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Aroma bestial II 17.08.07


Acompanhe George Monkhouse na conclusão da sua cobertura do GP da Inglaterra de 1937.

Bom final de semana

Carlos Chiesa






Rosemeyer parou por 31s nos pits da Auto-Union para trocar pneus e reabastecer, o que deixou Caracciola na liderança, seguido por Brauchitsch. Manfred, com seu capacete vermelho, estava indo tremendamente rápido, cravando 2s11 na volta 34, na que veio a ser a mais rápida da corrida, e na 36 ele tomou a liderança de Caracciola. A meia distância (40 voltas) Caracciola parou para trocar pneus e reabastecer, e assim Rosemeyer – que agora estava indo com pé embaixo, igualando o recorde de Brauchitsch – reocupou o 2o lugar.



Os ingleses estavam tendo sua corrida particular, liderados por Bira, que estava guiando magnificamente. Charlie Martin e Arthur Dobson pareceram achar fácil manter os dois E.R.A’s sob controle, mas Martin tivera que abandonar na volta 18 com um pistão quebrado, e embora Dobson tenha continuado correndo bem até a 42a. volta, ele perdeu 11 minutos trocando um magneto. Os pit stops dos ingleses eram pateticamente lentos, especialmente porque os carros alemães não apenas colocavam combustível mas também trocavam pneus, seus tempos girando entre 26 e 35 segundos. Do lado inglês, a parada de Lord Howe somente para abastecer levou 65s, a de Arthur Dobson para óleo e água 41s, Bira para combustível 37s e Mays para óleo e combustível 50s. Os mecânicos alemães tinham muito orgulho do seu trabalho e merecidamente ganhavam aplausos após uma parada realmente rápida. O equipamento necessário ficava de prontidão antes dos carros chegarem e todos os mecânicos sabiam exatamente o que deveriam fazer, com invejável precisão; ninguém titubeava ou ficava no caminho do outro. Ambas equipes alemãs usavam um sistema de abastecimento de combustível sob pressão, o que permitia uma vazão de gasolina da ordem de dois galões por segundo.





Um Mercedes voa em Donington 1937
Justo após a metade da corrida, a ordem dos 4 primeiros carros era Brauchitsch, Rosemeyer, Caracciola e Muller. Brauchitsch tinha 24s de vantagem sobre Rosemeyer, produzindo algumas das mais excitantes disputas que eu jamais tinha visto. Rosemeyer agora estava fazendo uma tentativa desesperada de reduzir a liderança de Brauchitsch, e durante as 10 voltas seguintes ambos vinham em longas derrapagens controladas de Redgate até Coppice. Por diversas vezes, quando eu estava na curva para a direita perto do velho Paddock, Brauchitsch veio tão depressa que teve que passar pela grama, seguido pela Auto-Union de Rosemeyer com sua traseira deslizando diagonalmente em relação à pista. Os espectadores adoraram isso, especialmente quando ficavam cobertos de grama e terra, quando Brauchitsch acelerava de volta em direção à Ponte Stone.

Rosemeyer tentou tudo que podia mas sem resultado, e Brauchitsch continuava 26s à frente quando veio para os boxes, na volta 52, para pneus. Na saída, Rosemeyer tinha uma vantagem de 11s. Ele agora tentava aumentar essa diferença porque também teria que parar uma segunda vez para pneus e assim, na volta 60 ele estava 20s à frente de Brauchitsch. Houve uma grande excitação nos pits quando os mecânicos da Auto-Union trouxeram para fora os macacos e pneus e também sinalizaram para ele entrar na volta seguinte, quando Brauchitsch apareceu na saída da Reta Starkey com um pneu despedaçado, e pareceu, por um momento, que o carro sairia da pista. Manfred, no entanto, conseguiu manter segurar o carro e trazê-lo aos pits.

Von Brautsitsch
Rosemeyer estava obviamente procurando pela Mercedes quando acelerou da saída da curva Melbourne para os pits na volta seguinte para trocar pneus mas o júbilo no box da Auto-Union sem dúvida explicava a situação e ele voltou à pista sem perder a liderança para Brauchitsch, que agora estava 31s atrás e não representava mais perigo. O estrago no pneu de Brauchitsch foi possivelmente causado pelo choque com a guia, durante as 20 frenéticas voltas anteriores. Brauchitsch tinha feito a mais ousada das corridas, não apenas brindando a multidão com inúmeras emoções mas também dando a Rosemeyer muito o que pensar. Com apenas 18 voltas para terminar Rosemeyer estava agora muito à frente e a menos que alguma coisa muito inesperada acontecesse, estava com a vitória garantida.

Sem dúvida tinha sido uma extrema má sorte para Brauchitsch que, se não fosse pelo problema do pneu, deveria ter uma vantagem de 20s quando Rosemeyer saísse dos pits. Por outro lado, nenhum outro piloto poderia guiar como ele tinha guiado nas últimas vinte voltas, com o carro se contorcendo e deslizando por toda a pista – e algumas vezes fora dela – com um rastro de fumaça saindo dos pneus quando ele acelerava.

Muller
A mim pareceu que o elemento decisivo do assunto seria Caracciola, que após seu pit stop da metade da corrida estava a 12s de Brauchitsch. Por alguma razão, ao invés de se manter próximo o suficiente para atacar, Caracciola começou a perder terreno, em torno de 2s por volta, de modo que na volta 60, que veio a ser o período crucial da corrida, ele estava mais de um minuto atrás. Na verdade, demasiado atrás para representar uma ameaça a Rosemeyer. Havia diversas explicações possíveis para a atitude de Rudi: possivelmente ele não estava se sentindo muito bem, ou o carro não estava funcionando adequadamente, mas o mais provável era que ele estava achando o ritmo forte demais e apostava na possibilidade de tanto Rosemeyer quanto Brauchitsch terem algum problema ou terem que parar novamente para trocar pneus ou mesmo bater, casos em que ele herdaria a liderança. Acima de tudo, Caracciola não tem nada de tolo e nove sobre dez vezes ele julga melhor a situação que qualquer outro, mas nesse momento alguma coisa tinha saído errado. Se tivesse mantido a diferença de 12s para Brauchitsch após a 61a. volta, quando o pneu deste explodiu, não haveria nenhuma razão para que não conseguisse assumir o 2o lugar, 32s atrás de Rosemeyer nessa volta crítica. Isto poderia ter significado para Caracciola uma vantagem de 5s sobre Rosemeyer após o último pit stop do piloto da Auto-Union e então teríamos visto o mestre mostrando para nós como andar realmente rápido sem nenhum fogo de artifício.





O Auto Union também voou
O resto da história não leva muito para contar, uma vez que Rosemeyer permaneceu inalcançável. Mays teve que abandonar e assim Lord Howe ganhou o 7o lugar atrás de Bira, mas seus esforços não chamaram muita atenção. Maclure no seu Riley tinha feito uma performance homérica apenas para ter que abandonar na volta 67, permitindo que Arthur Dobson e Robin Hanson terminassem em 8o e 9o lugares. Muller, da Auto-Union, à parte o incidente com Seaman, tinha feito uma ótima corrida e sem dúvida mostrava ser uma grande promessa. Hasse tinha ido consistentemente, mas alguma coisa parecia estar radicalmente errada com a suspensão traseira do seu Auto-Union, que estava fazendo uma imitação muito boa de uma animada borboleta nos últimos estágios da corrida.

Rosemeyer recebeu uma grande ovação quando a bandeira quadriculada foi baixada, da mesma forma que Brauchitsch, e ambos realmente mereceram após essa maravilhosa briga que durou da largada à chegada. Por algum erro infeliz não foi tocado o hino nacional alemão, o que não apenas foi muito descortês como manchou uma até aquele momento impecável organização.

Rosemeyer tinha pilotado uma corrida muito bem julgada e exercitado um grande poder de controle, inclusive durante o período mais crítico da corrida. É preciso lembrar que o Grand Prix de Donington tinha algo a ver com o número de sorte de Rosemeyer – era sua 13a. corrida em 1937. O único problema que teve foi com seu macacão, cujos fundilhos tiveram que receber um remendo antes que ele fosse fotografado.

A ordem final foi:

1. Rosemeyer (Auto-Union) – média de 133 kmh
2. Von Brauchitsch (Mercedes) – 38s atrás
3. Caracciola (Mercedes)
4. Muller (Auto-Union)
5. Hasse (Auto-Union) Não terminaram dentro do tempo-limite de 15m após o vencedor ter cruzado a linha de chegada: Bira (Maserati), Howe (E.R.A.), Dobson (E.R.A.) e Hanson (Maserati).

Deve ter sido de cortar o coração após uma corrida tão formidável os pilotos ingleses serem oficialmente declarados como não-classificados, uma vez que nenhum deles tinha completado as oitenta voltas dentro do limite. Bira perdeu esse direito por menos de 3m e embora tenha sido oficialmente desclassificado, merecidamente recebeu o prêmio de 100 libras como o primeiro detentor da licença do Royal Automobile Club a cruzar a linha.

Caracciola com o Mercedes W125
Agora vem a louca corrida dos entusiasmados mecânicos da Auto-Union para recolher os frutos de suas apostas com os bookmakers “but when they got there the cupboard was bare”, algo como “mas quando eles chegaram lá o armário estava vazio”, porque, com exceção de dois deles, os bookmakers tinham desaparecido e uma multidão enraivecida estava rasgando suas tendas, malas e outros equipamentos e pisando em cima deles com uma frenética excitação. Um dos bookmakers tinha deixado seu livro para trás, mostrando apostas em Rosemeyer que ascendiam a 3.000 libras. Esse padrão de comportamento dos bookmakers foram definitivamente um vexame, e não reflete muito bem a vigilância da polícia. Felizmente, o gosto ruim deixado por esse incidente foi amplamente apagado pela generosidade do Derby Club, que pagou tudo que era devido aos mecânicos da Auto-Union. A história não conta se Neubauer ou algum mecânico da Mercedes tinha feito uma aposta clandestina em Rosemeyer!

Essa foi a última corrida da fórmula de 1934-1937, que produziu as melhores e mais velozes corridas que o mundo jamais tinha visto.

A morte de Rosemeyer.

Enquanto lia as provas deste livro eu escutei a terrível notícia da trágica morte de Bernd Rosemeyer, que roubou ao mundo um de seus maiores pilotos. Ele morreu em 28 de janeiro de 1938, quando tentava recuperar o recorde que tinha sido tirado dele mais cedo naquele dia por Rudolf Caracciola. Guiando o Mercedes carenado, Caracciola fez dois percusos na Autobahn Frankfurt-Darmstadt, cobrindo a milha na colossal velocidade média de 268.3 mph, batendo lindamente o recorde de Rosemeyer em Auto-Union de 253 mph, obtido em outubro passado. Não obstante um vento inconstante, em rajadas, Rosemeyer pegou seu Auto-Union e fez vários testes. Na verdadeira tentativa de recorde, todavia, o carro já tendo coberto o quilômetro voador e falhando em bater o recorde de Caracciola por escassa margem, quando já desacelerava, uma rajada de vento atingiu a traseira do carro e o fez derrapar de lado. O carro ficou completamente fora de controle, mesmo para Rosemeyer, e capotou diversas vezes de modo terrível. Rosemeyer foi atirado para fora e morreu instantaneamente.

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