Então vamos brincar de Indianápolis Jones e examinar a Targa Florio de 1972. Vamos correr a 56a. e penúltima (em sua configuração tradicional) edição dessa legendária corrida, a bordo de uma Ferrari 312PB ou uma Alfa 33TT3.
A Ferrari de Merzario e Munari na Targa Florio 72
Para quem acompanha nossas incursões ao passado, 1972 foi o ano em que a Ferrari se mostrou à prova de erros na categoria esporte-protótipo, a primeira com motores três litros. Para tornar mais cinematográfica a história, você pode usar sua imaginação e escolher personificar um dos dois pilotos que dominaram essa corrida, mais ou menos como nos videogames. Mas só vamos revelar os nomes dos pilotos reais no final.
As Ferrari 312PB tinham motor 12 cilindros flat, gerando no mínimo 450 bhp, e ao longo da temporada foram conduzidas por uma constelação: Jacky Ickx (detentor do maior número de vitórias), Ronnie Peterson, Clay Regazzoni e Mario Andretti, complementados por Tim Schenken, Brian Redman e Arturo Merzario, com uma ou outra substituição.
As Alfa 33TT3 tinham participado da temporada anterior e mostrado confiabilidade como característica principal. O chassis, tubular de aço, parecia excessivamente pesado frente aos da rival de Maranello, e seu motor de oito cilindros entregava cerca de 430 bhp, mas já no limite da capacidade de desenvolvimento.
Por isso, ao chegar o momento de alinhar para a prova siciliana, a Ferrari tinha vencido todas as corridas até então e, com o campeonato praticamente no bolso, decidiu enviar para a ilha um único carro, pilotado por um de seus pilotos oficiais e um azarão, Sandro Munari, excelente piloto de carros de turismo e rali, mas com zero experiência nesse tipo de puro-sangue.
A marca milanesa, ao contrário, tinha se ausentado das últimas corridas, Monza inclusive, para voltar com força total na Targa Florio, colocando quatro carros na linha de partida.
Para quem não tem intimidade com o assunto, a Targa Florio era uma remanescente das corridas de estrada tipo Mille Miglia ou Panamericana, com um percurso de 44,73 milhas entre aldeias incrustadas na montanha, uma espécie de fusão entre competições de circuito fechado com rali, em que era fundamental ter um bom conhecimento do traçado.
Por isso o favorito entre os pilotos Alfa era Nino Vaccarella, filho da terra, vencedor da edição anterior e suficientemente competente para participar da temporada toda.
Os demais pilotos Alfa eram o britânico Vic Elford, o austríaco Helmut Marko, o alemão Rolf Stommelen, os italianos Andrea de Adamich e Nani Galli, mais os holandeses Gijs Van Lennep e Tonie Hezemans. Praticamente todos com passagens pela F1, anterior ou posterior. Um time de primeira.
Se você decidiu ser o piloto da Ferrari, vai largar com grande motivação, por ter feito a pole, marcando 33m59s7. A Alfa mais próxima, de Elford-Van Lennep, marcou 34m06s2. Se você escolheu ser o piloto Alfa que vai protagonizar o duelo final, largará com o pior tempo entre os colegas de equipe, 35m44 cravados. Não se espante com tanta diferença: na época, os milésimos de segundo não contavam como hoje na F1.
Dada a largada, a Alfa de Vic Elford-Van Lennep sai da pista antes de completar a primeira volta. Um (forte) concorrente a menos.
Na terceira volta, o carro de Vaccarella-Stommelen (este o piloto Alfa de maior destaque na temporada, até então) tem problemas nas molas das válvulas e abandona. Dois a menos.
Faz muito calor nesse dia 21 de maio e De Adamich corre sofrendo de insolação, o que o deixa distante da briga pelo primeiro lugar. É assim que a corrida se transforma em um extraordinário duelo, não só entre as duas marcas mas entre dois pilotos que deram tudo, mas tudo mesmo de si, produzindo milagre atrás de milagre.
A Alfa de Vaccarella e Elford na Targa Florio 72
Se você optou por ser o piloto Ferrari, é bom saber que você é italiano e tem constituição frágil. E que vai guiar por sete das onze voltas, o que representa um esforço físico gigantesco. Você estará na liderança, mas ela vai encolher como um balão de gás que acabou de ser furado.
Se você optou por ser o piloto Alfa, fique sabendo que não é italiano nem conhece o circuito. Por incrível que pareça, é a primeira vez que anda nele! Qualquer que tenha sido sua escolha, você será ator principal em uma apresentação épica.
Com a Ferrari, após três voltas você abriu uma confortável vantagem de quase dois minutos sobre o rei da Madonia (o nome da região), Nino Vaccarella. Excelente. Como piloto Alfa, você vai substituir seu colega Nani Galli, que acaba de cumprir duas voltas sem problemas. Sandro Munari acaba de assumir o volante da 312PB e, naturalmente, vai com cuidado nessa primeira volta, sabendo que é a única Ferrari na pista e sua primeira chance com a marca na categoria. O resultado é que, vindo do quinto lugar, você encosta em Munari no fim da quarta volta e o ultrapassa!
A Alfa assume a liderança pela primeira vez e você foi o responsável! Convém lembrar que na Targa, como nos ralis, os carros largam em intervalos, no caso de 15 segundos. Claro que Munari não vai deixar barato e, com os brios na ponta dos dedos, aumenta o ritmo e encara a temporada de caça. Assim empolgados ambos se aproximam da metade do circuito, Bivio Polizzi, onde as duas equipes montaram postos de assistência e sinalização (não, ninguém usava rádio na época).
Um curioso incidente ocorre. Munari estava na sua segunda volta e você na sua terceira. Sua equipe sinaliza “Box”, indicando que você deve entrar para reabastecer e ceder o volante para Nani Galli. No entanto, naquele ritmo puxado, Munari entende que essa mensagem era do seu time e entra nos boxes uma volta antes do previsto! É por essa razão que você, como piloto oficial Ferrari, vai guiar por sete voltas!
Mas tudo bem, nesse momento você está em plena forma e vai dominar Galli com facilidade.
Você retoma a liderança e, três voltas depois, devolve o carro a Munari com 43 segundos de folga. E aí, na oitava volta, outro incidente decisivo tem lugar.
Tendo rodado e experimentado dificuldades para religar o motor (versão oficial) ou ficado sem combustível e efetuado um reabastecimento “informal” (versão não-oficial), Galli perde cerca de dois minutos. Parecia que tudo estava perdido, mas você vai assumir o volante e, definitivamente, esse é o seu dia.
Voltamos ao piloto italiano oficial da Ferrari. Quando ele volta à pista pela quarta vez, faltando apenas duas voltas, tem 2m21 de margem sobre a Alfa. Mas ele está não apenas exausto mas doente, e perdeu completamente o ritmo.
Na Alfa, você vem embalado e literalmente furioso, depois de tudo que aconteceu.
Caramba! Você ralou para por a Alfa na liderança, a primeira vitória na temporada parecia ao alcance e agora está essa eternidade atrás da Ferrari! Mas a T33 parece ter compreendido que também era sua chance de bater a rival e obedece irrepreensivelmente a todos os seus comandos, a velha confiabilidade apareceu e, incrível, parece que você não fez outra coisa na vida que percorrer esse circuito, de tanto que está se sentindo à vontade. Freadas no ponto exato, tangências impecáveis e lá está o V8 entregando tudo que é capaz nas retomadas.
Você vai devorando a distância e, no final da penúltima volta, está a míseros 39 segundos da Ferrari. Nesse ritmo, a coisa vai pegar na última volta, porque você já conseguiu o feito de ultrapassar a si mesmo, marcando a melhor volta da prova, 33m44 cravados. Mais de 15 segundos abaixo da pole, tendo largado na casa dos 35 minutos alto!
A Alfa de de Adamich e Hezemans na Targa Florio 72
Voltemos para a Ferrari. Claro que você foi avisado da ameaça, aparentemente irresistível. Você está prestes a ser superado por um estrangeiro, um cara que nunca tinha corrido a Targa Florio! Esta é uma grande, enorme chance de brilhar pela Scuderia. Jacky, Ronnie, Mario e Clay não estão aqui para ofuscá-lo diante de seus compatriotas, você fez o que tinha que fazer, dominou a corrida desde o início e agora está a ponto de perder tudo. Você não tem mais forças, dirige sacudido por vômitos e sente confusão mental. Onde era mesmo o ponto de freada da próxima curva?
Mas se decide a fazer um esforço sobre-humano e resistir. Embora lento, seu ritmo melhora e agora seu oponente tem que brigar por cada segundo, coisa que antes era moleza. 30 segundo… 20 segundos… 10 segundos e aparece a aldeia de Campo Felice, seguida por uma curta descida e a longa reta de quatro milhas e meia de Bonfornello, onde os carros mais rápidos faziam quase 300 km/h. Você cerra os dentes. É preciso aguentar.
Nos boxes, todos se levantam instintivamente, aguardando o ronco que anunciaria o vencedor, os olhos fixos no ponto mais distante da pista. A Ferrari cruza a linha de chegada em primeiro, mas é preciso esperar a Alfa passar para saber se tinha conseguido tirar a diferença.
Ela aparece e dúzias de cronômetros são acionados ao mesmo tempo.
Finalmente, uma explosão de alegria no box da Ferrari. Por exatos 16,9 segundos a 312 bateu novamente a oponente milanesa.
Não só foi a melhor corrida da temporada mas uma das melhores edições da tradicionalíssima Targa Florio, e a mais veloz de todos os tempos.
Se você escolheu ser o piloto italiano, seu nome é Arturo Merzario. Se escolheu ser o piloto Alfa, o nome é Helmut Marko.
Agora a pergunta: se você tivesse feito uma façanha comparada ao que eles fizeram em sua profissão, não estaria se sentindo, com justa razão, um tremendo herói? Não se sentiria digno do reconhecimento incondicional, com salva de palmas no auditório e discurso do presidente da firma?
No entanto, alguém acima da sua geração, aqui no Brasil, alguma vez falou de Arturo Merzario e Helmut Marko para você?
Talvez os dois não tenham tido sorte ou simplesmente suas qualidades não tenham sido suficientes para uma carreira mais brilhante na F1, mas o feito de Merzario é comparável, para dizer o mínimo, à famosa vitória sem marchas de Ayrton Senna em Interlagos. Para se ter uma idéia, seu companheiro Munari tinha as mãos esfoladas ao fim da prova, mesmo tendo guiado menos voltas.
E o que dizer de Marko, um austriacozinho contra tudo isso que está aí, lutando contra a sombra de Rindt, o idioma dominante na equipe, a inferioridade de equipamento e o desconhecimento da pista?
Imagine esta corrida versus a imensa quantidade de corridas tão excitantes quanto comida de hospital que tivemos na última década na Formula 1.
Meu ponto é: precisamos respeitar mais os pilotos de qualidade que não chegaram a campeões do mundo, do qual Moss, Peterson e Gilles são os maiores expoentes. Inúmeras vezes são eles que proporcionam os melhores espetáculos. Ou você sente muita falta de, por exemplo, Alan Jones?
Precisamos parar de achar que só um campeão mundial é bom e todos os demais automaticamente braço-duro. Mesmo em um esporte inteiramente cronometrado como o automobilismo, nem sempre os valores absolutos se impõem aos relativos.