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| » » » 18.08.05 |
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| Um passeio de fim de semana na Sarthe... |
18.08.05 |
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Le Mans, ao amanhecer. Nossa equipe já estava com os carros bem posicionados, andando no script, em 2o lugar, a quatro voltas, e em 5o, chegando no 3o e 4o lugares.
A briga entre a Corvette C6-R e as Aston Martin DBR9 pegando fogo. Eles se revezavam no comando da classe GT, cada um passando à frente em função das paradas de box. Eu tinha interesse pessoal na briga pois na Corvette estavam Max Papis, velho conhecido da época de F3000, Olivier Beretta, meu ex-piloto de LMP, e, na Aston, Stephane Sarrazin, hoje um dos pilotos que Eric Comas assessora e também piloto da Prodrive em ralis, com uma Subaru e que foi meu piloto de teste na Prost F1. Com ele, chegamos ao pódio em Mônaco, na F3000,na minha despedida da categoria, após 99 corridas. No fim ganharam as Corvettes, 5o e 6o lugares, a 21 e 23 voltas dos vencedores Kristensen/Werner/Lehto, com Audi. A Aston chegou em 9o, a 37 voltas.
O nosso 2o lugar era tranqüilo, estávamos descontando quatro segundos por volta dos líderes, e já cinco voltas à frente do 3o - e abrindo...
Cabe aqui também uma nota a respeito do Sebastian Loeb. Como sou mais um habituee de circuitos, olho com admiração o rali, mas não é o meu meio. Sabia do Loeb e sua performance em ralis, mas para Le Mans o considerava uma imposição do patrocinador.
Toda a equipe deu um apoio tremendo a Seb, os outros pilotos explicando os traçados e as manhas do circuito. Helary e Ayary dando o máximo de tempo nos treinos para Seb no carro (o Helary só deu 7 voltas cronometradas antes da corrida, em benefício do Seb).
Pescarolo e eu enchendo a cabeça dele de táticas e maneiras de se comportar em diferentes situações, toda a parafernália do carro, os mil e um botões, sensores, contatos, as aulas de mecânica para que ele pudesse fazer os consertos na pista, se necessário, para trazer o carro de volta ao box - só o piloto é autorizado a tocar no carro quando fora dos boxes.
Bom, posso dizer que fiquei impressionado. O Seb é realmente um piloto dotado e, nessa corrida, ganhou os seus galões de piloto endurance. Assimilou todo esse mar de informações, não cometeu nenhum erro grave, cuidou da mecânica muito bem e logo estava virando na faixa dos 3m40, indo a 39 de vez em quando, mais rápido que os nossos concorrentes. Fez tudo que poderíamos pedir e mais, considerando a pressão da mídia, que o tratava como uma celebridade. Pudera! É o único campeão francês em automobilismo no momento (e um campeão superlativo. Vejam os seus resultados este ano, é recorde sobre recorde, chapéu, como dizem os franceses.
Estou começando a ser mais respeitoso com os pilotos de rali. A Dakar já me deu a oportunidade de trabalhar com o Ari Vatanen e o Colin McRae, dois outros mitos da categoria, e agora o Loeb. (Discutindo com o Sarrazin a respeito do Loeb, o Stephane me confirmou que acha correta a minha tese de que é mais difícil ir do circuito ao rali, como o Stephane está fazendo, que do rali ao circuito.)
Nosso ritmo pela manhã começou a mostrar que Loeb estava realmente à vontade no carro e tiramos duas voltas do 4o colocado, a Audi de Frank Montagny/J.M.Gounon/ Stephane Ortelli(ex-ganhador de Le Mans com a Porsche GT1 e meu piloto três anos atrás na Pescarolo).
Foi aí,após a troca de pilotos,de Loeb por Ayari, que perdemos a corrida.
Na volta de saída do box, Ayari chegou rápido demais à curva Playstation (ironia das ironias, o nosso patrocinador) e tocou na zebra, o que o mandou direto ao muro, quebrando o suporte de asa traseira, difusor dianteiro e traseiro, carroceria dianteira e, o pior, a suspensão dianteira, que entrou no monocoque.
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| O triste fim do carro 17. |
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Após uma rápida olhada no monocoque, afundado e irreparável, fechamos a porta do box 17. Ai também terminou a possibilidade de se criar mais um mito... Imaginem só se Loeb ganhasse Le Mans na sua primeira participação.
Continuamos ,agora só com o carro 16,chegando no Audi do Kristensen mas a duas horas do fim, recebemos a notificação do Pescarolo: levantar o pé e garantir a chegada.
Fizemos uma parada a mais para verificar todos os componentes, óleo, água, examinar os triângulos, jogo de rolamentos, trocar a cartografia do motor, limpar os radiadores, uma vistoria geral. Após 22 horas e meia de corrida, Pescarolo decidiu manter o 2o lugar, a despeito de estar já na mesma volta do Audi de Kristensen, preferindo não arriscar uma quebra nas últimas voltas. Eu não concordei, nem Comas, que faria as últimas três séries, pois penso que é melhor morrer de pé, lutando, do que sobreviver de joelhos.
Mas, afinal de contas, a equipe é dele e compreendo a sua posição, depois de investir tudo nessa Le Mans, de querer chegar ao fim.
Ao ver que nos havíamos levantado o pé, a Audi também diminuiu o ritmo. Por garantia, deixamos a Audi passar na frente, diminuindo assim o número de voltas para o final. A chegada é dada pelo relógio e, no final, os 13,65 km a mais a fazer para cruzar o relógio podem ser fatais. Mesmo que você tenha feito mais voltas, o que conta é passar a linha de chegada depois das 16h.
Hipoteticamente, um carro poderia liderar com duas voltas de vantagem mas se não passar a linha apos às 16h não será classificado. Já se viu muitos carros parados no box em reconstrução total (já vi motores serem desmontados inteiros e refeitos - é permitido se o bloco for o original -, saindo logo antes das 16h para dar uma volta e ser classificado).
Se tivéssemos o outro carro ainda na corrida poderíamos fazer pressão sobre o Audi...
E foi isso ai: 2o mas numa corrida que será mítica, a sétima vitória do Kristensen, e a briga por toda a corrida. No fim das contas , já tenho dois 2os lugares em Le Mans. Toyota e Nissan não chegaram a isso... De lambugem, tenho também o recorde de volta, 3m34s968, pelo menos até o ano que vem.
A atmosfera no circuito nas últimas voltas é fantástica. Os carros todos se colocando em linha e circulando juntos, os comissários agitando as bandeiras e, após a chegada, a tradicional invasão do público, enquanto as equipes sobem ao pódio.
Após a premiação, Pescarolo ainda aplaudia seus pilotos, quando por aclamação pública e atendendo ao chamada do Dr Ulrich, diretor esportivo da Audi, ele teve de subir também a passarela.
Pescarolo foi congratulado pelo Kristensen, que nos agradeceu por lhe haver dado a sua mais difícil vitória em Le Mans, e também pelo Dr Ulrich, que nos prometeu que teremos a revanche o ano que vem, confirmando que voltariam e nos dariam a oportunidade de os bater, adicionando que nos considerava o vencedor moral este ano....
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| Kristensen cumprimenta Pescarolo. |
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Esse tipo de esportividade e estima entre as equipes e competidores é que dá tanto prazer. Seria ótimo ver isso também nas outras categorias.
O que Le Mans me deixou foi uma profunda satisfação de uma corrida épica, daquelas que vai ficar na história, contente de ver o amigo Kristensen entrar no Gotha dos pilotos de Le Mans, com as suas sete vitórias em nove participações, de compartilhar essa experiência com meu amigo e exemplo Henry Pescarolo, um gentleman verdadeiro - e as minhas orelhas doloridas por portar os fones durante 24 horas!
Abraços e até a próxima coluna, quando vou falar das novidades de Sepang, corrida crucial para o campeonato GT japonês.
Ricardo Divila
VEJA AS TRÊS PARTES INICIAIS DA SAGA LE MANS 2005, SEGUNDO RICARDO DIVILA
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