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A volta do preguiçoso 07.04.05
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Quando vejo os bem-informadíssimos freqüentadores do GPTotal mergulharem em intensas polêmicas sobre qual seria o merecido tamanho de Michael Schumacher na história da Fórmula 1, sou invariavelmente levado a comparar os tempos atuais à época em que Ayrton Senna e outros grandes pilotos disputavam freadas e títulos. 

Ao comparar, acabo lembrando de episódios que reconstituí no meu livro, “Ayrton, o herói revelado”. O que escolhi desta vez – “Os dois túneis” – mostra Senna em duas situações extremas: a “flying lap” mais assustadora de sua carreira e uma corrida na qual ele teve, na pista, o que Schumacher teve muito poucas vezes na vida: a pressão inteligente e implacável de um grande adversário, em igualdade de condições. 

Foi um dia em que Ayrton aprendeu uma grande lição.

Num tempo em que ainda havia quem duvidasse da importância que ele teria na história da Fórmula 1.

Confiram!

Um abraço

Ernesto Rodrigues



Senna, contornando a Curva da Piscina, em 92
Os dois túneis


Durante cinco voltas, Senna viveu uma experiência única dentro do cockpit naquele sábado, 14 de maio, treino oficial do GP de Mônaco de 88. Não era a sensação de andar no limite, que ele mesmo já tinha descrito um dia como “um fragmento simultâneo de perfeição do carro e do piloto”. Também não era a perda momentânea desse limite, que, também segundo Ayrton, provoca um súbito frio na barriga, forte o bastante para travar imediatamente a respiração.

Senna jamais soube explicar exatamente o que aconteceu naquelas voltas. Sabia apenas que tinha ultrapassado o limite e que, em vez de frios na barriga, pulmões travados, rodadas ou batidas, continuara na pista, acelerando, aumentando o ritmo e quebrando recordes. Uma viagem sensorial que descreveria em detalhes, anos depois, para a jornalista Mônica Bergamo: “A cada nova volta, aumentava a diferença para os outros pilotos, até que cheguei a ficar dois segundos mais rápido. Uma eternidade. Eu estava me superando a cada volta, e simplesmente entrei em outra dimensão. Por causa da velocidade, as referências de espaço e de tempo se modificaram. Não via a pista, ela tinha virado um túnel. A distinção entre o homem e a máquina deixou de existir, me fundi com o carro, viramos a mesma coisa”.

Creighton Brown, diretor da McLaren, naquele dia deixara o boxe apertado da equipe para acompanhar, da menor distância possível, o esperado show de seu mais recente contratado. E se postou junto à cerca de proteção na entrada das curvas que contornam a grande piscina da Marina de Mônaco. Ficou assombrado com a velocidade e a trajetória de Ayrton naquele trecho: “Ele passava a milímetros do guard-rail. Foi o momento mais espetacular que já vi no automobilismo”.

Senna sentiu então uma espécie de tranco nos sentidos. E parou no boxe para não mais voltar à pista naquele dia: “Tive um estalo, uma agulhada e acordei para a situação de extremo perigo em que estava. Meu corpo começou a tremer e fui para os boxes. Fiquei morrendo de medo. Eu conseguia controlar o carro mas estava entrando no inconsciente. E por aí não conheço, não sei o que pode acontecer”.

Para Isabel, a portuguesa que trabalhava no apartamento de Ayrton em Mônaco, o difícil foi explicar o que aconteceu na corrida do dia seguinte:

- Estava eu vendo o menino na televisão. De repente não vi mais o menino. Toca a campainha, eu abro a porta e era o menino.

A 67ª volta da corrida acabara de ser concluída. Alain Prost receberia a bandeirada em poucos minutos, enquanto o “menino”, destruído pela perda da liderança folgada da prova num erro banal na curva de acesso ao túnel do circuito, não queria conversa nem com Ron Dennis.

Galvão Bueno, encerrada a transmissão, foi direto para o apartamento, preocupado com a decisão de Senna de ir direto para casa, a pé, sem dar satisfações à equipe:

- Você tem que falar com os caras. Tem de dizer alguma coisa.
O McLaren de Senna, em Monaco 88, logo após a batida

- Conta lá. Fala lá com os caras. Não vou lá não.

Reginaldo Leme, que também fora ao apartamento, acabou sendo porta-voz involuntário de uma versão do acidente, pneu furado, que seria rapidamente desmentida pela McLaren. Tecnicamente, Ron Dennis não precisava de explicações: “Ayrton relaxou, perdeu a concentração e cometeu um erro”.

Um primeiro momento de desconcentração já levara Senna a errar uma marcha na curva do Cassino, algumas voltas antes da batida do túnel. Por muito pouco ele não batera no guard-rail. O susto o fizera retomar o ritmo e a concentração que perderia novamente.

Havia, é claro, o dedo de Prost. Alain, ainda em terceiro lugar, atrás da Ferrari de Berger, sabia que tinha poucas chances de alcançar Senna. Menos ainda de ultrapassá-lo naquelas ruas. Mas ao se livrar de Berger, Prost decidiu emitir o que Christopher Hilton chamou de “ondas de choque”, acelerando mais e trocando mensagens frequentemente pelo rádio com Ron Dennis. No cronômetro, o ritmo de Prost aumentava a uma média de oito décimos de segundo por volta.

Alain queria deixar Ayrton nervoso com sua aproximação. E contava, quem sabe, com uma precipitação de Senna na hora de ultrapassar um retardatário. Senna, informado sobre a progressão de Prost, mordeu a isca: baixou o próprio tempo até quebrar o recorde da pista na volta 59, com 1m26s3. Logo depois, ao saber do novo ritmo de Ayrton, Prost interrompeu as “ondas de choque” e tirou o pé. Foi quando Ron Dennis pediu que Senna diminuísse o ritmo. Ayrton obedeceu, perdeu a concentração e bateu.

De acordo com Ron, Senna, ao retomar as conversas com a equipe, três horas depois da corrida, “assumiu cem por cento da responsabilidade”: “Ele infligiu um extremo sofrimento mental a si próprio. Depois, colocaria aquilo numa caixa e começaria a ganhar corridas”.

O próprio Senna repetiria, no futuro, a grande lição daquele dia: “Nunca permita que alguém ou alguma coisa perturbe seu ritmo”.

A imprensa, que já andava chamando Senna de irresistível, imbatível e de “príncipe da velocidade” puxou uma segunda e reabriu espaço para críticas, incluindo as de Prost: “Ayrton faz tempos excepcionais, mas corre risco demais. Isso já poderia ter acontecido nos treinos”.

O jornal Nice Matin, o mais importante da Riviera, sapecou: “Raros foram os campeões do mundo que não casaram talento com inteligência. O futuro será revelador dos progressos feitos pelo brasileiro para ser o número 1 da Fórmula 1”.
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