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Carlos Chiesa
Está começando o campeonato de verdade. Até o GP da Espanha, foi aquecimento, que paradoxalmente atingiu as temperaturas mais altas debaixo de chuva.
Nestes tempos de Movimento Sem-Treino, as corridas iniciais valem como testes e, como o campeonato é longo, o peso dos pontos conquistados até o momento não é tão grande. As equipes aprenderam tudo que puderam e trataram de corrigir o que foi possível corrigir, atrapalhadas por cinzas vulcânicas dispersas pelo ar. Tem um monte de pacotes aerodinâmicos que desembarcaram na Catalunya.
Vamos ver o retrospecto das duplas que disputam o campeonato e fazer apostas para o futuro? Sim, na verdade estamos assistindo a um campeonato de duplas, no qual o principal objetivo de um piloto é superar seu colega. Vivendo com o inimigo ou Inimigo íntimo, escolha o nome do filme. Mas, como numa gangorra, quem se espera que esteja firme em cima pode estar em baixo. E vice-versa.
Hamilton e Button.
Embora não acompanhe futebol, não tenho como deixar de me informar a respeito, ainda mais que esse esporte sufoca qualquer outro nos meios de comunicação brasileiros.
Então me parece realmente correta a comparação de Hamilton com Robinho. Ao menos neste ano, Lewis tem se mostrado um malabarista, responsável direto pelos melhores momentos da F1 até agora, alegria da torcida, junto com a meteorologia. Mas suas manobras nem sempre foram bonitas ou elogiáveis, demonstrou uma agressividade que lança sombra sobre a esportividade, uma qualidade tão apreciada pelos ingleses. Alguém se lembrou de Stirling Moss testemunhando a favor de seu principal rival e assim eliminando suas próprias chances de ser campeão? A true sportsman, very british, they would say... (Ver coluna do Edu, Histórias de Pilotos III).
Creio que a grande maioria dos observadores da F1 apostavam suas fichas em Lewis no começo do ano. Além de ser prata da casa, já tinha perdido um campeonato praticamente ganho e ganho outro praticamente perdido. Talento, experiência, perfeita adaptação à equipe, tudo indicava que iria deixar o recém-chegado Jenson com uma visão privilegiada de seu aerofólio traseiro durante todo o ano.
Pois não é que o menosprezado Button, dado como morto para a categoria antes de 2009, e como mero sortudo em 2010, está na frente? JB é um exemplo bem evidente do quanto é fácil errar no julgamento dos pilotos que chegam à F1, principalmente dos que chegam com bom e sólido retrospecto. Está mais do que claro que, no momento, ninguém o supera na combinação sensibilidade (para a aderência do carro) + suavidade (na pilotagem).
Falamos de retrospecto? Que tal Nico e Michael? Alguém esperava do filho do Keke resultados tão consistentes? Alguém achava que ele era mais que uma estrelinha fugaz, que brilhava somente nas sextas? Muito fácil errar no julgamento dos pilotos...
A respeito de Michael, não me parece que o problema esteja na idade e na ferrugem. Ele definitivamente não gosta de carros como o atual. Alguém se lembrou de Rubens Barrichello na Ferrari, surpreendendo, chegando a fazer barba-cabelo-e-bigode em cima do multi-campeão no auge de sua carreira? O carro era do jeito que o Rubens gosta. Para dar a medida de sua importância para a equipe all-german, Michael vai ganhar um carro inteiramente novo, sob medida, para a Espanha. Mudaram a distância entre-eixos, mudaram a distribuição de pesos. Se não funcionar...
Falamos de agressividade? Alonso e Massa.
Acho que até o mais empedernido fã do brasileiro ferrarista sentiu um nó na garganta naquela dividida na entrada do boxe. Não por causa das explicações politicamente corretas depois, mas porque sua pilotagem até aqui lembrou pouco a daquele vice-campeão de 2008. Será que a ausência do anjo Michael está sendo mais sentida do que se imaginava? Será que Felipe não gosta de sair de casa em dias chuvosos?
Todo mundo sabe como é Don Fernando I, portanto deixar-se dominar ou intimidar por ele a esta altura do campeonato pode ser fatal. Não é à toa que se fala de Robert Kubica, no mínimo é para pressionar o Felipe a reagir, truque tão antigo quanto o início da carreira do Comendatore Enzo.
Se ele estava sendo conservador com medo de quebrar a usina, agora pode ser mais atirado, a FIA deixou a rossa corrigir o problema de durabilidade do motor, aparentemente um vazamento nas válvulas pneumáticas.
Boa parte da imprensa ficou impressionada com a declaração de Don Fernando I de que fez uma corrida inteira sem embreagem, e mesmo assim andou bem perto do Felipe. “A melhor corrida da minha carreira, sinto-me mais forte depois deste resultado”.
Talvez eu tenha faltado a alguma aula, mas me parece que as embreagens atuais não impediriam ninguém de chegar ao fim do GP de Mônaco se quebrassem logo no começo.
Didi e Dedé.
Evidente que Sebastian Didi é um talento excepcional e que o esforçado Mark Dedé não vai voar acima dessa altitude mesmo que tome um porre do produto que o patrocina.
O curioso é como os administradores do melhor carro da categoria (imagine se tivesse motor Mercedes) não conseguiram resultados compatíveis com essa superioridade. Mas Didi deve continuar sendo o favorito a campeão deste ano.
Polonês e Russo.
Robertão já tratou de baixar a bola do time, dizendo que não são páreo pra turma de cima. Pode ser, mas também pode ser que esteja querendo se valorizar. O momento é ideal e esse papo tem endereço certo, uma certa via em Maranello, Itália.
Claro que Petrov está na parte de baixo desta gangorra, mas não muito baixo. Ou um cara que estréia com pouco treino e não se intimida diante de um Michael nem de um Lewis não tem mérito?
Se a Renault estivesse tão ruim e esse rapaz fosse tão verde, Hamilton não precisaria apelar pro escandaloso vai-e-vem.
E paro por aqui, pois o resto tem tantos problemas que andar atrás do companheiro de equipe não é necessariamente um sinal de deficiência. Ou alguém acha que já dá para avaliar a dupla Brasileiro & Indiano?
Abraços
Carlos Chiesa
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