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| O Peugeot da equipe Pescarolo |
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No trem, indo para Paris, céu cinza e encoberto e uma primavera arredia, não cumprindo a promessa dos seus primeiros dias. E me encontro novamente escrevendo uma coluna para o GPTotal, atônito em me dar conta que a história de Le Mans, do campeonato GT Japonês e mais a Formula Nippon de 2008 não foram terminadas, praticamente as vésperas de Le Mans 2009.
O que contar de esse tempo desaparecido? Em primeiro lugar, a mudança radical de vida... Depois de treze anos no Japão, a minha antiga intenção de voltar à Europa foi finalmente cumprida. Adeus a Tókio, adeus às pistas de Suzuka, Fuji, Okayama, Motegi, Autopolis, Sugo e outras nipônicas, onde militei por tanto tempo. Adeus ao tempura, sushi, ramen, yakitori, soba e yakinikku.
A troca na Fórmula Nippon dos carros da Lola pelos Swift, a falta de equipes para o campeonato (só doze carros no grid este ano), mais os cinco títulos de pilotos e os cinco de equipes em seguida alcançados nestes últimos anos me diziam que era hora de trocar de campeonato... Missão cumprida, nada mais a fazer.
No campeonato GT, o regulamento que força as equipes a manterem o mesmo carro por três anos, com pouco desenvolvimento, não me incentivava muito a ser jockey de escrivaninha em Tókio, malgrado as atrações da cidade, e o total de onze campeonatos ganhos mais o convite para assumir a direção técnica da Pescarolo e dirigir o projeto do carro 2010 me animaram a essa decisão, sem falar da dívida que tenho com a patroa, aquela santa, que aguentou o meu desaparecimento por trezentos e trinta dias por ano, em média.
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| Os Nissan GT-R, desenvolvidos por Divila para o GT japonês |
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Posto isso, já tinha acertado a minha demissão da direção técnica da Nismo, assinado novo contrato como consultor técnico no projeto GT1 FIA europeu do GT-R e posto em andamento a rescisão dos contratos de telefone celular, apartamento e contas japonesas de e-mail quando tivemos a crise econômica. A equipe ficou com um carro que deve tranquilamente ser competitivo pelos dois anos que faltam antes do novo, já que ganhamos nove das últimas doze corridas (sete das nove o ano passado e duas das três este ano). O meu GT-R ficou melhor que o 350Z, que era meu orgulho.
Com a crise econômica, o panorama mundial mudou radicalmente. Basta ver as mudanças na F1 para ver até onde afetou o automobilismo mundial. Pelo visto teremos uma reestruturação de todos os campeonatos, com alguns parando, a falta de orçamentos para equipes e pilotos e uma brutal seleção dos mais aptos.
Pode ser até que seja bom. Em muitas fórmulas, os anos de vacas gordas trouxeram certa abundância e excesso, com um aumento do supérfluo e uma invasão das "celebridades" que não tinham nada a ver com o esporte. Puro panis et circencis no mais debochado senso do termo.
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| Os carros da Pescarolo em Spa |
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Por outro lado, o novo projeto do Pescarolo 2010 está apertado, sem muito financiamento e dependerá dos resultados de Le Mans 2009 e da condição da economia mundial. Posto isso, a mudança de alguns sócios na equipe nos deu a oportunidade de ter, ao lado do Pescarolo evolução 2009, um Peugeot FAAP 908HDI 2009, correndo com motor diesel.
A equipe de pilotos é excelente: Pagenaud, que corre na ALMS com o Acura da equipe do Gil de Ferran, Bouillon, nosso piloto Pesca de muitos anos, e Benoit Treluyer, meu piloto no GT e Nippon nos três últimos anos (este ano começou bem, já ganhou uma corrida de Nippon e uma de GT). Pena que na Pescarolo não pudemos continuar com Emmanuel Collard e Romain Dumas, mas houve um bloqueio da parte da Peugeot pois eles são também pilotos Porsche (leia-se Audi-VAG) no ALMS e a Peugeot não quer que a Audi tenha a mínima informação a respeito do 908.
Tudo isso somado, dá uma melhor oportunidade para ganhar Le Mans, onde já bati na trave várias vezes, sempre chegando em segundo lugar.
Essa tendência continua um pouco este ano no campeonato FIA Le Mans Series. Com a nova aerodinâmica, desenvolvida com um modelo em escala 40% no túnel que era da Sauber F1, ganhamos 11% de carga aerodinâmica, com menos 8% de arrasto. Mas o melhor foi à redução da variação de porcentagem de carga dianteira entre a atitude picado e cabrado, que passou de 11% a 3%, fazendo o carro muito mais equilibrado na fase de entrada e saída de curvas.
Em Barcelona, lideramos por quatro horas mas um erro do piloto, Tinseau (ele deixou o motor morrer ao sair do box, o que nos custou 35 da nossa vantagem de 45 segundos), e tráfego com pneus frios nos fez cair para 2º. E a entrada de um safety-car nas últimas cinco voltas nos impediu de recuperar a liderança.
Voltamos das Seis Horas de Spa mais contentes, embora em 2º mais uma vez. É que em Spa tínhamos uma concorrência mais aguerrida, os dois Peugeots oficiais e um novo desafiante, a Oreca, que conta com pilotos do naipe de Panis, Lapierre e Bruno Senna, que fez uma boa classificação. Com o toque do David Brabham num dos Peugeots e a nossa boa atuação nos boxes, o ataque constante de Bouillon/Tinseau nos deu um valorizado 2º lugar. A mudança das equivalências entre o diesel e o LMP gasolina melhorou um pouco o desnível.
Tenho muito para contar ainda, da minha passada pelo Brasil, a primeira corrida com o novo stock-car, as primeiras férias em 40 anos, e a redescoberta do automobilismo brasileiro. E também as 500 Milhas de Indianápolis, a única corrida mítica que faltava no meu currículo.
Mas isso será motivo para a minha próxima coluna – e prometo que não levarei tanto tempo para escrevê-la.
Abraços
Ricardo Divila
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