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Tijolos e Tristeza 15.03.06

Amigos do GPTotal,

Ayrton Senna comerciante de materiais de construção?

Foi por pouco.

Senna e seu F3, com o qual se tornou campeão inglês da categoria, em 83.
Para quem quiser saber como foi o momento em que Senna tomou a decisão que o colocou para sempre na história do automobilismo mundial, proponho a leitura do episódio do meu livro “Ayrton, o herói revelado”, reproduzido abaixo. Ele mostra que tanto para os gênios quanto para aos anônimos, independentemente do que achemos deles, a vida muitas vezes se escreve em decisões pequenas, mas firmes.

Como bônus, quem ler saberá, também, como terminou o único casamento de papel passado de Ayrton Senna.

Um abraço

Ernesto Rodrigues




 

Tijolos e tristeza à venda

- Não aguento mais essa merda.

O amigo Júnior viu e sentiu de perto, dias depois da volta de Senna da Inglaterra, a infelicidade em pessoa atrás do balcão da Anhembi Materiais de Construção Ltda, o negócio que o pai preparara para Senna comandar no Parque Novo Mundo, um bairro pobre próximo de Santana. Disciplinado como sempre, o campeão inglês de Fórmula Ford de 1981 tentava mas não conseguia se envolver com estoques de areia, prazos de entrega de tijolos, caminhões de telhas e outras rotinas. Era, nas palavras do amigo Júnior, um bicho aprisionado. A ponto de propor a Júnior que ele convencesse o próprio pai, Américo, a comprar a loja da família Senna: “Ele jogou a jaca pra mim, mas não havia nada que eu pudesse fazer”.

Senna acertara um salário com o pai e, enquanto era montado o apartamento de três quartos que alugara na Serra da Cantareira para morar com Lilian, marido e mulher se hospedaram juntos, alternadamente, nas casas das respectivas famílias. Ela sabia que ele não estava bem. Ayrton dormia demais e este era um sinal de depressão que ela conhecia dos tempos tristes de Ethon. Já no início de 82, durante um jantar na casa do piloto Afonso Giaffone, em São Paulo, Senna não escondia o constrangimento com a situação. Chico Serra, um dos convidados, se aproximou de Lilian, querendo saber como o marido estava enfrentando a nova vida:

- Está péssimo. Ele quer correr, só pensa nisso. Ele não está legal.

O sinal de que uma crise inevitável estava a caminho aconteceu exatamente quando Lilian quis deixar o marido mais próximo das lembranças do automobilismo, no dia em que os dois foram ao apartamento alugado, às vésperas da mudança definitiva. Depois de ver a estante de troféus cuidadosamente montada na sala, Senna caminhou para a janela que dava vista para o bairro do Tremembé, localizou a casa dos pais à distância, fez mais alguns comentários e mudou o tom:

- Lilian, não é isso que eu quero. Eu não vou conseguir.

A partir daquele momento, os dois não conseguiram mais falar. Só no dia seguinte, Ayrton transformou o desabafo da véspera em decisão:

- Devolve o apartamento, os móveis, tudo.

Não foi surpresa para Milton, Neide e Viviane. Eles já vinham sendo avisados, em várias conversas difíceis na cozinha e no escritório da casa da Serra da Cantareira, que aquela situação era dolorosa e insustentável. Em um desses dias, Senna fizera um desabafo especialmente duro:

- Ninguém mandou me colocar sentado num kart quando eu era pequeno. Experimentei, gostei e agora não peçam jamais para eu desistir. É minha vida!

A crise familiar começou a ser resolvida quando o amigo e sócio de Milton, Armando Botelho, sensibilizado com a sofrida empreitada de Ayrton no Parque Novo Mundo, decidiu ser um mediador. Armando, então com 49 anos, conhecera Milton quando ainda era um piloto em busca de horas de vôo no Campo de Marte. A amizade e a futura sociedade nos negócios nascera depois de muitas viagens de avião dos dois, entre São Paulo e as terras de Milton, no interior do país.

Armando tinha certeza de que Senna, cedo ou tarde, voltaria às pistas. Queria apenas evitar que a retomada da carreira acontecesse contra a vontade de Milton. Não tinha interesse especial por automobilismo nem entendia de marketing. Mas se propôs a cuidar dos contratos e da busca de patrocínio. O pai de Senna aceitou. Em raro depoimento, dado ao jornalista Lemyr Martins mais de 15 anos depois, ele disse que Ayrton era tão teimoso quanto ele e a mãe. E admitiu: “Eu não queria vê-lo piloto profissional, mas ele ficou tão desmotivado trabalhando nos negócios da família que acabei concordando”.

No dia 27 de fevereiro de 82, Ayrton embarcou para a Inglaterra para acertar sua participação nos campeonatos Inglês e Europeu de Fórmula Ford 2000. Antes, pedira a Lilian que ficasse na casa dos pais dela e desse um tempo antes de os dois decidirem o futuro. Convencera também o pai a entregar a gerência da Anhembi Materiais de Construção Ltda ao amigo Alfredão. Dona Neyde não quis dar nenhum conselho especial ao se despedir de Ayrton. Apenas um beijo, acompanhado da carinhosa resignação que apenas as mães parecem ter:

- Eu cuidei de você até aqui. Agora te entrego nas mãos de Deus. É ele quem vai te guiar.

Em entrevista dada em 1984, Ayrton deixou claro que aquele início de 1982 fora muito difícil: “Eles viram que eu não voltaria atrás. Depois de perceberem que poderiam me prejudicar, passaram a me apoiar como na época do kart”.

Faltava resolver o casamento. Um telefonema da Inglaterra para São Paulo, dias depois, pôs fim a tudo, selado pela convicção mútua de que uma nova jornada de frio e solidão em um país estranho seria insuportável. Os sogros cuidaram da parte jurídica da separação, que só foi oficializada no dia 11 de fevereiro de 1983, Ayrton de férias no Brasil, na 1ª Vara Distrital da Casa Verde, através de um aperto de mãos formal dos dois, Lilian usando um terninho azul que ganhara da sogra e Ayrton de jeans, camiseta e tênis. Nem se olharam direito.

Lilian voltou a morar com os pais, mas se casou meses depois. Teve um filho em 1987, separou-se e se deixou fotografar como ex-senhora Ayrton Senna, como decoradora da loja Artefacto, na região dos Jardins. Encontrada pela revista Caras, ela se queixou, com bom humor: “Minha única mágoa é que sempre que falam de mim publicam fotos antigas nas quais estou muito feia”.

Dona Neyde e Dona Grizelda continuaram amigas e freqüentaram por muito tempo o mesmo curso de pintura de cerâmica. Lilian se casou pela terceira vez em janeiro de 1995. Pediu aos colegas da loja Artefacto para não dar pistas dela para a imprensa. O que ela sempre esperou ouvir de Ayrton ele acabou dizendo não para ela, mas para a médica e confidente Linamara Battistella, dez anos depois do fim do casamento:

- Tenho uma preocupação muito grande em saber se a Lilian está bem. Foi uma atitude um pouco egoísta casar tão cedo e ir sozinho com ela para a Inglaterra. Tenho um sentimento de remorso muito grande. Um remorso que se tornou preocupação. Por isso, estou longe, mas acompanho tudo o que acontece com ela.

Quase vinte anos depois da separação, Lilian fez um balanço bem-humorado do triste e apressado casamento com Ayrton Senna: “Fomos muito imaturos. Eu queria brincar de casinha e ele de carrinho”.

Um abraço


Ernesto Rodrigues
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