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Aroma bestial I 15.08.07


Acompanhe George Monkhouse na cobertura do GP da Inglaterra de 1937, disputado na pista de Donington. Foi o primeiro contato do público inglês com os monstros da Mercedes e Auto-Union: “Os espectadores que nunca tinham ouvido, cheirado ou visto nada parecido antes em suas vidas. Eles foram completamente nocauteados pelo barulho ensurdecedor, o aroma perfeitamente bestial do combustível das Mercedes e da borracha queimada, e o modo como os carros conseguiam se espremer em situações aparentemente impossíveis”, escreve George.

Hoje, ele fala sobre os treinos e as primeiras voltas da corrida. Na sexta-feira, ele conclui sua narrativa.

Boa leitura.

Carlos Chiesa






GRAND PRIX DA INGLATERRA – DONINGTON – 2 DE OUTUBRO DE 1937

Era de conhecimento geral que Fred Craner tinha atraído a equipe Mercedes para o Grand Prix de Donington.

O traçado de Donington
Isto naturalmente seria mais uma demonstração do que uma corrida, tal a distância tecnológica dessa equipe para os demais concorrentes, de modo que foi um grande momento para os entusiastas do automobilismo do Reino Unido quando a Auto-Union oficialmente anunciou que também iria participar da prova. Finalmente na Inglaterra iríamos ter corridas realmente de Grand Prix, com os melhores carros e pilotos do mundo, um espetáculo que não ocorria no país há cerca de 10 anos.

A equipe Mercedes chegou a Dover na semana anterior à corrida. A Mercedes se instalou em Coppice Farm e os Auto-Unions no grande galpão de metal em frente, e ambas equipes pareceram muito satisfeitas com suas acomodações.

O Grand Prix estava previsto para durar mais de 80 voltas no novo circuito de Donington, que tinha sido encompridado em 5,6 km. A extensão consistia em uma continuação da Reta Starkey por mais 400 metros, seguida por um grampo que levava a pista de volta ao velho grampo, antes dos boxes. A principal crítica contra essa extensão era que ela mergulhava muito severamente ladeira abaixo exatamente no ponto em que os carros estavam freando para o grampo, o que não só punha tremenda pressão nos freios como era extremamente perigoso para os pilotos, uma vez que não havia área de escape.





Durante os treinos do primeiro dia, que ocorreram numaa quarta-feira, Rosemeyer fez a volta em 2m14.6, a uma velocidade média de 134 kmh. É interessante comparar esse tempo com o recorde obtido pelo Talbot de Comotti na categoria T.T., de 2m37. Os próximos mais rápidos eram os três pilotos da Mercedes, Brauchitsch, Seaman e Lang, que marcaram tempos entre 2m15 e 2m17, enquanto Muller e Hasse, os outros pilotos da Auto-Union, ficavam em torno de 2m20. Lord Howe foi inglês mais rápido, com 2m26, batendo Mays em um E.R.A. com turbo Zoller por um segundo.

Rosemayer e seu Auto Union em Donington 1937
Caracciola chegou com suas esposa na quinta-feira, tendo viajado de Brno por trem ao invés de avião, como fizeram os demais membros das equipes germânicas. Ele fez a volta em 2m16. Brauchitsch e Rosemeyer estavam ambos indo muito rápido e tiveram êxito em abaixar seus tempos para a casa dos 2m12.

Muitos dos correspondentes dos jornais ingleses que nunca tinham tido oportunidade de ver dos carros alemães ficaram estupefatos com sua tremenda capacidade de aceleração. Alguns repórteres correram risco de vida tentando cruzar a pista na frente dos boxes bem quando um Mercedes ou Auto-Union saindo da curva Melbourne aparecia no topo da colina e logo estava em cima deles, como um raio. O próprio Rosemeyer evitou por um fio de cabelo acertar um engenheiro da BBC.

Tanto Lang quanto Seaman estavam marcando tempos rápidos na casa dos 2m14, que eram uns bons dois segundos mais rápidos que Hasse e Muller.

Ao fazer uma rápida inspeção após o treino, os mecânicos da Mercedes notaram que a solda de um tubo de água de um dos carros estava com um pequeno vazamento. Neubauer imediatamente telegrafou a Stuttgart pedindo para enviarem um especialista em solda. Este cavalheiro chegou de avião no dia seguinte e reparou a solda em aproximadamente três minutos!





Na sexta-feira, Brauchitsch realmente se superou e marcou o espantoso tempo de 2m10, com velocidade média de 138 kmh. Rosemeyer, disposto a não ser batido, fez diversas tentativas mas o melhor que conseguiu foi 2m11. Lord Howe não treinou mas Mays conseguiu igualar seu tempo de 2m26, Bira em um Maseratti sendo cerca de um segundo mais rápido. O resto do contingente inglês foi consideravelmente mais lento e pareceu bem duvidoso que iriam conseguir terminar dentro do limite de 15 minutos após o vencedor cruzar a linha de chegada.

Ao final dos treinos, o carro alemão mais lento era nove segundos mais rápido que o inglês mais rápido, o que não era propriamente uma surpresa, considerando que a maioria dos carros britânicos inscritos consistia em E.R.A’s de 1.500cc e uma Maserati Grand Prix de quatro anos atrás.

Os humoristas de plantão tiveram sua chance durante as sessões de treino. O líder deles, Charles Brackenbury, montou um de seus “whizz-bangs” (feitos por ele mesmo) no motor do carro de passeio de Neubauer, de modo que quando este deu na partida para ir almoçar, ouviu um grande barulho assobiante vindo de baixo do capô, acompanhado por nuvens de fumaça e um terrível estrondo! Neubauer aparentemente achou isso quase tão divertido quanto Caracciola e Rosemeyer, que estavam a par do segredo e observavam o que acontecia. Outra piada em marcha foi alguém colocar uma placa “L”, indicativa de motorista novato, em fase de aprendizado, na frente do Auto-Union de Rosemeyer. Infelizmente este percebeu antes de entrar no carro e removeu a placa.

A corrida estava prevista para começar às 13h o sábado, hora em que cerca de 50 mil pessoas estavam instaladas ao longo do circuito; esta era, de longe, a maior audiência que jamais tinha assistido a um corrida na Inglaterra e iria mostrar que havia um grande número de pessoas com real interesse em corridas de verdade. A maioria não tinha visto nem ouvido um carro de corridas Mercedes ou Auto-Union antes e era fabuloso olhar suas expressões e ouvir seus comentários quando os carros eram guiados pelos mecânicos ao longo da Reta Starkey até os boxes, onde ficavam por alguns minutos com os motores funcionando.

Ali estavam também os usuais bookmakers, que no passado costumavam parecer ter uma vaga idéia de quem poderia vencer a corrida e ofereciam taxas bem atraentes. Nesta ocasião, todavia, todos eles pareciam ter enlouquecido e as apostas, até onde me lembro, eram Caracciola 3:1, Rosemeyer, Lang, Brauchitsch e Mays 5:1. Desnecessário dizer que eles fizeram um negócio fabuloso cotando Rosemeyer 5:1 e entre os que foram atraídos por essas ridículas cotações estavam os mecânicos da equipe Auto-Union, que trataram de defender fortemente seu piloto.





Meia hora antes da largada os carros foram empurrados para suas posições no grid e cobertos com grandes capas. O grid era o seguinte:



Após o sinal de “5 minutos” a multidão obviamente começou a esperar que alguma coisa acontecesse, porque, um após outro, o contingente inglês começou o seu usual “woof-woof” com o acelerador. É costumeiro ligar esse ruído ao rasgar de uma peça de roupa de algodão, mas em comparação com o que viria, o “gentil desfazer de uma peça de tricô” parecia mais correto!

Não foi antes do sinal de “30 segundos” que os quatro Mercedes deram sinal de vida, fazendo um barulho absolutamente chocante, que encobriu tudo o mais, incluindo os Auto-Unions, de modo que os espectadores realmente acordaram! Todos os motores agora estavam funcionando, exceto o da Auto-Union de Rosemeyer, que só foi ligado exatamente dez segundos antes do sinal de “largar”.

Grid de largada em Donington 1937
Ao sinal de “5 segundos” houve um claro aumento na nota desta barragem orquestrada, com as Mercedes girando em 4,5 mil rpm e os Auto-Unions 3,2 mil rpm. Neubauer sinalizou 4, 3, 2, 1 com seus dedos para os pilotos da Mercedes e assim que Ebby baixou a bandeira inglesa, a Mercedes de Lang disparou na liderança. Ele foi seguido de perto por Caracciola, que com sua habitual sabedoria tinha conseguido vir para a frente saindo da segunda fila. Conforme os carros rugiam através do bosque, a ordem era Lang, Caracciola, Brauchitsch, Seaman, Rosemeyer, Muller e Hasse, com o resto já bem atrás.

Nada do que eu disser vai dar uma pálida idéia de como foi a reação dessa impressionante largada na maioria dos espectadores que nunca tinham ouvido, cheirado ou visto nada parecido antes em suas vidas. Eles foram completamente nocauteados pelo barulho ensurdecedor, o aroma perfeitamente bestial do combustível das Mercedes e da borracha queimada, e o modo como os carros conseguiam se espremer em situações aparentemente impossíveis.

Eles mal tinham se recobrado e já Lang apontava no topo da Starkey numa nuvem de poeira branca a 270 kmh, seguido de perto pelas outras Mercedes e Rosemeyer, que tinha obviamente decidido dar um tempo nas primeira voltas para depois fazer seu ataque. No entanto, na volta seguinte ele passou Seaman que, chegando na curva Coppice, recebeu o Auto-Union de Muller em cheio na sua traseira, acabando na área de escape. Como era de se esperar, no momento em que Seaman voltou à pista tanto Muller (cujo carro não ficou danificado) e Hasse tinham passado por ele. Era muita falta de sorte, porque além de ter sido atingido o tanque de gasolina, um dos amortecedores também tinha sido danificado.

Rudi pareceu ter adotado a tática de sentar e esperar, assistindo à confusão de camarote, porque primeiro deixou Brauchistch passar e depois Rosemeyer, de modo que na volta número 5 Lang continuava na liderança, 7s à frente de Brauchitsch, que por sua vez tinha 4s de vantagem sobre Rosemeyer. Certamente uma boa briga estava começando porque Rosemeyer pressionou tanto Brauchitsch que ambos se aproximaram de Lang e na 13a. volta Brauchitsch passou por ele, que tratou então de manter Rosemeyer sob controle até a 21a. volta.

Dick Seaman
Na volta 23 um dos pneus de Brauchitsch perdeu a banda de rodagem e ele veio para os pits por 35s. Mal Brauchitsch tinha acelerado e Lang entra para trocar pneus e reabastecer, além de ter sua suspensão dianteira examinada; assim, em duas voltas as posições tinham se alterado bastante, com Rosemeyer agora na liderança, 30s à frente de Caracciola.

Este recebeu o sinal para vir trocar pneus e reabastecer mas com muita sensibilidade decidiu não fazer isso até que um dos Mercedes voltasse a ficar a uma distância suficiente para ameaçar novamente Rosemeyer. Lang, que tinha caído para 7o depois do pit stop, teve de abandonar na volta seguinte com um amortecedor quebrado, sem dúvida devido a um salto com as quatro rodas no ar logo após a curva Melbourne. Seaman tinha conseguido ultrapassar novamente Hasse, mas era óbvio que alguma coisa estava errada com a sua suspensão e na volta 29 ele abandonava com um amortecedor se arrastando pelo chão. Isso era mais má sorte para Seaman e ainda pior para a Mercedes, que agora tinha apenas dois carros na pista.

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