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| » » » 05.08.10 |
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| A culpa é do Colin Chapman |
05.08.10 |
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O internauta que se deu ao trabalho de ler minhas colunas sobre o período anterior a 2 a. Guerra certamente deve ter notado a ausência de equipes inglesas na categoria máxima do automobilismo naquela época.
Só na década de 50 os britânicos começaram a por as rodinhas de fora com Vanwall e Connaught, por exemplo, e o máximo que conseguiram foi negar ao legendário Sir Stirling Moss uma de suas chances de ser campeão.
Na década de 60 a coisa começou a mudar e uma tal de Cooper apareceu com idéias revolucionárias que tornaram a vida do mítico Commendatore muito mais difícil do que parecia, especialmente depois da trágica aposentadoria da Mercedes.
A Cooper foi sucedida pela Lotus e de repente os infernais garagistas ingleses associados a pilotos da estirpe de Clark, Hill e Stewart perturbaram de vez o sono sobre louros do mago de Maranello.
Foi então que o mago Colin Chapman teve mais uma idéia genial: arrumar um patrocinador para viabilizar sonhos tecnológicos impensáveis para uma empresa quase de backyard. Logo o verde-amarelo tradicional da Lotus era substituído pelo vermelho-dourado dos cigarros Gold Leaf.
Não só isso, o nome da equipe também tinha sido vendido e empurrado para terceiro lugar, imediatamente após nome e sobrenome de quem pagava as contas. O dinheiro tornou a equipe ainda mais competitiva mas não sei se Mr. Chapman tinha idéia dos efeitos colaterais que viriam e que se reproduziriam, em diferentes formas, até hoje. É, tem uma certa analogia com câncer de pulmão.
Paremos de pensar como aficionados do automobilismo e tentemos olhar para ele com os olhos de um VP de Marketing de uma grande empresa internacional.
Depois que Bernie pegou o gancho do patrocinador e multiplicou várias vezes o dinheiro envolvido nesse negocio, a categoria passou a ser uma alternativa efetivamente interessante a copas do mundo e olimpíadas. Você, como VP, deve constatar que esta fórmula atrai milhões de aficionados em todas as partes do mundo. Logo vale a pena juntar a sua marca aos vencedores, do mesmo modo que Adidas, Nike etc. no futebol e em outros esportes.
E como saber quem vai ser o vencedor?
Digamos que você é o VP de Marketing de um banco espanhol que tem a ambição de ser um banco intercontinental. Sim, você já comprou, por exemplo, os direitos de patrocínio do GP da Alemanha. A economia nº 1 da Europa. Um GP que já atraia mais de 100 mil pessoas antes da guerra. Você tem praticamente obrigação de patrocinar o primeiro campeão mundial espanhol, principalmente porque, além de competente, ainda é jovem e pode repetir o feito outras vezes.
Então você conversa com a Ferrari, tradicionalmente um dos melhores cockpits do grid e chegam a um bom acordo. Eles ficam satisfeitos em ter um piloto comprovadamente de ponta, tido como o melhor do grid, e dinheiro suficiente para fazer frente aos seus principais rivais.
O outro piloto? Como você lida com as ambições dele? Certificando-se que não irão atrapalhar as suas. Vamos pensar em uma hipótese de resolver isto sem dor? Que tal colocar uma cláusula em que, se o teu piloto estiver na frente no campeonato ele é obrigado a ceder o lugar em situações extremas? É, esse piloto vai pensar “tenho que me manter na frente dele desde o começo e assim essa cláusula fica sem efeito”. Faz sentido?
É feio, esportivamente falando? Não sei se os fãs do automobilismo passaram a boicotar a Marlboro quando Rubens foi obrigado a ceder uma vitória incontestável. Não sei se a atual antipatia à Ferrari vai se estender ao grande banco espanhol, ainda mais que seu presidente estava lá, de corpo presente.
Agora vamos trocar novamente de lugar. Você está nos sapatos e fones do Stefano Domenicali. Você tem um piloto com alguma chance de ser campeão e o outro praticamente sem chances, ambos com um carro que, finalmente, após um esforço sobre-humano da equipe, está grudado nos RB. Por um misto de sorte e competência, o sem-chances está na frente, mas um dos mais fortes candidatos ao título está no encalço do teu principal piloto, aquele que trouxe o super-patrocinador que por acaso está ali atrás, nos boxes.
Sinceramente, mas sinceramente mesmo, o que você faria?
Agora vamos ao circuito magiar e o grande acontecimento da corrida, o mais emocionante de todos, como há tempos não se via: uma das melhores ultrapassagens de Barrichello e uma das piores de Michael.
Por favor, não venham repetir, mais uma vez, que o multicampeão tedesco está se divertindo. Sem dúvida ele tem prazer em guiar um F1, mas a Mercedes, a Petronas e demais patrocinadores não estão investindo um montão de euros com o único objetivo de deixar esse cidadão feliz. Não, como o VP do banco espanhol, os VPs dessas empresas também querem resultados.
E é isso que faz Michael jogar duro. Duro até passar da conta, como ele mesmo admitiu.
Candidamente, ele admite que é conhecido por dificultar as ultrapassagens. Não faz mais que a obrigação, está defendendo os interesses de quem paga seu salario. O problema é estabelecer o limite.
A desculpa de que estava oferecendo o lado esquerdo para o brasileirinho é um acinte tão grande à inteligência quanto as justificativas que ele deu há alguns anos em uma certa disputa pela pole em Mônaco. É feio? É anti-esportivo? Mas ele é o único a fazer isso?
O nosso admirado Felipão Scolari não acabou de dizer que o que interessa é ganhar, mesmo que seja jogando feio? Já não disseram que quem quer ver futebol-arte deve ir ao museu?
E uma vez que voltamos ao onipresente futebol, alguém ficou empolgado com algum jogo dessa copa? Alguém viu algum futebol bonito? Ou todo mundo virou fã de carteirinha das botinadas holandesas misturadas com a paciência espanhola, que produziu a espetacular série de vitórias por um único gol?
Mas há esperanças de que a feiúra, a deslealdade, a troca do espírito esportivo pelo vale-tudo, pelo cinismo de que os resultados justificam os meios, entrem em declínio.
Torcedores VIP tentaram agredir Michael na Hungria. Torcedores VIP! Os principais clientes de bancos e maiores compradores de carros topo de linha.
Creio que os VPs de marketing devem ficar atentos. O esforço para criar uma imagem positiva para suas empresas pode estar saindo pelo difusor.
Carlos Chiesa
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