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Amigos do GPTotal,
A saída de Barrichello da Ferrari me fez lembrar como Ayrton Senna, meu biografado, reagiu quando não conseguiu sair da McLaren para a equipe Williams-Renault. Naquele outono europeu de 1992, impotente diante da preferência e das obrigações contratuais de Frank Williams com Alain Prost, pronto para voltar à Fórmula 1 montado num foguete, depois da humilhante demissão da Ferrari em 91, Ayrton viveu o que foi provavelmente seu momento de maior descontrole com as palavras. Para os críticos impiedosos de Senna, uma comprovação de sua arrogância intolerante. Para os fãs apaixonados, a justa reação de um gênio. Para os que o conheciam, apenas um porre – no caso dele, raro – num momento difícil da vida.
Um abraço e... saúde!
Ernesto
O porre
Um porre histórico, entre os fiéis amigos da McLaren, colocou um ponto final naquela saga desgastante e inútil. O local e a ocasião surgiram quando a McLaren promoveu uma festa de confraternização no restaurante “Conde da Luz”, em Cascais, na semana que se seguiu ao GP de Portugal. Mansell tinha vencido a corrida, mas Berger e Senna haviam completado o pódio nessa ordem, elevando o ego da equipe.
Todos à mesa sabiam que Ayrton estava se sentindo derrotado, o que só serviu para aumentar a emoção dos discursos de Ron Dennis, Jo Ramirez, Emerson Fittipaldi, convidado especial, e do próprio Senna. Na lembrança de Emerson, Ayrton, ao seu lado na grande mesa, começou a beber muito vinho tinto, a ponto de tombar a cabeça para o lado:
- Não estou me sentindo bem. Estou enjoado, acho que vou vomitar.
Era o sinal para Emerson pedir ajuda a Berger para levar Ayrton até uma porta lateral do restaurante. Ao perceber que o momento estava próximo, Berger não resistiu à tentação de acrescentar mais uma molecagem ao ranking de sacanagens que os dois, ele e Ayrton, se aplicavam regularmente: simplesmente segurou a cabeça de Senna, esperou alguns segundos e direcionou o fluxo para o lado interno do restaurante.
Todos ainda foram para a boate “Coconut”. Ao chegar, já calibrado, Ayrton percebeu que Berger estava tomando água mineral. Não sabia que era apenas uma pausa de Gerhard entre copos de cerveja e rum. E provocou:
“Você parece uma bicha austríaca. Tem que tomar bebida de homem!”
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| Senna no GP da Itália de 1992. Depois da corrida seguinte, em Estoril, uma bebedeira para afogar a frustração de não ter assinado contrato com a Williams. |
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Foi o início de uma insana gincana de doses de uísque no estilo cowboy que deixou os dois completamente embriagados. Para Peter Vader, um dos convidados da noitada, houve um determinado momento em que ninguém se deu conta de que Ayrton estava quase perdendo os sentidos no meio da festa. Ajudado pelas mulheres de Ron Dennis e Mansour Ojeh, Peter levou Ayrton para fora da boate. No mesmo carro de Ayrton foi colocado Joseph Leberer, também completamente bêbado.
Parte da imprensa italiana levou o porre de Senna a sério, associando a bebedeira à decepção com a perda da chance de ir para a Williams. Para a Gazzetta dello Sport a noitada na Coconut revelou “um Senna descontrolado, cego pelo ódio a Alain Prost", freqüentando “boates e lugares pouco comuns a seu temperamento”. O jornal temia que Senna se tornasse um anti-herói, caso viesse a se envolver em qualquer incidente com Prost em 1993. Ayrton, cobrado em entrevistas, deu a proporção que o episódio merecia:
“Era uma grande chance de um encontro humano, algo raro entre nós”.
Ron Dennis, onze anos depois daquele porre, deu uma explicação para a forma descontrolada com a qual Senna se soltava nessas raríssimas ocasiões:
“Tudo era muito intenso na vida de Ayrton. E tudo era muito difícil para ele. Era capaz de sentar na beira da cama e ficar duas horas pensando que calças iria usar. E isso também valia para escolher amigos, namoradas, tudo. Todas decisões eram tomadas de forma muito detalhada e sofrida. Ayrton levava horas e horas pensando em qual seria a melhor decisão em tudo. Era completamente obsessivo, porque aquilo era a vida dele. E toda decisão era normalmente seguida de um relax emocionado. Em outras palavras, era como se ele dissesse: “A decisão foi tomada. Vamos fazer uma festa para comemorar!"
Na terça-feira, ao chegar no boxe de Estoril para mais uma sessão de testes com a McLaren, Ayrton foi motivo de brincadeiras dos mecânicos. Aceitou algumas até o momento em que um engenheiro tirou seus óculos. Foi quando, mais uma vez, ele deu a proporção que o episódio merecia:
“Agora chega. Está demais”.
Senna nem comemorou o que de certa forma foi uma vitória, ainda que tardia, sobre Berger, na gincana alcoólica da boate Coconut. No dia seguinte, Gerhard ainda não estava bem por causa da ressaca e, antes de entrar na McLaren para os testes, chegou a vomitar no caminhão da equipe. Ayrton foi chamado às pressas para cumprir o programa de testes previsto para o companheiro.
Estava inteirinho.
Obs. – Agradeço a correção feita por alguns leitores pacientes, em relação a uma informação da coluna passada (“Donington”). O motor da Jordan de Barrichello, em Donington 1993, era um Hart e não um Yamaha, como está no texto do artigo e também na primeira edição do meu livro. Lembro apenas que foi Geraldo Rodrigues, manager de Rubens na época, quem me assegurou que a equipe mentiu, sim, sobre o motivo do abandono de Barrichello: pane seca.
Ernesto Rodrigues
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