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| » » » 01.07.10 |
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| E a gangorra continua |
01.07.10 |
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Carlos Chiesa
Encontrei um colega "boleiro" (ou seja, um sujeito que acompanha o onipresente futebol de perto) ontem e perguntei o que estava achando desta Copa. “Que copinha chata”, disse ele.
Bem, deve ter achado a mesma coisa da F1 se acompanhou mais este trenzinho arquitetado por Herr Tilke, o maior criador de ferrovias do mundo. É, maior criador de ferrovias sem trilhos, visivelmente um fã incondicional de filas indianas, bem ordeiras, como se espera de um sujeito originário de um país onde as leis costumam ser para valer. Ferrocarriles Valencianos, desta vez. Alonso deveria ter levantado sua voz contra esse cidadão, ao invés de imprecar contra seu inimigo nº 1, por ser o principal responsável pela ausência de pontos de ultrapassagens. Que coisa aborrecida ver tantos carros diferentes nivelados por baixo.
Sob a perspectiva de competição mano-a-mano, entre duplas, o inimigo nº 1 de Don Fernando I deveria ser Felipe Massa. E eis aqui um mistério digno de filme de detetive. O que terá acontecido com o outrora destemido ferrarista, magistralmente apelidado de Nigel Massa pelo Edu?
Mesmo que Don Fernando I seja efetivamente melhor que ele como piloto, é de se estranhar tanta passividade. E isso não muda, corrida após corrida. Se ele está se tornando uma sombra do que era antes do infeliz acidente do ano passado, porque uma equipe tão cobrada quanto a Ferrari renova seu contrato por um período relativamente longo, com um Kubica dando sopa por aí? Gratidão pelos relevantes serviços prestados? Por ter sido mais responsável do que ele pela perda do campeonato de 08? Nem na época do Comendatore, mais romântica, mais esportiva, gratidão tinha muito lugar na F1.
A boa notícia é que o carro melhorou consideravelmente. Oxalá continue essa progressão e volte a ter chances de vitória. O touro vermelho, em sua versão com motor francês, parece continuar indomável (a versão com motor italiano tem se mostrado mansinha). Didi e Dedé continuam fazendo das suas, sendo que desta vez Dedé Webber resolveu repentinamente fazer um free-lance em outra categoria, passando para a Red Bull Air Race sem avisar.
Talvez já tenha feito por merecer o prêmio de Estreante do Ano, cometendo a façanha – inédita – de realizar a acrobacia sem avião!
Francamente, acho que o Kova não pode ser responsabilizado por nada alem de estar naquele lugar, naquele momento, tirando o máximo que conseguia do seu equipamento. A diferença de velocidade é muito grande? Oh, alguém poderia fazer o favor de informar aos demais pilotos essa notável descoberta, ocorrida somente neste domingo?
E olha que Dedé vinha surpreendendo, dando pinta de que ia provar ser mais do que um bom e experiente piloto. As únicas coisas boas desse acidente é que ele não se machucou e o campeonato ficou ainda mais indefinido. Também pode ser colocado na lista de casos para detetive como uma equipe com um carro tão superior pode continuar se atrapalhando tanto.
Já a equipe de Hamiltão e Botão vem fazendo exatamente o contrário. Saiu de uma inferioridade evidente e já colocou seus dois pilotos embolados na frente.
Qual está se saindo melhor? A gangorra, a meu ver, está bem equilibrada aqui, com ligeira preponderância para o jovem Lewis a julgar pelo numero de pontos, mas Jenson é matreiro que só ele, e este campeonato teve o mérito de recuperar ao menos este aspecto tradicional da F1, o talento do piloto para administrar seu equipamento sem paradas miraculosas nos pits.
Não canso de lembrar que nenhum piloto que chega até a F1 com um bom currículo pode ser menosprezado e Button é uma das provas disso.
Outra prova bem conhecida é Barrichello. Quem tem alguma dúvida sobre sua qualidade deve ler a entrevista do Sam Michael ao F1 News. Se estiver com preguiça, reproduzo uma frase bem elucidativa: "Rubens is very fast and massively experienced and a huge asset to this team." Huge asset, em tradução livre, é algo como "um enorme ativo ou patrimônio".
Alguém se lembra dos comentários de quando ele foi para a Honda, praticamente iguais? É de se supor que Button aprendeu muito com ele e tirou vantagem disso na primeira metade do campeonato do ano passado. Se Rubens estivesse com os freios da segunda metade logo no início, talvez a história tivesse sido diferente.
Palmas para o jovem Hulkenberg, que às vezes consegue igualar ou superar os tempos de seu ponto de referencia.
E aqui abrimos espaço para outro ponto, eventualmente polêmico: o quanto realmente é confiável o placar de resultados entre companheiros de equipe? Hulkenberg largou na frente de Rubens em Valência. Isso quer dizer que ele já é um piloto melhor? Que a gangorra já pendeu para o lado dele? Sam Michael, no momento a pessoa mais abalizada para julgar isso, acha óbvio que não.
Me dá gosto ver a dupla Polaco e Russo. O Polaco já é um talento bem reconhecido, vem tirando tudo que pode do surpreendente Lopez/Renault, como se esperava, mas o Russo continua progredindo. Meu voto para Estreante do Ano por enquanto vai para ele.
Só para falar das Sauber que, como as Williams, finalmente vieram mais para a frente, parece claro que Pedro De La Rosa não faz jus a mais do que tem e, ao contrário, Kamui pode, repito, pode se tornar o mais bem sucedido piloto nipônico da história da F1. Está em cima na gangorra e pode ficar lá o tempo todo.
Michael e Nico. Algum apressado acha que o multi-campeão já ficou obsoleto e está apenas se divertindo?
Dizer que ele estava apenas se divertindo é um jeito sutil de manter a imagem de uma das atrações garantidoras de audiência, com milhares, talvez milhões de fãs no mundo todo. É um jeito.
Outro jeito seria dizer que ele está aproveitando para treinar, melhorando sua tocada e fazendo experiências com seu equipamento. Conhecendo a dedicação, o perfeccionismo do Michael, assino embaixo desta última hipótese. Quando ele diz que está se divertindo, não entendo no sentido literal da palavra, como se estivesse descompromissadamente em um parque de diversões.
A Mercedes e os patrocinadores pagam – muito caro – para por esses carros em ordem de marcha, estão aí para vencer e MS é/era
uma garantia de qualidade no cockpit, além de emprestar fama e prestígio. Não, o sentido de “having fun” é sinalizar que fazer este trabalho continua sendo um prazer para ele, coisa que obviamente Mika Hakkinen, para dar um exemplo, deixou de sentir há muito tempo. Um prazer que Barrichello também continua sentindo. Embora a gangorra esteja claramente a favor de Nico, as coisas poderão ser bem diferentes no ano que vem.
Seguramente Ross Brawn, com total apoio da Mercedes, irá desenvolver um carro totalmente adequado ao estilo michaeliano de pilotar. A melhor opção para Nico será repetir Massa, ter paciência, aprender e assumir o lugar de escolhido dos deuses depois que o atual se aposentar em definitivo.
Force Índia. Sutil vai levando vantagem mas Liuzzi não se deu por vencido. Este é um duelo interessante, penso que vale a pena prestar atenção.
Mistério final: Hamilton se defendeu das acusações de Don Fernando I de favorecimento por parte da FIA contra-atacando. Como o asturiano foi ultrapassado por uma modesta Sauber, então?
Kamui estava com pneus muito melhores, mas todo mundo se lembrará para sempre da dificuldade de Webber com pneus novos para ultrapassar uma modestíssima Lotus. Então, Don Fernando I surpreendentemente abriu mão de uns pontinhos ou o filho do Sol Nascente estava mesmo impossível?
Continua no próximo capítulo.
Carlos Chiesa
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