelo menos uma ocasião, Senna, confuso e incapaz de melhorar seus tempos de volta, simplesmente pediu para que os mecânicos repetissem em sua McLaren o acerto escolhido por Alain:

Osamu Goto, o chefe dos engenheiros da Honda em 89, confirma: nos testes que antecederam o GP do Brasil daquele ano, Ayrton ficou realmente confuso ao tentar acertar o novo carro da McLaren, e que o acerto de Prost foi mesmo copiado. Mas Goto também diz que houve uma razão para Senna estar perdido: os engenheiros tinham dado a ele informações dos testes com o carro no túnel de vento da fábrica da McLaren, na Inglaterra. Daí a confusão com os resultados que estavam sendo obtidos ao ar livre, no circuito de Jacarepaguá.

Quase quinze anos depois, Goto acha que é perda de tempo discutir qual dos dois pilotos era melhor no acerto do carro: "O problema é que você nunca sabe quão perfeito pode ser um carro".

Muitos simplesmente achavam impossível comparar Senna a Prost por entenderem que os dois representavam duas modalidades da perfeição. Celso Itiberê concorda: "Senna preferia o carro mais duro, de resposta mais rápida, afeito à sua maneira agressiva de dirigir, à possibilidade de pegar uma ou outra zebra pelo caminho. Já Prost, mais polido, dirigia sem permitir que o carro escorregasse um milímetro e pedia ajustes ligeiramente mais suaves".

Hiro Teramoto acrescenta um toque comportamental à diferença entre os perfeitos: "Alain era mais burocrático, hierárquico, gostava de planejamento. Ayrton era imprevisível, não respeitava hierarquias na equipe e era mais criativo".

Michael Kranefuss, diretor esportivo da Ford por 25 anos, tempo que lhe permitiu um convívio estreito com Jim Clark e Graham Hill, se aproxima muito da opinião de Ron Dennis sobre o caráter inigualável do envolvimento de Senna com um carro de corrida. Kranefuss, cujo último cliente, antes da aposentadoria, foi Michael Schumacher, nunca veria alguém como Ayrton: "O conhecimento técnico, a memória fotográfica, a capacidade de concentração em cada volta que dava num carro de corridas, não importando as circunstâncias, sua determinação de vencer, sua intensidade e sua convicção, tudo isso somado o deixava um degrau acima dos outros".

Ernesto Rodrigues
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