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Chato pra caramba! 28.09.07


Conversei com o Gigante sobre os GPs da Turquia e da Itália. Aí vai resumo da nossa conversa:






Chiesa: Vamos começar falando sobre o GP da Turquia. Graham Hill foi o Mister Mônaco, por se tornar o primeiro piloto a vencer várias vezes lá, cinco no total). Massa já pode ser considerado candidato a Paxá?

Hamilton, o mais rápido na sexta feira, em Fuji
Gigante: Tá longe ainda, mas tá no caminho, andou 40% do trajeto.

Chiesa: Massa andou o tempo todo um pouquinho mais pesado que o Kimi. Isso quer dizer que ele era mesmo um pouco mais competente que o Kimi, ao menos nesse circuito?

Gigante: Não, acho que os dois fizeram um trabalho muito parecido. As corridas estão, de modo geral, muito parelhas, não acontece nada mais de relevante, como o próprio Kimi disse, em entrevistas. Ele se deu ao trabalho de fazer a volta mais rápida apenas para romper o tédio. Achei que o Alonso tivesse armado algum outro plano, em função do treino de sábado, mas ele não fez nada de novo. As corridas estão realmente chatas, monótonas.

Alonso, o 2o mais rápido
Chiesa: Afinal, são três ou quatro pernas na curva 7?

Gigante: São 4 pernas. Realmente é uma curva que não é bem uma curva - mas é curva. Tem que estar no lugar certo; se não estiver, dança. É como a na Tamburello, em Imola.

Chiesa: O que você acha que aconteceu na largada, para o Alonso perder duas posições? Salvo engano, ele estava com pneus duros. Isso influencia ou não?

Gigante: Acho que o problema é largar no lado sujo. Tanto o Alonso quanto o Hamilton perderam posições e o Kubica, que estava em quinto, no lado limpo e leve, se deu bem. Tá claro que o Kubica ainda não está no nível do Heidefeld, que vive seu melhor ano. O Heidefeld estava mais pesado e andou perto do Kubica no início da corrida.

Chiesa: Por falar nisso, a Ferrari conseguiu essa vantagem muito por ter escolhido pneus mais moles. E como se explica o problema com o pneu do Hamilton?

Kimi, o 3o
Gigante: Não acho que a diferença a favor da Ferrari foram os pneus moles; foi realmente o equilíbrio do carro. A McLaren não conseguiu o ajuste correto do carro pra corrida inteira, só andaram rápido algumas voltas em cada stint. Quanto ao pneu do Hamilton, acho que é coisa de corrida. Esse circuito vira no sentido anti-horário, é diferente da maioria dos circuitos, o que também pode influir. O pneu furado foi o direito, o mais solicitado. Para saber ao certo teria que examinar o pneu dianteiro do lado oposto. Basta uma freada inesperada, uma forçadinha a mais numa zebra e pronto, depois de umas voltas o assuntinho vira um assuntão...

Chiesa: E a história do Button estar andando dois segundos mais rápido que o Rubens? O Button passou um monte de carros e chegou quatro posições à frente. "Não me faça rir", disse Rubinho. O que aconteceu para dar essa diferença toda?

Gigante: Não vi o volta a volta, portanto não posso dizer, mas acho improvável uma diferença de dois segundos em condições normais. Nesse ritmo o Rubinho tomaria mais voltas dos ponteiros e até mesmo uma do Button e não foi isso que aconteceu.

Chiesa: Parece que você acertou quando disse que o Ron Dennis sabe o quanto o Alonso faz a diferença. O asturiano se queixou de que a McLaren não o está recompensando por ter proporcionado cinco ou seis décimos a menos para a equipe.

Trulli, o 5o
Gigante: É isso mesmo. Acho que o Ron deixou isso claro na Alemanha, quando foi ao pódio com Alonso, como quem diz "você vale o que estou te pagando". Agora, que existe um tanto de guerra psicológica nisso tudo, não tem dúvida. Todo mundo faz, mas se é verdade tudo que o Alonso está falando ele falou mesmo, acho que está exagerando. Ele é um candidato a Michael Schumacher, ainda não é.

Chiesa: Me explica a história da asa dianteira da McLaren. Você acha que o segredo dela está aí?

Gigante: Sim, desconfio que é um dos componentes da receita de sucesso dela. Mas é puro achismo. Lembra que tanto Ferrari quanto Renault e nem sei quem mais tentaram asas dianteiras com algum tipo de movimento? Por que elas vêm trabalhando nisso? Porque a asa precisa gerar uma pressão aerodinâmica determinada, que se traduz em carga, em peso, digamos uma tonelada, só pra dar um número. Lembro que essa carga é muito maior na traseira, que concentra muito mais área. Então os engenheiros têm que combinar pressão e distribuição de peso para dar equilíbrio ao carro, compensando as diferenças de peso aplicado pelo apêndice aerodinâmico. Acontece que, dependendo da velocidade em que o carro está, o balanço varia, por isso varia a carga em cima da partes dianteira e traseira do carro, criando aí um desequilíbrio.

Button, apenas o 14o
Vou tentar explicar melhor: você tem, digamos, cinco graus de inclinação na asa dianteira, que gera uma pressão x, tudo encaixado no equilíbrio do carro, estaticamente. Como sabe, pelo regulamento, as asas têm que ter regulagens fixas. Se, conforme a velocidade, essa asa, mecanicamente, devido ao desenho e à capacidade de torção do material diminuir essa inclinação para um grau, irá praticamente zerar a carga aerodinâmica, tirando peso de cima. Se a McLaren conseguiu isso, é daí que vem a vantagem que desfruta em boa parte dos circuitos desta temporada. Mas, como eu disse, é puro achismo.





Chiesa: Falando agora sobre Monza. A fragilidade da Ferrari foi a grande responsável pela derrota em Monza ou a McLaren é que conseguiu melhorar muito em uma semana?

Gigante: Sem dúvida foi a McLaren que melhorou. Eles tomaram um vareio na Turquia e tinham que reagir. Todo mundo acha que Monza é um circuito de alta mas não é bem assim, tem um monte de chicane, que acabam reduzindo consideravelmente a velocidade, o que faz com que um chassis que tem um contorno melhor nas médias acabe levando vantagem, desde que consigam uma regulagem que não perca tempo nas de alta, ou perca o mínimo possível. Não precisa ganhar nas de alta, basta apenas não perder. Seguramente a evolucao da McLaren foi na aerodinâmica. Já a Ferrari vai melhor nas de alta, como ficou provado na Turquia e em Spa.

Rosário, mulher de Alonso
Chiesa: A Ferrari recolheu o Massa por medo de outro acidente como o do Raïkonnen? Em outra época o Comendador mandaria o piloto de volta para a pista mesmo assim?

Gigante: O carro não fazia mais curva, não tinha como guiar. Aliás, deve-se louvar a corrida do Raikkonen, que correu depois de um pancão, e sabendo que o problema poderia ocorrer de novo. No caso de Massa, o terceiro amortecedor travou, segundo disseram. Devem ter detectado isso no próprio sábado e, já sabendo que não iam conseguir fazer a pole, partiram para um plano B. Quando o Massa, na corrida, veio pro box com o mesmo problema, trocaram pneu e mandaram de volta pra pista, coisa que não entendo. Óbvio que já sabiam o que tinha acontecido. Gozado! Os engenheiros já sabem pela telemetria o que está ocorrendo. Trazer o carro pro box e colocar pneus me parece uma atitude inútil pois lá na Lesmo, Parabólica etc. a coisa pode complicar e o piloto ir parar no meio do público. Acho até irresponsável fazer isso. Que adianta os engenheiros terem toda essa informação e mesmo assim mandar o cara de volta pra pista, correndo um risco inútil. Na época do Comendador não havia essa tecnologia, então fazia sentido mandar o piloto de volta, para checar se o problema estava resolvido. Às vezes também não conseguiam identificar um problema grave, achavam que o problema era o piloto e mandavam o coitado de volta sem ter idéia do risco que se ia correr. Hoje se sabe tudo, absolutamente tudo do carro. Veja o comentário do Rubens, que "os números da aerodinâmica não batiam". O mesmo setup nos dois carros funcionava diferente no carro de um e de outro.

Chiesa: Que tal a ultrapassagem do Hamilton sobre o Massa? Como ele conseguiu frear tão tarde sem ultrapassar a chicane?

Sutil
Gigante: Coisa de corrida. O Massa ficou encaixotado atrás do Alonso e o Hamilton se aproveitou. Possivelmente, ele deu um toquinho no acelerador, saiu de frente, o que é normal nesse tipo de curva, e acabou tocando no Hamilton. É nesse tipo de curva que os carros que contornam melhor levam vantagem. O carro "nervoso", como o McLaren faz essa curva mais rápido que o carro "preguiçoso", como o Ferrari. Nas de alta, a McLaren é mais imprevisivel, o piloto vai tomando susto, ao passo que os Ferrari fazem confortavelmente, sem mexer com o eletrocardiograma dos pilotos. Como o que importa é o resultado final, vemos que a McLaren é quem perdeu menos.

Chiesa: Segundo Massa, foi um toque normal. Portanto, o Galvão continua fazendo o papel de torcedor #1 ao invés de narrar as corridas, não?

Gigante: Ele joga pra torcida, sem duvida. Ahahah, ele vive fazendo graça.

Chiesa: E que achou da ultrapassagem do Hamilton sobre o Raïkkonen?

Gigante: O Kimi estava no plano B, correndo pesado o tempo todo. era o último stint do Hamilton, que estava mais ou menos com o mesmo peso do Kimi nesse momento, mas com sapato novo, o que da uma diferença tremenda, porque os pneus do Kimi já estavam bem desgastados pois ele fez uma parada só. Como o McLaren contorna melhor a Parabólica, entra com mais velocidade na reta e vai ganhando mais metros por segundo que o Ferrari, chegando na outra curva com mais velocidade. Portanto o Kimi não poderia fazer muita coisa. Não acho justo crucificarem o finlandês nem endeusarem o inglês. Se fosse o inverso, aconteceria a mesma coisa, não existe mágica.

Heidfeld
Particularmente achei que Kimi iria ser execrado na Itália, mas o fato de estar em más condições físicas devido ao acidente, mais a performance nitidamente inferior do seu carro amenizaram para seu lado junto aos tifosi.

Chiesa: Você acha que essa estratégia de uma parada só funciona? O Rubinho tem tentado, invariavelmente sem resultados.

Gigante: Desenvolvimento é pura matemática. As variáveis são zebra, destino, safety car, se não tiver nenhum fator extra, tende a ser inútil. A similaridade de resultados entre os quatro ponteiros mostra isso. O que der uma bobeada chega no mínimo em quinto, se o carro estiver em condições normais.

Chiesa: Por que o Button novamente chegou na frente do Rubinho?

Gigante: Coisa de corrida, momento de cada um, não significa que um é mais competente que o outro.

Chiesa: E a "spy story"?

Gigante: Sendo um time inglês, é uma historia de James Bond.

Chiesa: No mais, mais uma corrida chata. O q você acha que deveria mudar para voltarmos a ter alguma emoção?

Davidson
Gigante: Pneus slick sem dúvida, limitação significativa de downforce, sistema de freios de carros de rua ou dos Fórmula 1 antigos, bem menos eficientes. Hoje, qualquer cara lento freia nos 30 metros e vira um obstáculo para quem vem atrás. É menos seguro, mas daria mais espetáculo, permitindo espaço para a ultrapassagem, para quem é realmente piloto. Esses três itens ja dariam pra transferir o peso do espetáculo para os pilotos, pondo uma trava no uso excessivo de tecnologia. Aí vai aparecer aquela habilidade de frear depois e manter o carro na direção certa, administrando o menor downforce, freios, um carro seguramente mais instável etc.

Chiesa: Por exemplo, tanto Massa quanto Raikkonen deixaram claro em relação às ultrapassagens que tomaram de Hamilton que "não convinha arriscar". Podem até ter razão, mas como o Ico escreveu aqui no GPTotal, os pilotos são estimulados a fazer a ultrapassagem nos boxes e pronto.

Gigante: Com toda essa tecnologia, as ultrapassagens ocorrem praticamente só quando aparece uma discrepância técnica entre os carros no mesmo momento. Muito difícil ocorrer uma baseada somente na habilidade do piloto, exatamente pelos efeitos do pacote tecnológico. E, de novo, das equações matemáticas. Tá tudo como no simulador: o cara tem que sair milimetricamente na frente do outro, e ai ganha a corrida.

Chato pra caramba!

Abraços

Carlos Chiesa

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