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Um comuna na Fórmula 1 03.02.06
Amigos do GPTotal,

Para este retorno à coluna, andei pesquisando os arquivos que foram base do meu livro e revi versões iniciais de episódios e capítulos que escrevi. Num deles, reencontrei meu mestre Milton Coelho da Graça, uma das pessoas a quem dediquei “Ayrton, o herói revelado”. As outras foram minha mulher Sylvia, os filhos Tadeu e João, e as enteadas Mariana e Carolina.

Achei que valia a pena mostrar um pouco da personalidade de um correspondente de Fórmula 1 brasileiro que conseguiu a proeza de ser querido e respeitado tanto por Ayrton Senna quanto por Nélson Piquet. Com vocês, o Milton.

Um abraço

Ernesto



 


Ayrton Senna no GP da França de 88.
Um comuna na Fórmula 1

Aos 58 anos de idade, militante histórico do Partido Comunista Brasileiro nas redações da imprensa brasileira, preso e torturado três vezes pelo regime militar de 1964, ex-editor-chefe de O Globo, ex-diretor das revistas Placar e Realidade e obviamente ateu, o jornalista carioca Milton Coelho da Graça, substituto de Renato Maurício Prado, de O Globo, na cobertura da Fórmula 1 em 1988, acreditava na religiosidade de Senna:

- O Ayrton tinha um grande desprezo pelo ambiente humano e social da Fórmula 1. Ele vivia uma grande contradição entre o extraordinário espírito competitivo que fazia desaguar na pista e um sentimento genuíno de solidariedade humana e fraternidade cristã que ele não conseguia pôr em prática no paddock.

Milton acompanhou Senna com olhos que estavam acostumados a testemunhar crises políticas e econômicas, golpes de estado, revoluções, polêmicas ideológicas, catástrofes e fatos dramáticos como o descrito em uma de suas antológicas reportagens para a revista Realidade: a execução, a dinamite, de um traidor do movimento guerrilheiro Al Fatah, na Palestina. Mas nem mesmo essa mistura de experiência com sabedoria seriam suficientes para que Milton interpretasse de forma definitiva a alma daquele rapaz que poderia ser seu filho e que estava reescrevendo a história da Fórmula 1:

- Foi sempre um desafio para mim imaginar com quem eu estava lidando. Ayrton era enigmático e muito reservado, mas também transpirava uma grande afetividade nas relações pessoais.

A idéia de Milton era nem cobrir a Fórmula 1. Ele deixara o cargo de editor-chefe de O Globo e tinha ido para Londres para ser correspondente, mas a inesperada desistência de Renato Maurício Prado do posto levara Evandro Carlos de Andrade, o diretor do jornal, a fazer-lhe uma consulta, preocupado com a competitividade da cobertura:

- Milton, você entende de Fórmula 1?

- Evandro, você me respeite. Eu sou o jornalista mais antigo da Fórmula 1 no Brasil. Saiba que eu estava na Rua Marquês de São Vicente, assistindo Carlo Pintacuda vencer Hans Stuck no Trampolim do Diabo.

Milton se referia ao lugar privilegiado que tivera no botequim de uma tia que ficava junto à esquina da Rua Marquês de São Vicente com a Praça do Jóquei, uma freada difícil para os carros que desciam a rua e seguiam para o canal da Rua Visconde de Albuquerque e as curvas nas escarpas da Avenida Niemeyer, no lendário circuito do Rio de Janeiro. Evandro fez um silêncio respeitoso do outro lado da linha. E antes que pedisse desculpas pela gafe, Milton completou:

- É bem verdade que eu nunca mais assisti a uma corrida de automóvel, mas continuo sendo o mais antigo jornalista da Fórmula 1 no Brasil.

Evandro deu uma gargalhada e emendou a pergunta:

- Você quer substituir o Renato?

Passando Piquet no Rio 88.
O novo correspondente de O Globo não se tornaria um amigo íntimo como Galvão Bueno. Também não teria tempo de entender tecnicamente a Fórmula 1 como Celso Itiberê. Mas suas reportagens ao longo das temporadas de 88 e 89 teriam a marca do equilíbrio, na hora de contar como seriam dois anos polêmicos e também espetaculares. O relacionamento com Senna foi fraterno, quase de filho para pai, principalmente quando Ayrton percebesse que Milton jamais se envolveria em nenhum dos lados da briga entre sennistas e piquetistas na imprensa.

Ao assumir a direção de Placar, em 1971, Milton já considerava "ridícula" a cobertura da chamada grande imprensa brasileira sobre Emerson Fittipaldi e José Carlos Pace. Por isso, decidira mandar o fotógrafo Lemyr Martins para cobrir regularmente o campeonato. E para que as fotos chegassem em tempo hábil, a revista criou um complicado e apressado esquema de viagens de carro logo após as corridas, para o aeroporto mais próximo de onde decolasse um avião da Varig para o Brasil.

Para Milton, a grande imprensa brasileira demorara muito para perceber a importância jornalística da Fórmula 1 para os brasileiros. Os sucessivos fracassos do futebol brasileiro nas copas de 74, 78, 82 e 86 também tinham contribuído para que o espaço do automobilismo aumentasse.

Leda Ebert, mulher de Milton, acompanhou o marido em todos os grandes prêmios que ele cobriu e também teria uma relação especial com Senna. Ela sentia muita saudade dos filhos, que moravam no Brasil e nos Estados Unidos. Ayrton, como sempre, sentia muita falta da mãe e do resto da família em São Paulo. O resultado, lembra Leda, foi uma transferência afetiva mútua: ela tratava Ayrton como um filho e ele retribuía com o mesmo carinho.

Havia ainda um outro motivo para a relação carinhosa dos dois: Djamila, filha de Leda e Milton, modelo fotográfico, tivera um caso rápido com Senna no início de 1986. Chegara até a jantar com Senna e a família no Hotel Nacional, às vésperas do GP do Brasil daquele ano. Djamila guardava boas lembranças de Senna, mas não agüentou:

- Ele só falava de corrida.

Ernesto Rodrigues
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