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Desobedecendo as leis da Física 29.07.09


Helmut Marko com BRM na França 72
Começou com Helmut Marko, o bravo e competente piloto austríaco, como foi lembrado durante a transmissão global. Uma pedra levantada por um dos largos pneus traseiros do carro de Emerson Fittipaldi atravessou a viseira de seu Bell Star e o deixou cego de um olho.

Não faço idéia de como calcular o impacto de uma pedra lançada contra um corpo que vem na direção dela a mais de 200 km/h mas sinto um frio na alma. A partir daí, anos 70, as viseiras passaram a ser concebidas para contrariar as leis da Física e resistir a esse tipo de impacto muito mais do que a nossa imaginação pode chegar.

Luciano Burti disse que a viseira do capacete do Massa resistiria a um tiro de revolver. Bem, um cilindro de um quilo, quicando no chão e atingindo essa viseira que vem a mais de 200 km/h, na minha imaginação tem o impacto de um tiro de canhão.





Felipe teve azar ou teve sorte?

Adeus BMW - Clique para ampliar
Se teve azar de estar passando por ali justo naquele momento, talvez tenha tido sorte do acidente não ser fatal. Era Hungaring, ele estava voltando para o pit e não encontrou nenhum outro obstáculo fora a barreira de pneus.

Imagine isto em um circuito de alta, durante a largada.

Felizmente seu estado de saúde vai evoluindo muito bem e tudo indica que não terá sequelas que comprometam o exercício da profissão. Faço aqui meus votos de total recuperação.

Fiquei desconfiado que era mais uma galvanice a historia de que o Felipe era queridissimo no mundo da F1. Que os pilotos estavam se contendo no podio por causa dele. Mas vi declarações de gente como Norbert Haug e o próprio Hamilton, de que seus pensamentos estavam com o paciente mais famoso do hospital militar de Budapest. Montezemolo foi visitá-lo, em voo privado. Declarou que Domenicali, que o acompanhava, iria com ele para a Itália mas voltaria no dia seguinte.

Ao contrário de muita gente especializada em automobilismo, se Felipe se recuperar perfeitamente, creio que continuará mantendo seu lugar na equipe, mesmo que venga el toro español. Acredito piamente que a Ferrari tem consciência que deve isso a ele pelo campeonato perdido do ano passado.

O Ferrari de Massa após o acidente na Hungria
Francamente, com todo respeito ao Alonso, não sei se vale tanto a pena assim tê-lo na equipe. Não sei se ele ainda faz tanta diferença na pista. Se fizesse, a distância entre ele e o novato Hamilton não deveria sido bem maior? Não tanto quando a dele para Piquet Junior, mas maior.

Sim, há fatores obscuros que impedem uma afirmação categórica. A McLaren era pró-Hamilton e a Renault é pró-Alonso. Como medir isso? Por essa pole na Hungria é que não. Truque mais que batido, andar com tanque vazio.

E ele aproveita a pane nos computadores, aquilo que os caixas dos bancos chamam de “o sistema caiu”, para mais um teatrinho: “- Que tempo você fez? Eu fiz vinte e um e cinco”. E foi repetindo pelo grid afora. Lembra há dois anos, quando ele e o Felipe se roçaram, a cena que fez diante das câmeras?

Quando se aposentar poderá ser objeto de interesse - profissional - de seu compatriota Almodovar.





Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.

A largada teve mais batidas e chega-pra-lá do que parecia. Humildemente, discordo dos profissionais da TVG, que acharam que Kimi merecia punição assim como Mark Webber na corrida passada.

Acho que foi bem diferente. O australiano largou na pole, percebeu que poderia perder a posição e, deliberadamente, escancaradamente, foi espremer seu adversário.

Na Hungria, Kimi largava mais atrás e, como todos que o rodeavam, estava tentando encontrar um atalho para a ponta, ainda mais podendo fazer uso do seu kers. Deu duas espremidas, mas para mim foi “coisa de corrida”, não me pareceu deliberado, até porque acho difícil que ele pudesse ter plena percepção de quem estava a seu lado. Exemplo? Barrichello não sabe quem bateu na sua lateral e ele mesmo parece ter batido na traseira de outro carro. Em suma, uma largada nervosa, numa pista que todos sabem valer ouro uma ultrapassagem logo no início, tal a economia com que isso acontece durante a corrida.

Discorda? Lembro que essa pista se tornou famosa fundamentalmente por uma ultrapassagem de Nelson Piquet sobre Ayrton Senna, desobedecendo as leis da física.







Ninguém está morto até passarem o atestado de óbito.

Button - Clique para ampliar
Como disse o próprio Martin Whitmarsh, há menos de uma semana ninguém acreditaria se ele dissesse que a McLaren iria vencer em Budapest. E quem diria, antes da primeira vitória de Mark Webber, que ele se tornaria o principal rival de Jenson? Quem diria que a BMW iria produzir o maior fracasso da temporada? Acho até pior que o da Honda, tanto alarde a montadora bávara fez do seu kers, a tal ponto que cogitou fornecer a todas as equipes. Também não dou por encerrada a carreira do matreiro dirigente Mosley. A poeira abaixou mas os interesses ocultos possivelmente não.

Parece que a BrawnGP está se ressentindo de falta de dinheiro para continuar o desenvolvimento desse feliz projeto no mesmo ritmo dos seus adversários. Aparentemente a tese de aquecimento inadequado de pneus em pistas mais frias, que se comentou ser o seu ponto fraco na corrida passada, não se sustentou com o verão húngaro. Para o bem do campeonato, tomara que consiga se entender com os pneus e voltar às primeiras posições.





Gente grossa é outra coisa.

Briatore
A vivência me levou a confirmar que é sábio evitar julgar as pessoas, quanto mais apressadamente. Por isso não vou levantar um dedo indicador para apontar insuficiência de fundos de Nelsinho Piquet no quesito talento.

Em 92, quando era responsável pela criação das campanhas publicitárias da Ford, tive oportunidade de participar de reuniões no HQ inglês da montadora, em uma adorável cidadezinha perto de Londres. Em uma dessas reuniões estava presente o executivo responsável pelas competições esportivas. Um inglês surpreendentemente jovem para o cargo, e simpático. Jamais esquecerei sua opinião a respeito de Flavio Briatore, à época chefe da equipe Benetton Ford de F1: “- Flavio? Shake hands with him and count your fingers”.

É possível que a punição aplicada à Renault pela FIA, por causa da roda solta, tenha sido mais uma vingança para a atuação de Briatore na Fota. Talvez para azedar sua possível negociação com a Renault pela equipe, bancada sabe-se lá por quem. A lógica desse mundo também desobedece às leis da Física: nem tudo que deveria cair cai, e às vezes sobe.

Carlos Chiesa

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