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Em tempos como os atuais da Fórmula 1 - pistas vazias, buscas desesperadas de patrocínio e carreiras redesenhadas para sempre - nada como lembrar o estilo de Ayrton Senna na hora de se acertar com os chefes de equipe.
Abaixo, um episódio do meu livro “Ayrton, o herói revelado”, um momento decisivo na vida de Senna e também de Derek Warwick.
Por muito pouco, a dupla de pilotos da Lotus de 1985 não foi desfeita em meio a uma pancadaria, nos boxes de Kyalami. Elio De Angelis, irritado com uma manobra de Ayrton na pista, partira para cima dele, chegando a aplicar um empurrão. Senna não quis briga. Deixou Elio esbravejando e foi para o outro canto do boxe com um olhar e gestos que, na lembrança de Chris Dinnage, eram o retrato do enfado. Ayrton e todos em volta tinham outras preocupações. De Angelis, o italiano gente fina, era passado. A pergunta era quem iria substituí-lo.
Mais uma vez a imprensa inglesa queria um piloto britânico na Lotus. E mais uma vez Peter Warr foi em busca desse piloto. Para ele, Derek Warwick era uma ótima escolha para a temporada de 1986, por ser querido pela mídia e por não se opor à condição de segundo piloto. Feito o acordo com Derek, perto do Natal, Peter ligou para dar a notícia para Senna.
- Ayrton, temos a solução perfeita para o segundo carro. Warwick é experiente, uma ótima pessoa e não se importa com a condição de segundo piloto.
Do outro lado da linha, um tom de voz preocupante.
- Não estou muito satisfeito, Peter. Vou pensar no assunto e a gente conversa depois.
Cinco dias depois, a decisão de Senna:
- Não quero o Warwick na equipe, Peter.
- Mas como, Ayrton? Eu já assinei com ele.
- Não quero, Peter.
Para Warr e outros que acompanharam a negociação, Ayrton temia Warwick por sua grande capacidade de fazer amigos, não exatamente pelo que ele viesse a fazer na pista. Bob Dance, o chefe dos mecânicos, sabia que nada mudaria a decisão de Senna: “Senna simplesmente não se importava. Tinha um objetivo a seguir e era isso que interessava, ponto”.
Gerard Ducarouge nem se preocupou com o assunto: “Eu não tinha a menor dúvida de quem ia conseguir os melhores resultados possíveis para a Lotus era Ayrton Senna”.
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| Em 86, Warwick correu pela Brabham e não marcou um ponto sequer |
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O dia 22 de dezembro foi um dos piores momentos da vida profissional de Peter Warr. Chamado à sede da Lotus, Warwick entrou no Castelo de Ketteringham pensando que ia assinar o contrato para dividir as Lotus-Renault com Senna. Encontrou um clima de constrangimento e uma explicação curta e grossa:
- Derek, sinto muito, não haverá contrato. Senna não quer você na equipe. Falou com o patrocinador no Brasil e nós não temos outra saída.
Warwick ficou devastado com a notícia. Não estava apenas perdendo o lugar na Lotus. Estava perdendo o lugar na Fórmula 1. Mais indignação que ele sentiriam a imprensa inglesa e a mulher. Sem tempo para negociar com outra equipe, ele assinou com a Jaguar para disputar o Mundial de Marcas, mas acabou voltando à Fórmula 1. Um retorno amargo, substituindo, na equipe Brabham, o mesmo Elio De Angelis, que morreria num treino no circuito francês de Paul Ricard.
Eleito imediatamente inimigo dos ingleses pela imprensa, Senna deu dezenas de entrevistas dizendo que o veto não era uma restrição pessoal a Warwick, mas uma medida necessária para evitar futuros problemas internos na Lotus. Não adiantou. Arrogante foi o adjetivo mais encostado ao seu nome nas manchetes. Com o tempo, o próprio Warwick deu razão a Senna. A Lotus, Derek sabia, não era capaz de atender aos dois pilotos. De um lado, o fenômeno Senna, de outro, um inglês no pico da carreira, queridíssimo de todos no paddock e na imprensa. Seria crise na certa.
Ayrton sabia que, além de ter a verba da Souza Cruz, fora uma peça chave na renovação dos contratos que mantiveram na Lotus os motores Renault, o combustível da Elf e os pneus Goodyear. E chegou a insinuar que o amigo Maurício Gugelmin, então disputando a Fórmula 3, seria a melhor opção para o segundo carro. Poderoso, sim, mas não absoluto: prevaleceu o indicado da Imperial Tobacco, John Colom Crichton-Stuart, Conde de Dumfries e filho do sexto Marquês de Bute. De acordo com Clive Chapman, Dumfries ficou muito feliz só de estar na Lotus: “Dumfries deu à equipe uma certa leveza que compensou a intensidade de Senna”.
Ainda naquele Natal, Derek Warwick foi surpreendido com um cartão inesperado. O remetente lhe desejava um feliz 1986 e “tudo de bom” na temporada. Era Ayrton. Derek rasgou o cartão com raiva, certo de que ele fora uma indesculpável gafe dos responsáveis pelo trabalho de relações públicas de Senna.
Nos anos seguintes, Derek receberia de Senna, na pista, uma generosidade que não existia para outros pilotos. Em algumas ocasiões, Ayrton tentou até ajudá-lo a tirar o máximo de seus carros, sempre pouco competitivos. Em Monza, num treino de classificação, Senna terminava uma de suas voltas voadoras e, na entrada da curva Parabolica, que antecede à longa reta de chegada, ao ultrapassar Warwick, naquele momento iniciando a sua volta rápida, resolveu continuar acelerando forte a McLaren para puxá-lo com o vácuo. Uma camaradagem a 300 quilômetros por hora, sem palavras, acenos ou conversas posteriores no boxe. Alguns décimos de segundo para diminuir um pouco a distância entre o campeão e o piloto bom caráter que tivera o azar de cruzar o seu caminho.
Um outro cartão de Ayrton chegou à casa de Warwick em 1989. E este certamente não era uma gafe de relações públicas. Eram pêsames pela morte trágica de Paul, irmão mais novo de Derek, num acidente da Fórmula 3000, no circuito de Oulton Park. Senna foi o único piloto da Fórmula 1 que mandou pêsames. Warwick nunca esqueceria o gesto.
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