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Humildade em centímetros 15.09.05
Senna, com Lotus, lidera o GP da Espanha de 86 seguido por Mansell, com Williams
» VEJA O VÍDEO COM A CHEGADA NA ESPANHA 86
Enviado pelo leitor Mario Braghiroli, de Birigui

Amigos do GPTotal,

Se existe uma síndrome da qual fujo com determinação é aquela em que o tempo e a distância fazem com que a gente distorça o passado para torná-lo cada vez melhor, ao mesmo tempo em que desprezamos o presente por sua incapacidade de se igualar à miragem que fazemos sobre os chamados “bons tempos”. A síndrome tem uma freqüência que costuma crescer com a idade e pode atacar em casa, no trabalho, no escurinho do cinema ou diante da TV, no meio da transmissão de um grande prêmio de Fórmula 1.

Não sou e nem quero ser um daqueles saudosistas chatos e arrogantes que gostam de estragar conversa com o blefe daqueles bons tempos que não voltam mais. Isto posto, quero dizer que ando sentindo uma falta terrível de alguém como Nigel Ernest James Mansell nesses grandes prêmios perfeitos e chatos dos dias atuais. Não creio que seja a síndrome que tentei descrever no parágrafo anterior. Já aconteceu outras vezes e vai passar. Acabo sempre voltando ao presente para admirar e acompanhar a Fórmula 1 atual. Hoje, no entanto, com a devida licença do Fernando e do Kimi, vou matar a saudade do Leão, destacando um momento do meu livro em que ele, veloz e vaidoso como sempre, escreveu um capítulo inesquecível a quatro mãos e dois pés – os da direita – com Ayrton Senna.

Um abraço

Ernesto




  Humildade em centímetros

Poucos, além de Nigel Mansell, teriam coragem de incluir Nigel Mansell na seleta lista de monstros sagrados do automobilismo. Mas nenhuma pessoa que gostasse de corridas de automóvel poderia ignorá-lo. A fúria que o contaminava a cada largada, qualquer que fosse a posição no grid, fosse em que carro fosse, só costumava se aplacar na bandeirada, nas caixas de brita das áreas de escape, em guard-rails inesperados ou em precoces retornos ao box. Enquanto permanecia na pista, ele era uma promessa itinerante de curvas impossíveis, caminhos audaciosos e ultrapassagens antológicas. E também de trapalhadas que o fizeram perder títulos mundiais por causa do pé pesado, do destempero quase suicida de certas manobras e da infantilidade de algumas atitudes dentro e fora das pistas. 

Em seu livro My autobiography, ao descrever os momentos finais do GP da Espanha de 1986, em Jerez de La Frontera, um dos resultados mais apertados de toda a história da Fórmula 1, Mansell expõe uma enorme dificuldade de ser humilde e até confunde leitores apaixonados ou desatentos na hora de dizer quem, afinal, cruzou a linha de chegada em primeiro lugar, se ele ou Ayrton Senna. O trecho: “Nós disparamos como dois atletas de cem metros livres e, embora eu tenha ultrapassado ele no meio da reta, ele cruzou a linha de chegada 93 centímetros à minha frente”.

“Ele” era Senna, o vencedor incontestável da prova. Em sua curiosa versão, Mansell omite o fato de que só ultrapassou Ayrton “no meio da reta” depois da linha de chegada, e, portanto, depois de Senna ter tirado o pé do acelerador, como todos os pilotos fazem quando acaba uma corrida. Como um goleiro que dá um vôo sensacional para agarrar uma bola que já entrou, Mansell lamenta, no livro:
“Se a linha de chegada estivesse cinco jardas à frente, eu teria vencido”.
O que Mansell e Senna fizeram na pista, e não o que Nigel ditou ao biógrafo James Allen, é que foi espetacular, naquele 13 de abril de 86. A nove voltas do final, Mansell cedeu a liderança a Ayrton, depois de fechá-lo várias vezes, e entrou no box para trocar pneus. A caçada à Lotus de Senna, àquela altura se equilibrando como podia em pneus perigosamente gastos, terminou com o autódromo e milhões de telespectadores incapazes de perceber, a olho nu, os 14 milésimos de segundo de diferença de um para outro. O que Mansell e Senna fizeram depois da bandeirada não entrou nem na biografia de Mansell nem história da Fórmula 1: trocaram desaforos e empurrões no carro que os levou ao pódio.
Ernesto Rodrigues
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