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Bomba 20.10.05
Amigos do GPTotal,

A bela vitória de Kimi Raikkonen em Suzuka - um final de campeonato bonito e que resgatou a razão de ser desse tal de automobilismo - me remeteu para o autódromo de Suzuka de outros tempos. Tempos dramáticos e polêmicos em que os duelos entre os pilotos começavam na pista, continuavam nas entrevistas coletivas e retornavam perigosamente para os finais de reta.

Na paz de 2005, talvez seja interessante e curioso relembrar aquela que foi provavelmente a entrevista mais explosiva da história recente da Fórmula 1. No final da temporada de 1991, Ayrton Senna, depois de conquistar o tricampeonato no Japão, andara fazendo declarações fortes contra Prost, Ballestre e outros, antes mesmo de deixar Suzuka.

Preocupado, Max Mosley chegou a obter dele o compromisso de que, na Austrália, última prova do campeonato, seria diferente. Não foi. Na coletiva dada às vésperas da corrida, Ayrton liberou toda a mágoa acumulada desde o início da guerra com Alain Prost, em 1989. Gostemos ou não, concordemos ou não, foi dinamite pura. Preparem-se!

Um abraço

Ernesto



 

Bomba 

Senna e Berger no pódio de Suzuka 91.
Duas semanas depois da conversa no quarto do hotel de Tóquio, Max Mosley ficou de queixo caído com a entrevista de Ayrton, às vésperas do GP da Austrália, em Adelaide. Foi o mais contundente, devastador, magoado e agressivo desabafo público jamais feito por um campeão de Fórmula 1. As primeiras frases, aparentemente fortes, soariam diplomáticas no final:

“Em 89, fui roubado feio pelo sistema e isso eu jamais esquecerei. Em 91, nós conseguimos um campeonato limpo, sem políticos. Foi um campeonato técnico e esportivo. Espero que isto seja um exemplo, não só para mim mesmo, mas para todos que competem na Fórmula 1 agora e no futuro também”.

Advertido por um repórter que poderia ser novamente punido pelo que estava dizendo, Ayrton foi em frente: “Que se fodam as regras que dizem que não se pode dar opinião, que não se pode falar o que se está pensando, que não se tem autorização para dizer que alguém cometeu um engano, que alguém fez alguma coisa errada. Merda! Estamos num mundo moderno e somos pilotos profissionais”.

Ao lado de Senna, na mesa da entrevista, Ron Dennis, perplexo, alternava um balançar impotente de cabeça com o cobrir incessante do rosto com as mãos, retratos de um enorme constrangimento. E Senna continuou, considerando o título perdido em 89 e as punições que se seguiram uma situação “imperdoável”: “Eu ainda luto para aceitar aquilo quando penso a respeito. A briga dentro da equipe com Prost, as dificuldades com a FISA, com Balestre. Todos sabem o que aconteceu. Não houve justiça e o que aconteceu naquele inverno foi uma merda, uma merda mesmo”.

E chegou o momento em que Senna, por conta própria, disse que o que aconteceu em Suzuka, em 1990, na batida com Prost logo depois da largada, foi a forma que ele encontrou de provar que o que fizeram em 89 tinha sido uma “má decisão”: “Balestre deu ordem para não mudar a posição do pole. Aí eu disse: ok, a gente tenta trabalhar, tenta trabalhar limpo e fazer o trabalho direito e acaba se fodendo por causa de pessoas estúpidas. E eu disse pra mim mesmo: tudo bem, amanhã eu vou mostrar toda a verdade. Se na largada, por eu estar do lado errado, o Prost pular na frente e conseguir me tirar a posição, na primeira curva eu vou pra briga. E é melhor que ele não vire, porque não vai conseguir. E a coisa simplesmente aconteceu”.

Ron Dennis não sabia mais o que fazer com as mãos e a cabeça quando o repórter Mark Fogarty, do jornal USA Today, quis saber as razões de Senna para provocar deliberadamente o acidente. Ayrton ainda queria falar muito: “Por quê? Por que eu causei o acidente? Porque se você se fode cada vez que tenta fazer seu trabalho de modo limpo e correto, se o sistema te fode, se outras pessoas tentam se aproveitar disso, o que se deve fazer? Ficar atrás e dizer obrigado, sim, obrigado? Não! Temos de lutar pelo que achamos que é certo”. 

Os repórteres se entreolhavam incrédulos, alguns já sem saber qual seria a manchete principal entre tantas que estavam sendo despejadas por Senna naquela sala. Um deles ligou outra tomada, pedindo que Ayrton falasse do pedido de desculpas que fizera a Balestre no início de 1990. Senna acabou fazendo uma revelação que deixou Ron Dennis quase em estado de choque: “Eu nunca pedi desculpas para aquele cara, se vocês querem saber a verdade. Mudaram o press release. Mudaram o nosso acordo. Eles queriam um acordo. Eu não queria. Fui pressionado pelo Ron Dennis e pela Honda. Depois que eu aceitei um acordo em certas condições, eles mudaram os termos depois que eu tinha assinado o papel e mandado por fax. Eu nunca pude dizer essas coisas porque poderia perder a licença. Isso é uma merda, pura merda. E dói muito”.

Os dias seguintes de Senna foram dedicados à cuidadosa retirada dos escombros causados pela bomba. Uma tarefa que Nélson Piquet, ao desembarcar em Brasília, no dia 22 de outubro, definiu assim: “Ele descascou o pepino. Agora vai ter que comer”.

Suzuka 91 Mansell está saindo da pista, Senna caminha para o tri.
Alain Prost, demitido pela Ferrari e fisicamente distante de Adelaide, também se limitou a uma frase, ao comentar a confissão de Ayrton sobre a batida em 1990: “Eu sabia. Eu estava numa boa posição para perceber”.

Pressionado por Ron Dennis, que considerava o desabafo como “uma atitude pouco esperta”, Ayrton divulgou uma nota em que reconheceu ter exagerado na dose dos comentários: “Sinto que o linguajar utilizado na entrevista não foi o melhor”.

No comentário sobre a decisão de bater propositalmente na Ferrari de Prost em 90, ele tirou um pouco do sal: “Disse que havia pensado que, caso nós dois decidíssemos tomar o mesmo trecho da pista, eu não sairia do caminho. Todos os pilotos fazem isso ocasionalmente”.

O que mais se temia, ou se esperava, dependendo de que lado da polêmica as pessoas se colocavam, não aconteceu. Jean-Marie Balestre, que naturalmente reagiu à entrevista de Adelaide com novas ameaças de punir Senna, não tinha mais poder político para torná-las realidade. E Ayrton cuidara para ter um outro tipo de relacionamento com Max Mosley, o novo presidente da FISA.

Nem mesmo a promessa de não entregar o troféu de campeão mundial Balestre cumpriu: no dia 8 de dezembro, em cerimônia realizada no Automóvel Clube Francês para 175 convidados especiais, Ayrton, acompanhado de Cristine, foi premiado e muito aplaudido. Balestre foi cordial e não fez referência às brigas do passado.

Àquela altura, o grande inimigo de Senna fora das pistas caminhava velozmente para o esquecimento. A própria imprensa francesa, apesar da rivalidade de Senna com Prost, saudou a conquista de Ayrton, em alguns casos elogiando-o pela coragem de dizer o que dissera sobre Balestre. Centenas de cartas chegaram ao jornal L´Equipe aplaudindo o tricampeão, cada vez mais comparado ao mítico Jim Clark.
Ernesto Rodrigues
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