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Bourdais é o cara! 18.04.08


Continuando nosso papo iniciado em 11/4/2008, queria dizer que, como engenheiro, não me apraz muito saber que todo ganho de performance é penalizado. Devo admitir, porém, que, como conceito comercial, as regras adotadas no campeonato GT japonês funcionam muito bem pois toda equipe tem sua oportunidade de conseguir resultados, dando retorno aos seus patrocinadores, além de tornarem possível às fábricas com bons carros ganhar corridas. E os espectadores assistem a provas muito equilibradas, com todos os campeonatos – a única exceção foi o do ano passado - sendo disputados até a última rodada. No fim, é um desafio a mais manter a equipe competitiva.





Nosso Nissan esperando pela superpole em Suzuka
Bem, voltando ao começo do ano, após testar em Sepang com o novo Nissan GT-R, já tinhamos uma idéia de que o carro é um passo à frente em relação ao modelo 350Z, se mostrando estável nas curvas de alta e tendo melhor tração. Andamos o tempo todo com o tanque cheio para desenvolver bem o carro em condições de corrida e também para esconder um pouco as nossas cartas antes do começo do campeonato. Mas o mais engraçado é que a Toyota e a Honda fizeram o mesmo... No fim, acabamos todos andando igual e todo mundo jurando que aquele era o limite do carro.

Os testes seguintes, em Suzuka e Fuji, deram na mesma, sendo que Fuji já mostrou a nossa fraqueza: velocidade de ponta.

A tão aguardada primeira rodada do GT, dia 16 de março, em Suzuka, começou bem, com as primeiras sessões de treino mostrando que tínhamos boa vantagem tanto nas curvas rápida quanto nas lentas. A única preocupação era a velocidade final nas retas longas. O treino mostrou também os Honda bem lentos,

João Paulo e Seji Ara em Suzuka, em foto publicada no site IPCDigital
Na classificação oficial, emplacamos quatro carros da Nissan no top 5, com os dois GT-R Nismo na ponta , seguido do GT-R Calsonic Hoshino. João Paulo Oliveira tirou um bom desempenho do seu GT-R da Yokohama e ficou em 5o. Na Superpole igual, três Nissans ocuparam as primeiras posições, seguidos por um Toyota, o n.36 do Lotterer/Wakisaka, campeões o ano retrasado, e pelo Honda n.18 do Kogure/Michigani, que parece ser o mais perigoso entre os Honda esse ano



Corrida meio chata, sem grandes disputas, fora o empurrão do Loterer no Seb Phillipe na primeira volta, que o deixou no muro com toda a traseira arrebentada. Como o empurro não foi visto no monitor e os fiscais na curva disseram não ter visto nada, ficou como acidente de corrida... Portanto, deu Nissan em primeiro e segundo no pódio, com Toyota em terceiro.



Resultado final em Suzuka:

1º) Benoit Treluyer/Satoshi Motoyama, com Nissan GT-R;
2°) Michael Krumm/Masataka Yanagida, com Nissan GT-R;
3º) Andre Lotterer/Juichi Wakisaka, com Toyota SC430;
4°) Richard Lyons/Yuji Tachikawa, com Toyota SC430;
5) João Paulo de Oliveira/Seiji Ara, com Nissan GT-R





O Nissan de João Paulo
O que desagradou no resultado foi, após a premiação, receber o comunicado de que todos os Nissan “ganharam” 50 quilos de "lastro de correção". Os Toyotas ganharam 40 quilos. Os Honda, coitadinhos, "são tão lentos" que precisam de ajuda....

Pois é, Honda! De minha parte já estou contribuindo, pois com um carro com 105 quilos a mais (50 quilos de lastro de correção, mais 50 quilos pelo primeiro lugar, mais 5 quilos pelo segundo tempo no grid) e o outro com 100 quilos a mais (50 de lastro de correção mais 40 pelo 2o lugar, mais 10 pela pole position), prometo não atrapalhar vocês na classificação, ainda mais a segunda rodada sendo em Okayama, pista de tração e aceleração, com um hairpin em subida depois da reta, que penaliza bastante os carros mais pesados.





Shakedown do Pescarolo LMP2 em Magny Cours
Logo após a corrida, sai no trem das onze para Tókio e, de manhã cedo, peguei o avião para a França onde, entre os dias 19 e 21, fizemos o shakedown do Pescarolo LMP2 e o teste dos outros carros LMP1 em Magny-Cours. Foi ótimo porque era do lado de casa mas só tivemos dois dias bons de testes, pois na sexta-feira choveu sem parar. Acabamos por anular o teste por volta do meio dia, o que me deu tempo de terminar esta coluna!





O Pescarolo
Segunda-feira, dia 24 de março, peguei o avião de volta para Tókio, chegando terça de manhã, justo em tempo de sair para Fuji, para três dias de testes, já com o carro pesado, para preparar para o round 3 do campeonato GT. Depois do teste fiquei por lá mesmo pois, no dia seguinte, tivemos teste da Fórmula Nippon e, no fim de semana, a primeira rodada do Nippon. Mas disso, falo em nosso próximo encontro.





Como nota adicional, algumas palavras a respeito do Sebastien Bourdais, que fez sua estréia na Fórmula 1 no GP da Austrália, num Toro Rosso.

Conheci Seb no campeonato Francês de F3, onde era piloto da Martini Mk. O Tico Martini, construtor de Fórmula 2, ganhador do campeonato europeu com o Laffite é um amigo pessoal. Como indica nome, é de origem italiana mas teve uma educação inglesa, sendo o pai maitre na Inglaterra. Tem a oficina ao lado de Magny-Cours, agora vendida a Guy Ligier. Como hobby constrói aviões ultraleves e tem um magnífico helicóptero dos anos sessenta, que parece uma libélula, a bolha de perspex brilhando ao sol...

Enfim, voltando ao assunto, a Martini teve o Bourdais como piloto na temporada de 99 e fiz várias corridas ajudando no ataque ao campeonato. Fiquei impressionado com a inteligência e atitude do Seb. Na época, com 19 anos, ele era um jovem estudante de ciência da computação e já mostrava instintivamente uma visão mais técnica das corridas. Analítico e técnico, era excelente acertador, no senso de bem analisar o comportamento do carro, tendo grande facilidade para explicar em linguagem de engenheiro o que o carro fazia.

Após ganhar o título daquela temporada, tive ainda a oportunidade de o ter como piloto na Prost, onde fez sua estréia na F3000.

A 3000 era uma fórmula difícil para os rookies, com poucos treinos livres e a classificação em duas sessões de meia hora, aparte alguns circuitos, onde as voltas mais rápidas deviam ser assinaladas logo nos cinco primeiros minutos do treino pelo emborrachamento deixado pelos F1. Depois, perdia-se muito do grip. Em Mônaco, Seb deu um show de pilotagem, perdendo a pole por alguns milésimos de segundo na sua primeira visita ao principado.

Ele também foi meu piloto na Pescarolo e no ano de estréia em Le Mans, sua cidade natal, colocamos o carro em quarto atrás das Audis de fábrica, que tinham um orçamento quase trinta vezes maior do que o nosso.

A não contratação de Seb pela Renault foi uma vergonha, sobretudo porque estava ligada à sua recusa em assinar um contrato a longo, looongo, termo com o manager da equipe, que também é manager de pilotos. Uma bela aula de conflito de interesses...

Bourdais nos treinos desta semana em Barcelona
O Seb acabou indo para a Champ Car, onde ganhou quatro campeonatos seguidos. Sei que o nível lá não é o da Europa mas, mesmo assim, posso assegurar que Seb é um dos bons – e eu já trabalhei com muitos pilotos.

Espero que ele aprenda logo a se classificar no sistema Fórmula 1, o que continua sendo o seu ponto fraco, e que tenha ótimos resultados pois os mereces, pelo esforço e pelo amor ao esporte.

Abraços, amigos, pois tenho algumas sessões de teste pela frente...

Ricardo Divila

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