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| » » » 19.05.05 |
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| A última do Piquet |
19.05.05 |
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Amigos do GPTotal,
Depois de alguns meses de saborosa e gratificante participação neste site, acabei sendo alcançado pelos estilhaços de uma guerra que eu supunha encerrada. Não há argumento, contra ou a favor, que me faça voltar ao assunto específico que me levou a responder a um leitor, no mês passado. Mas confesso que estou assustado com a intensidade com que ainda arde, queima e, de certa forma, cheira mal a rivalidade entre os admiradores de Senna e os de Piquet, onze anos depois da morte de Ayrton e treze após o adeus de Nélson à Fórmula 1.
Nem no auge da torcida por Senna e Piquet, quando ambos ainda corriam, ouvi conceitos, opiniões, ironias e sarcasmos como os que eu tenho lido aqui. Seja como jornalista ou como cidadão, não conheço, nem na história do futebol, a paixão hegemônica dos brasileiros, tamanho ódio contido, tamanhas injustiças lançadas contra a carreira - ou a pessoa - de um e de outro tricampeão.
Cheguei a sentir certo mal-estar ao ler cartas em que os dois lados desta guerra triste e interminável, em vez de saborear os momentos geniais e espetaculares de seus respectivos ídolos, dedicam-se a jogar pedras na carreira do “outro”, diminuindo-lhe a importância e desprezando suas conquistas.
Não entro mais neste jogo. De alguns anos para cá, aprendi a amar o automobilismo de uma forma menos apaixonada, sim, porém mais abrangente, mais generosa, menos passional e, acredito, mais justa e equilibrada. Foi com este espírito que escolhi o episódio de hoje do meu livro “Ayrton, o herói revelado”.
Acredite quem quiser: eu estava imerso em uma grande tristeza, em dezembro de 2003, quando escrevi este episódio, ocorrido no final da temporada de 91. Isto porque a cena que descrevo abaixo tem, para a minha geração, significado histórico e, ouso dizer, uma imensa força poética. Ela pode não sensibilizar os dois lados da tal guerra inacabada. Mas, como já avisei, não escrevi o livro e nem estou aqui neste site para agradar nem um, nem outro lado.
Um abraço a todos.
Todos mesmo.
Ernesto Rodrigues
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“A última do Piquet”
Os cínicos diriam que Senna não tinha do que se queixar naquele fim de temporada. Tricampeão, ele soltou o verbo à vontade sem ser punido, bateu o adversário e favorito Nigel Mansell na pista, assistiu de cadeira à demissão humilhante do rival Alain Prost na Ferrari e passou a não ter de cruzar mais, na pista ou nos boxes, com o inimigo Nélson Piquet, aposentado precocemente pelo fenômeno Michael Schumacher, a estrela eleita da Benetton.
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| Piquet em seu último GP, Austrália 91 |
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Ao comentar a declaração de Flavio Briatore de que Piquet, Prost e Patrese eram “burocratas do volante” Ayrton não teve preocupação de assoprar. Só mordeu: “Há profissionais ruins em todas as áreas, mas cada um tem aquilo que merece. E na Fórmula 1, de certa forma, prevalece a lei do cão: quem puder mais chora menos”.
Piquet não podia mais. E o encerramento do GP de Adelaide na 14ª volta, por causa da chuva torrencial, o surpreendera de tal maneira que ele não queria sair do cockpit. No livro The Mechanic´s Tale, Steve Matchett conta que, naquele dia, Giorgio Ascanelli, futuro engenheiro de Senna na McLaren, então responsável pela Benetton de Piquet, ficou parado em frente ao carro, explicando a Nélson que a corrida tinha acabado. Piquet então olhou para Ascanelli de uma maneira diferente, como quem percebera a importância daquele momento. Sua carreira também tinha acabado de uma hora para outra.
Nélson acenou para Ascanelli, pedindo que ele deixasse os mecânicos ligarem o motor para que ele desse uma volta do circuito. Pela última vez. Uma saideira, nas palavras de Matchett, “lenta o suficiente para um adeus ao mundo da Fórmula 1”. O circuito de Adelaide, ainda tomado pela chuva, estava oficialmente fechado. Ascanelli chegou até a considerar o pedido de Piquet por alguns instantes, mas logo balançou a cabeça negativamente. Permitir a entrada da Benetton na pista fechada seria algo muito grave. Piquet, no entanto, insistiu: “Vamos lá Giorgio, só mais uma vez!”
Ninguém, além de Ascanelli, testemunhou o momento exato em que terminou a carreira do outro brasileiro tricampeão da Fórmula 1: “Não, Nélson, a pista está fechada. Não podemos deixar e você sabe disso. Não há nada que possamos fazer. As bandeiras vermelhas estão lá. Vamos pra casa, Nélson”.
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