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| » » » 03.03.05 |
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| A volta do preguiçoso |
03.03.05 |
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Amigos do GPTotal,
A poucos dias da abertura da temporada de 2005, em meio a tanta especulação sobre como será a Fórmula 1 este ano, acho que vale a pena lembrar o início de uma temporada tão especial quanto polêmica na carreira de Ayrton Senna.
Transcrevo hoje dois episódios do meu livro "Ayrton, o herói revelado". Eles mostram os antecedentes e as circunstâncias da primeira vitória de Ayrton no Brasil, no início de 1991.
A volta do preguiçoso
Tão tradicionais como as férias de verão de Ayrton em Angra eram os resmungos por sua ausência, ouvidos durante o inverno inglês nos corredores da sede da McLaren, em Woking, e transcritos em tom de contida indignação em algumas reportagens e colunas especializadas da Inglaterra. Naquele início de 91, junto com a ironia da comparação entre as temperaturas de Angra e Woking, houve também, nas entrelinhas da imprensa, muita solidariedade com o esforço de Gerhard Berger para testar a McLaren sozinho, enquanto Senna se esbaldava.
Nigel Roebuck, em Autosport, sempre vigilante, bem-informado e com a lâmina da ironia afiada, condenou Senna pelas críticas que ele fez ao novo motor Honda V12, considerado por ele pior do que o V10 usado no ano anterior: "Se ele foi indiferente o suficiente para deixar os três meses de testes por conta de simples mortais da McLaren, também não tinha direito de reclamar".
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| Pega com Mansell no Brasil 91, corrida que Senna ganhou correndo apenas com a 6a marcha |
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A partir do GP de Phoenix, nos Estados Unidos, Senna provocou na equipe, como sempre, o efeito de um vento tropical, derretendo o gelo dos queixosos com um serviço completo: mais uma pole e uma vitória, deixando em segundo a Ferrari de Alain Prost, "campeã" dos testes de inverno. O furor da volta ao trabalho, que incluiu uma média de seis horas diárias de reunião com os engenheiros da McLaren e da Honda, levou Gerhard Berger, o operário-padrão do inverno, a fazer o seguinte comentário para Celso Itiberê:
- Esse seu amigo é maluco. Ele vai ficar no boxe até de madrugada. Eu vou para o hotel onde tem uma garota me esperando.
Na véspera da corrida de Phoenix, Prost, que também trabalhara duro no inverno, fez um comentário sobre a equipe Ferrari, revelado posteriormente pelo mesmo Roebuck, e que foi o prenúncio da pior temporada de sua carreira: "Olhe pra eles. Acham que seremos campeões. Amanhã, eu garanto, Ayrton vai ser um segundo mais rápido que a gente. E o mundo vai desabar, você vai ver."
Alain acertou na mosca. Só não imaginava que o mundo ia cair exatamente em cima dele.
Um sonho, uma marcha
Não se sabe se aquele momento de descanso teve algum efeito na heróica vitória de Ayrton em Interlagos, seu primeiro triunfo no GP do Brasil depois de oito participações. Mas o que Senna fez, fora de Interlagos, no fim de semana em que completou 31 anos, mesmo os mais íntimos teriam dificuldade de imaginar: passou horas pescando no lago da fazenda da família em Tatuí, no interior de São Paulo, a 140 quilômetros do circuito , na companhia de Prof. Sid Watkins, como os pilotos se referiam ao seu anjo da guarda nos autódromos. No intervalo entre as tilápias e lambaris, os dois iam de helicóptero para o autódromo, Watkins para garantir que todos ficassem inteiros e Ayrton para o desafio de vencer as Ferrari de Prost e Alesi e as Williams-Renault de Mansell e Patrese, na luta pela pole.
A presença de Watkins no reduto mais protegido da intimidade dos Senna não era gratuita. Os dois eram realmente amigos. Em seu livro Beyond the limit, Sid diz que existiam duas pessoas no mundo, à exceção dos parentes, que ligariam para ele apenas para dizer "olá", sem pedir coisa alguma: Senna e Jackie Stewart, dois homens que tinham em comum, escreveria Sid, "a precisão de pensamento e ação, a dedicação sublime ao esporte, a inacreditável habilidade de pilotar, a ambição e a falta de medo dentro de um carro de F1."
Enquanto Senna e Watkins pescavam, o piloto Nelson Loureiro ficava muito preocupado com volta deles, a tempo, para os treinos e a corrida. O helicóptero Esquilo de Ayrton não tinha equipamento para vôo por instrumentos e havia a possibilidade de os dois não chegarem ao autódromo por causa do nevoeiro. Mas tudo deu certo. Na sexta e no sábado, Ayrton e Watkins ficaram na fazenda, pescando. Para corrida de domingo, nem Senna quis arriscar. Os dois dormiram em São Paulo mesmo.
Na domingo, a imagem da Williams de Nigel Mansell sumindo na nuvem de fumaça provocada por ele mesmo no "Esse do Senna", ao acelerar desesperadamente na tentativa de voltar à corrida depois de uma rodada, com a arquibancada de Interlagos comemorando uma espécie de gol, foi o prenúncio de que Senna venceria finalmente seu primeiro GP do Brasil. Pole e líder da prova, Ayrton, naquele momento, só teria de administrar a distância do segundo colocado, Patrese, com a outra Williams.
Senna precisou de muito mais. A partir da 65ª volta, a terceira e a quarta marchas da McLaren não engataram. Mais algumas voltas e a quinta marcha também não entrou. Avisado pelo boxe da Williams, Patrese começou a apertar o acelerador e diminuir a diferença. Para manter a McLaren na frente, Senna, sem o recurso de frear o carro com as reduções de marcha e, principalmente, sem o torque das marchas mais curtas para retomar a velocidade nas saídas de curva no chamado "miolo" de Interlagos, compensou tudo com um enorme sacrifício físico.
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| Brasil 91 No pódio, Senna sofre para levantar o troféu |
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Toda a pressão que o ângulo das curvas provocava no sistema de direção ia direto para os seus braços. De uma hora para a outra, o volante moderno e sofisticado da McLaren se tornou quase tão pesado como o de um carro de passeio que perdesse subitamente o conforto da direção hidráulica. O insuspeito elogio de Nigel Roebuck, na retrospectiva jornalística daquele ano em Autosport, dispensa explicações sobre a façanha de Senna, ao terminar a corrida à frente de Patrese: "Manter o carro na pista naquelas circunstâncias, sem cometer qualquer erro, confirmou a majestade absoluta do talento de Senna".
O que se seguiu à bandeirada da vitória naquela tarde abafada de domingo, em Interlagos, arrebatou definitivamente os brasileiros. Ayrton não conseguiu levar a McLaren até o boxe, depois de diminuir a marcha para pegar uma bandeira do Brasil que um fiscal de pista lhe ofereceu. O motor, preso na sexta marcha, não voltou a funcionar. E ele enfim se entregou à exaustão, ali mesmo na pista, quase desmaiando no cockpit, cercado por dezenas de fiscais e torcedores emocionados.
O amigo Sid Watkins, levado ao local no pace car dirigido por Wilsinho Fittipaldi, viu o parceiro da pescaria em Tatuí inteiramente transformado pelo desgaste físico. Aquelas voltas finais de intensa contração dos músculos da nuca, do pescoço e do ombro, somadas à tensão emocional provocada pela ameaça de Patrese, haviam acumulado no organismo de Senna uma quantidade de ácido lático cuja dor poucas pessoas suportariam.
Levado para o boxe da McLaren no pace car dirigido por Wilsinho, Ayrton saiu com dificuldade do banco traseiro esquerdo do carro, o braço esquerdo apoiado na mão direita, exausto, suado e ainda com muita dor. Cercado por Ron Dennis, Sid Watkins, ele olhou em volta e, ao descobrir o pai no meio da pequena multidão barulhenta, gritou: "Vem cá, pai! Vem cá!"
Milton da Silva deu sinais de que queria deixar o filho entregue aos torcedores. Ao perceber, Ayrton se encheu de energia e, para espanto de Ron Dennis e seu minúsculo domínio do idioma português, gritou, exigente, misturando uma certa raiva à dor fíisica: "Vem cá!!! Vem cá!!!"
O pai então abriu caminho entre as pessoas e, sorriso tímido, ficou ao lado de Senna, sem saber o que fazer. No mesmo instante, Ayrton desarmou. E sua voz já era terna e pedinte quando ele finalmente fez o que queria: encaixou a cabeça no ombro direito do pai e pediu: "Só encosta. Me dá um beijo".
Milton, inteiramente tomado pela surpresa no meio do tumulto, pareceu não entender o que filho queria. Mas abriu um sorriso que durou alguns segundos. O tempo em que Ayrton ficou encostado em seu ombro, antes de ser puxado por alguém e levado para o pódio.
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