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Deuses das pistas 27.05.10


Carlos Chiesa

Ayrton Senna em Monza 92 - Clique para ampliar
Ayrton foi o primeiro a falar: o Michael foi punido, mas acho que o Fernando estava pensando em fazer a mesma coisa.

Graham respondeu: ultrapassar com bandeira amarela?

Ayrton: isso mesmo, acho que ele estava armando o bote e o Michael deu o pulo antes.

Graham: Faz sentido. Faz todo o sentido. Duas raposas no mesmo galinheiro, hein?

Isso provoca risos em Ayrton e Graham o acompanha. Riem como velhos camaradas, com muita coisa em comum. Colin estava pensativo, mas não deixa escapar o comentário: raposa? E o que vocês me dizem desse Adrian Newey? O cara que melhor soube interpretar o regulamento. E olhe que também foi muito bem no ano passado.

Graham: como você fazia, hein Colin?

Ayrton: é, mas na sua época não havia computador, demorava uma eternidade para fazer cálculos, testar teorias e mesmo assim sua compreensão da aerodinâmica continua influenciando todo mundo.

A equipe Mercedes em Monza 54 Neubauer é o 2o a partir da esquerda - Clique para ampliar
Colin: obrigado, Ayrton. É, talvez hoje o efeito solo possa ser melhor aplicado, evitando acidentes.

Graham: oh, my dear Colin, curioso ouvir você falar sobre “evitar acidentes.” O cara que falava que se a peça ainda não quebrou era porque ainda estava pesada demais.

Colin: bem, eu não tinha computador para fazer simulações, então tinha que correr riscos mesmo.

Graham: oh, sim, Jochen é quem poderia falar mais sobre correr riscos. Quem corria os riscos eram...

A conversa ia tomar um rumo mais acalorado então Ayrton resolveu intervir: por falar em simuladores, é uma pena que hoje os pilotos tenham mais horas neles do que no carro. Parece uma coisa assim como... como... sexo virtual!

Graham: disgusting. Absolutamente sem graça, para quem gosta do cheiro de gasolina e borracha.





Perto dali, em outra nuvem, a conversa se dá em italiano.

Comendatore: o que você achou de Montecarlo este ano, Lorenzo?

Lorenzo Bandini seguido por John Surtees, ambos com Ferrari, em Mônaco 65 - Clique para ampliar
Lorenzo: ah, Comendatore. Sentiria um frio na espinha, se tivesse espinha ainda, com o acidente do Rubens. Madonna... uma tampa de bueiro deslocada! Impensabile!

Comendatore: felizmente não foi com uma das nossas máquinas.

Lorenzo: é, o senhor sempre pensa nas máquinas primeiro, hein?

Comendatore: é verdade, Lorenzo, me desculpe. Mas, quando um homem deixa tudo de lado para se dedicar à sua paixão, uma paixão de uma vida, e vê que ela não está cuidada como ele acha que deve... tudo o mais fica em segundo plano.

Lorenzo: capisco. Realmente é um tanto estranho o que vem ocorrendo. A Ferrari, que sempre teve o motor mais potente, agora parece estar em segundo lugar nesse quesito.

Comendatore: ah, que saudade do ronco dos meus doze cilindros.

Alberto: nem me diga, Comendatore. E esse conforto que os pilotos têm hoje em dia? Que coisa mais antinatural, tudo hidráulico, elétrico, só falta um massageador no banco para “evitar o cansaço...”

Lorenzo percebe o olhar de Alberto e pega a deixa: imagina, se eu tivesse tido isso em 67 provavelmente teria sido o próximo piloto italiano campeão depois de você, Alberto. O cansaço foi realmente de matar.

Graham Hill com Brabham em Silverstone 71 - Clique para ampliar
Os dois dão risada. Depois de tanto tempo, humor é humor, ainda que negro, mas o Comendatore continua bravo: e essa história de chassis com defeito? Como pode isso? Eu que sempre fiz tudo com o maior capricho, como vão me aparecer com um chassi com defeito? E questa equipe austríaca, também encontraram defeito em um dos chassis!

Assistindo à conversa estava um senhor gordo, de terno estilo anos 50. Nesse momento ele não resistiu e resolveu participar. Falava em alemão, mas nesse lugar você pode falar qualquer língua que todo mundo entende.

Neubauer: ora, Enzo, o que me espanta neles é que, com um equipamento claramente muito superior, mesmo com aquele motorzinho francês, não conseguiram abrir muita distancia da tua equipe e daquela inglesa fundada por aquele rapaz neozelandês.

Comendatore: é verdade, Neubauer. Você jamais deixaria escapar essa oportunidade. Lembro ainda daquela vez que vocês alinharam os Mercedes 1,5 na África tendo feito um único teste e ganharam!

Enzo Ferrari e Alberto Ascari
Neubauer: nós mesmos ficamos espantados! Imagina se eu tivesse computadores e simuladores na época!

Comendatore: iria ser uma boa disputa comigo. Foi uma pena vocês terem abandonado o esporte.

Neubauer: disse bem, Enzo, esporte. O esporte é que abandonou a categoria. Hoje ela mais parece um videogame riquíssimo, a paixão foi embora. Pistas assépticas, pilotagens apenas corretas na maioria das vezes, regulamentos muito pouco inteligentes, politicagem da pior espécie... Chamam de esporte só pela tradição.

Comendatore: até os pilotos deixaram de ser esportistas. O teu multicampeão não tem nada a ver com um Caracciola ou um Rosemeyer, exceto o talento. Imagina, parar o carro no meio da curva para impedir o concorrente de fazer a pole... Isso é lá atitude de esportista? E agora ainda diz que a culpa é da mídia! Como se a imprensa tivesse inventado o que todo mundo viu! Parece coisa de político de baixo nível mesmo...

Colin Chapman montado no Lotus de Jim Clark, em Monza 63 - Clique para ampliar
Neubauer afastou uma pequena nuvem que estava passando, talvez para ganhar tempo. Mas sua cara não deixava dúvida sobre qual seria a resposta.





Nelson Rodrigues acreditava em deuses dos estádios, referindo-se ao futebol. Já eu penso, muito modestamente, que a energia dos pilotos e chefes de equipes que se foram deste mundo talvez esteja presente nos lugares que foram importantes para eles.

Carlos Chiesa

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