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O que passa pela cabeça dos derrotados? 02.12.09


Trulli seguido por Kubica na Espanha 2009 - Clique para ampliar
Fazia frio em Munique.

Uma garoa fina piorava a sensação depressiva, com aquele chove-não-molha que só serve para emporcalhar o para-brisa do carro do executivo. Ao se aproximar do portão de entrada, ele percebeu que o segurança já não sorria para ele como das outras vezes.

Ele já tinha visto sorrisos encorajadores, conforme as metas anuais de seu departamento iam sendo atingidas. Sorrisos francamente de triunfo, como após a dobradinha nos dois lugares mais altos do pódio no GP do Canadá. Sorrisos esperançosos, confiantes, no início deste schaiße ano de 2009.

Afinal, pensou ele, estávamos mais adiantados do que todos os outros no desenvolvimento do kers. Quem podia imaginar que essa brecha insuspeita no regulamento iria dar uma vantagem praticamente inalcançável a quem apostou no difusor duplo? E quem poderia imaginar que Mr. Mosley iria recuar e permitir que o kers se tornasse opcional?

Era tarde demais para rever o projeto que, aliás, precisaria ser revisto do zero. Não, não havia mais tempo nem dinheiro para fazer isso. E agora, a imagem tantas vezes reafirmada de eficiência e competência da marca estava irremediavelmente comprometida.

Ainda ecoava em sua cabeça a desculpa dada pelo Grande Chefe para justificar a saída da Fórmula 1.

Bem, o próprio kers já era um dispositivo que se poderia chamar de ecológico, qual o conflito? E a marca vinha sendo a que mais transferia experimentos tecnológicos de corrida para seus produtos de rua.

Claro que era uma desculpa, mas no fim das contas, ele seria visto como o culpado. Ele teria que ser sacrificado pelo fracasso, depois de um tempo e longe dos olhos do público. Talvez não.

Heidfeld com BMW em Interlagos 2009 - Clique para ampliar
Agora estava diante de sua vaga no estacionamento. Curioso, havia um outro carro ocupando seu lugar. Vagarosamente, mas com um aperto no peito, o executivo começou a abrir a porta do carro, ali mesmo onde estava. Um mau pressentimento tomava conta de sua mente.

Virou-se para trás e compreendeu tudo.

Todos os seus colegas de diretoria estavam perfilados no pátio. Ouviu seu nome ser pronunciado, seguido da ordem de se aproximar da fila.

Teve a sensação de ter sido anestesiado. Em um estado que beirava o torpor, começou a andar. Como se estivesse em câmera lenta, viu o Grande Chefe se aproximar e parar diante dele. Aqueles grandes olhos azuis agora pareciam feitos aço, aquele, de primeira qualidade, usado em espadas. Eles entravam dentro dos seus como se fossem mesmo lâminas afiadas.

Sem que alguém dissesse uma palavra, seu crachá foi solenemente removido.

Uma mão espalmada esperou pelas chaves do carro. E, finalmente, essa mesma mão removeu o pin da lapela do paletó, com logotipo da empresa. Aquele pin que ele usara tantas vezes, por tantos anos, com tanto orgulho. Pelo mundo todo.

Um trovão prenunciou que a garoa iria se transformar em tempestade.





Trulli e Glock em Mônaco 2009 - Clique para ampliar
Enquanto isso, em alguma cidade do Japão, um executivo nipônico medita.

Sozinho, em uma sala de sua casa, tenta encontrar as razões para o fracasso.

Como o mundo todo sabe, não foi falta de dinheiro. A obsessão pela perfeição tinha feito com que a companhia se tornasse a primeira na Fórmula 1 a competir um ano inteiro consigo própria.

Sim, tinham projetado e construído o carro, montado a equipe, contratado piloto e corrido em todos os circuitos sem ninguém para ver, a não ser o pessoal da empresa. Mais cuidadoso que isso...

Mesmo assim, ninguém esperava grandes resultados no primeiro ano. Quem acompanha minimamente a Fórmula 1 sabe que não dá para fazer sombra para a Ferrari, a mais antiga na categoria, logo de cara. É como acontece com os pilotos. Fazer um tempo razoável logo de cara não é tão difícil, mas diminuir esse tempo até chegar a disputar a pole pode levar uma eternidade e muitos nunca conseguem.

Mas a experiência, componente que só se adquire com o tempo, não se encaixou no projeto como imaginava. Os carros foram se sucedendo e nada de vitórias. Trocaram pilotos. Trocaram chefe de equipe. Gente boa, competente, talvez o problema não estivesse neles. Ou em todos eles.

Nunca deixaram de aplicar a filosofia kaizen. A filosofia do aprimoramento continuo do processo, que tinha levado a indústria a se tornar a número 1 do mundo, fora orgulhosa e fielmente seguida.

Kubica na Espanha 2009
Repentinamente, o executivo ele se lembra de um documentário que tinha visto sobre a 2a. Guerra. Um piloto de caça americano com poucas horas de treinamento se atrasa na decolagem e parte depois de sua esquadrilha.

Vasculhando os céus para descobrir seus companheiros, ele se depara com uma formação de aviões japoneses. Voam impecavelmente alinhados e vão à sua frente. Logicamente, ainda não se deram conta de sua presença. Ansioso, mas consciente das lições recebidas, ele escolhe o avião inimigo no extremo da formação e, aproveitando o elemento surpresa, lança uma boa rajada de uma distância segura. O japonês cai e ele se afasta rapidamente, esperando a retaliação. Que não vem. Aproxima-se novamente e, surpreso, vê que a formação continua voando do mesmo jeito, como se nada tivesse acontecido.

Nova rajada, novo inimigo abatido. Ele se afasta e pensa, “Agora eles virão para cima de mim”. Nada.

Apruma o avião, aproxima-se, nova rajada, novo inimigo caindo. Ele abateu mais de cinco aviões japoneses, tornando-se imediatamente um ás, em sua primeira missão. E por que os japoneses continuaram voando imperturbavelmente em formação?

Porque eram proibidos, sob pena de corte marcial, de romper formação sem ordem do alto comando, que evidentemente estava em terra, longe dali. Era mais importante a obediência cega às orientações vindas de cima do que tomar uma iniciativa que pudesse evitar o desastre.

Isso o fez lembrar o quanto era importante, naquele tempo, sair-se honrosamente da derrota.

Só havia um modo.

Instintivamente seu olhar se desviou para a espada de seus antepassados, pendurada na parede.

Carlos Chiesa

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