antes tarde do que nunca! Estou devendo umas colunas há quase um ano, mas não foi um ano comum. A vida é um longo rio, que não pára e mesmo pondo o pé no mesmo lugar, nunca é a mesma água, o mesmo rio. Por que esta tendência filosófica, perguntarão vocês?
A razão é simples: perdi um caro amigo, quase perdi um piloto e amigo, e em uma semana completarei meio século de atividade nas pistas, coisas que forçosamente nos fazem pensar...
O amigo perdido foi o Colin McRae, desaparecido num banal acidente de helicóptero, junto com seu filho. O destino, às vezes, brinca com os homens pois depois de uma carreira brilhante e acidentada em ralis, McRae havia se transformado em construtor de carros e prosseguia competindo em raids como a Dakar. Estávamos conversando sobre a possibilidade de seu retorno para Le Mans, desta vez com um LMP. Um excelente piloto e, mais que isso, uma pessoa exemplar, com um senso de humor refrescante.
O piloto que se saiu bem é Benoit Treluyer, meu piloto de GT e Fórmula Nippon, que se acidentou em Suzuka, atingido por trás por outro concorrente, o fazendo entrar no guardrail a 270 km/h.
Vendo o acidente pelo monitor do muro dos boxes, pensei que havia Treluyer morrido. Como tive a sorte de jamais haver tido um piloto meu machucado nas aproximadamente mil e setecentas corridas que fiz até hoje, este acidente me balançou, a despeito de ter vivido os anos 60 e 70, onde corrida era um assunto temerário.
Treluyer saiu dessa com um dedinho do pé quebrado, distensão dos tendões cruzados do joelho e algumas queimaduras provocadas pelo ácido da bateria. O carro virou pote de flor, mais uma testemunha de como são seguros os carros de corrida de hoje em dia - como a vida, em geral. Muita coisa mudou nestes cinqüenta anos de pista...
A minha primeira corrida como participante foi em dezembro de 57, em Interlagos, aonde ainda tinha o pinheirinho e os lagos, onde errar a curva do Sargento queria dizer que o carro ia parar em cima de uma árvore, como aconteceu com uma carreteira...
A carreteira do Camilão
Ah! As carreteiras! Chassis toscos de Ford ou Chevrolet dos anos 30, rebaixados, recortados, com um enorme V8 lá dentro, que fazia tremer o chão quando passava. E aquela carreteira amarela #18, do Camilão, com as rodas raiadas de cubo rápido Borrani e o bico enxertado de uma Maserati. Os Simcas Chambord, os JKs, as DKW do mestre Lettry, um dos meus ídolos de juventude. E o Christian Heins, meu vizinho, com o qual ia para Interlagos para fuçar nos carros e, voltando para a casa, desenhar modificações e idéias novas. O Bino é uma das razões pela qual tenho que ganhar Le Mans, foi outra inspiração como pessoa, como gentleman e como piloto.
É difícil de explicar para quem não viveu aquele ano 60, onde tudo era possível, o prazer de criar carros, das conversas de terça-feira, onde se decidia correr em Petrópolis ou Brasília ou no Rio, assim, de repente... Calendários? O que? A gente ia se tinha arranjado um pouco de dinheiro, sempre tinha um amigo que ajudava a pagar a gasolina, cicrano que se prontificava a encontrar um amigo no lugar para ter onde dormir, beltrano que descolava um jogo de Pirellis Cinturados para calçar o carro. Ah, tempos românticos! Foi bom ser jovem, cabeça fresca, sem lenço nem documento.
E o velho Divila que reclamava do filho passar tanto tempo em oficinas, mexendo em carros, em vez de se aplicar para conseguir o diploma de engenheiro que ele, que ficou órfão na I Guerra Mundial, não teve a possibilidade de conseguir, pois teve que trabalhar duro para ajudar a sustentar a família. Sei que consegui lhe dar uma satisfação imensa quando foi apresentado o nosso primeiro Fórmula 1 em Brasília, ao presidente da República, no Congresso Nacional...
Obrigado velho! Você foi um exemplo para mim, do que se consegue se a gente se aplicar e trabalhar para fazer o que gosta.
Aquelas idas a Interlagos, cada vez que tinha uma corrida, me fez conhecer muita gente boa, que gosta de mecânica e de carros, que inventa, que compete, e depois dá risada das ocorrências; E as histórias de viagem pelo Brasil afora? Gostaria que a velha canalha se reunisse, com uns choppes, uns petiscos, e saísse noite afora contando as peripécias. Tem tanto para se lembrar ...
A vida no Japão tem as suas surpresas, como vir pela rodovia para Fuji e topar com um motel em forma de transatlântico
Olhando para trás, é difícil imaginar que aquele começo, polindo o pára-brisa em "Perspex" de uma Maserati mecânica Continental, iria me levar por todo o mundo, trabalhando com todas essas categorias de corrida, me fazer viver em todos esses países, trabalhando com todas essas nacionalidades diferentes, fazendo amigos de culturas tão diferentes, recebendo essa lição de humanismo e mostrando que, no fundo, somos todos iguais. Uma vida na qual ir para um circuito é o mesmo que entrar em casa. Os boxes são familiares, os rituais e preparações são as mesmas em todos os países, em toda a categoria.
Isso foi o que percebi pela primeira vez em 1977, após haver ficado no Brasil por seis meses, sem ir às corridas, quando estávamos re-estruturando a fábrica em Interlagos, melhorando os meios de produção dos carros, organizando a operação brasileira da Fittipaldi.
Ao chegar a época do Grande Prêmio, as equipes instaladas nos boxes, fiquei na saída dos boxes, observando o começo dos treinos, como havia feito aqueles seis meses vendo as corridas nacionais. Aquele formigueiro de gente em cima dos carros, o movimento nos boxes, as expressões, os gestos... Eram igualzinhos tanto na Fórmula V quanto na Fórmula 1. Era a mesma paixão, aplicação e entusiasmo. Evidentemente, a organização era um pouco diferente mas no fundo essa doença que é o esporte a motor é igual para todos.
Tenho tanto a agradecer a esse pessoal, que não sei por onde começar. Não vou citar nomes senão isto aqui vai virar uma lista telefônica mas vocês sabem quem vocês são... Obrigado amigos! Tem sido uma ótima viagem...
Para a crônica, este ano não foi o de Le Mans, como as ultimas 24 vezes que fui lá... Tá duro de encarar os diesel da Audi e da Peugeot. Mas ainda chego lá.
O novo motor V8 da Nissan
No GT, um ano duro. Nossa vantagem aerodinâmica foi derrubada com o regulamento novo, com a prancha sob o chassi, como na Fórmula 1 e nos protótipos. Foi também o primeiro ano com motor atmosférico, após todos esses anos de turbo, mas tínhamos que mudar. O bom Nissan V6 VQ-35 estava abaixo dos V8 atmosféricos da Honda e da Toyota, portanto tivemos que partir para o nosso V8. Não está ainda à altura mas começamos mais tarde, vamos ver se vai ser em 2008. Só ganhamos duas corridas este ano e nenhum campeonato, sejam de marcas, pilotos e equipes. Meu primeiro ano em branco no campeonato GT desde que eu comecei.
A alegria veio do campeonato Nippon, chegando ao meu quarto título, o terceiro consecutivo, duplo campeonato, pilotos e equipes, e, como o ano passado, primeiro e segundo no campeonato de pilotos.Temos muito que contar sobre o ano, o que prometo em colunas futuras. Já deveria ter feito isso mas com os dois campeonatos, Le Mans e o novo GT-R, me sobrou muito pouco tempo até para dormir, quanto mais escrever colunas.
E nem falei da Fórmula 1. Que ano! Uma nova geração que surge, uma trama de novela das oito, reviravoltas que nenhum escritor de ficção se aventuraria a escrever. Isso vai dar o que comentar nessa calma de inverno. Ah! Após os testes em Sepang do GT e da Nippon em janeiro e os testes em fevereiro... epa! Já está começando a temporada 2008!
O sempre imponente Monte Fuji, observando o paddock
Em 1o de dezembro, estive de novo em Fuji, para a premiação do campeonato de Fórmula Nippon. Nesta semana está acontecendo o Festival Nismo, com apresentação ao público dos carros de corrida do museu Nissan. Terei a oportunidade de guiar alguns desses carros e ser levado como passageiro pelos meus pilotos... Um dia de diversão, sem pressão de horário ou corridas, um divertimento que se tem uma vez por ano.
E na semana que vem começa de novo: preparação para o teste em Suzuka, dia 26 de dezembro, com o GT-R, nosso novo carro para o campeonato de 2008. Natal? Pois é, o meu presente de Natal está aí, e vou curtir na pista, a minha casa.
Terminando o ano GT como eu gosto, na pole
Um abraço para todos, um bom Natal e feliz Ano Novo, aquele que vai ser o meu qüinquagésimo primeiro nas pistas e que, espero, tenha mais um campeonato no bolso, como este ano, e quem sabe, finalmente, uma vitória em Le Mans