George Monkhouse conclui a narrativa do GP de Mônaco de 1937, uma prova marcada pela dificuldade em se ultrapassar um tema que, se tornará muito popular num futuro distante…
Abraços
Carlos Chiesa
A largada ocorreu às 15h45 do domingo. As primeiras quatro filas eram formadas, pela ordem, por Rosemeyer (Auto-Union), Brauchitsch e Caracciola (ambos de Mercedes); Kautz (Mercedes) e Stuck (Auto-Union); Farina (Alfa-Romeo), Zehender (Mercedes) e Hasse (Auto-Union); Ruesch e Pintacuda (ambos de Alfa-Romeo).
Charles Faroux, uma figura imponente em flanelas brancas encimadas por um enorme chapéu, tinha vindo em pessoa dar a largada. Na opinião de muitos pilotos, ele é de longe melhor que todas as luzes coloridas e outros auto-denominados “largadores”, do mundo.
Assim que baixou a bandeira, Caracciola e Brauchitsch pularam para a liderança, mostrando todo o poder dos Mercedes, sendo seguidos bem de perto pelos Auto-Unions de Rosemeyer e Stuck mas já então surgia uma vasta lacuna até que o resto do grid aparecesse rugindo. Isto foi provavelmente causado por Hasse, que bateu seu Auto-Union na primeira volta.
Essas voltas iniciais foram tremendamente excitantes, particularmente porque Rosemeyer estava fazendo tudo que sabia para alcançar Brauchitsch, embora não parecesse conseguir muitos progressos.
Kautz, com Auto Union
Na décima volta, Kautz ganhou o quarto lugar, passando Stuck, enquanto Rosemeyer se aproximava de Brauchitsch, mas obviamente correndo muitos riscos. Logo depois, ele chegou ao grampo do Gasometro rápido demais e escorregou até os sacos de areia, o que não melhorou em nada a parte da frente do Auto-Union.
Rosemeyer não pode mais continuar, tanto assim que na 20a volta Kautz passou para terceiro, um minuto atrás de Brauchitsch. Farina já tomara uma volta dos líderes. Zehender, que vinha dirigindo muito consistentemente, passou para terceiro lugar quando Kautz parou nos boxes por dois minutos para checar as velas e Stuck para ajustar os freios.
Os italianos também tinham problemas. Pintacuda perdeu dois minutos nos boxes ajustando seus freios, Brivio abandonou com um radiador queimado e Biondetti com um motor estourado, o mesmo acontecendo com Sofietti, com seu Maserati vermelho e amarelo.
Na metade da corrida, quando ocupava o sétimo lugar, Stuck cedeu seu carro para Rosemeyer. Kautz havia parado novamente por causa das velas e Pintacuda perdeu mais quatro minutos para novo ajuste nos freios. Na 47a volta, o motor de Caracciola perdeu rendimento e, debaixo de tremendos aplausos, ele veio para os boxes, onde se descobriu que um parafuso tinha caído fora do tubo de indução. Isto foi devidamente reparado e o tanque completado com gasolina. O tempo gasto foi de 3m15. Assim, na volta 50, Brauchitsch liderava com 2 minutos de vantagem. Caracciola voltou para tentar reaver a liderança. Embora ele estivesse agora mais de uma volta atrás, Brauchitsch teria que parar para reabastecer. Farina, mesmo já 4 minutos atrás do líder andava como um raio, escorregando o Alfa em todo o circuito da maneira mais excitante possível.
Farina, com Alfa Romeo
Na 60a volta Rosemeyer parou novamente e devolveu o carro a Stuck; a ordem era Brauchitsch em primeiro, 1m34 à frente de Caracciola, Zehender em terceiro, Kautz quarto, com Farina em quinto e Stuck/Rosemeyer em sexto, cinco minutos atrás.
Um grande aplauso irrompeu na volta 69, quando Brauchitsch parou para reabastecer. Os mecânicos colocaram o combustível e correram para empurrá-lo de volta à pista apenas para descobrir que o carro não se movia, o freio dianteiro bloqueado. Os mecânicos martelaram febrilmente, mas levou um minuto e meio até que ele se soltasse.
Durante todo esse tempo Caracciola recuperara quase uma volta e todos os olhos se voltaram para o lado mais distante da enseada, até que ele apareceu repentinamente, numa perfeita derrapagem controlada, andando realmente rápido.
Conseguiria o Mercedes de Brauchitsch ser ligada novamente antes que Caracciola aparecesse? De repente o motor de Brauchitsch voltou à vida e o carro disparou. Quando passaram diante da cronometragem, Brauchitsch liderava um segundo à frente de Caracciola.
Começou, então, um dos mais excitantes duelos já vistos. Cada vez que os dois passavam pelos boxes, Brauchitsch era sinalizado por Neubauer para deixar Caracciola passar, mas sua única resposta era agitar o punho e por o pé ainda mais no fundo. Durante as oito voltas seguintes, Caracciola tentou passar Brauchitsch no grampo do Gasometro, primeiro por dentro, depois por fora. Brauchitsch se virava sorrindo e, assim que seu carro aprumava na reta, dava o máximo.
Isto é um exemplo de como é impossível para um piloto passar outro, assumindo que ambos têm carros de performance similar, a menos que o piloto da frente dê passagem. Brauchitsch não tinha intenção nenhuma de dar passagem mas na volta 80, Caracciola manobrou para passar depois da curva St Dévote e ganhou uma liderança por 0.3s, uma distância entre carros de menos de dois míseros metros. Boa parte da platéia ficou de pé durante essas voltas eletrizantes.
Caracciola havia quebrado o recorde da pista diversas vezes - na 74a volta ele marcou 1m46s5, uma média de velocidade de 107 km/h. Isso é quase inacreditável num circuito como Mônaco, especialmente se conseguido durante a corrida. Contudo, o esforço para o motor do carro de Caracciola nessas dez voltas foi demasiado e na volta 81 ele entrava nos boxes para trocar as velas, perdendo novamente e em definitivo a liderança para Brauchitsch.
Durante as últimas 20 voltas o Auto-Union com Rosemeyer ao volante estava fazendo um tremendo esforço para chegar ao terceiro lugar, tendo passado o Alfa-Romeo de Farina, e então prosseguindo em perseguição ao Mercedes de Zehender, o que conseguiu faltando quatro voltas para o final, mas falhando em alcançar Kautz.
Brauchitsch venceu com a velocidade recorde de 102 km/h, com Caracciola em segundo e Kautz em terceiro, duas voltas atrasado; o Auto-Union de Stuck/Rosemeyer foi quarto, três voltas atrás, e Zehender quinto. O primeiro Alfa-Romeo foi o de Farina, que tinha dirigido extremamente bem, e os seguintes a terminar foram Sommer, Ruesch e Pintacuda.
A Mercedes marcou um duplo “hat trick”. Não só ganhou a corrida pelo terceiro ano consecutivo como era a terceira vez que o fazia ocupando as três primeiras posições. Uma vitória, enfim, memorável.
Brauchtisch, o vencedor em Mônaco
Brauchitsch fez uma corrida impecável mas estava terrivelmente cansado no final, tendo de ser apoiado por Neubauer. Um dos primeiros a cumprimentá-lo foi Louis Chiron, que tinha estado em frenética excitação durante a corrida, a que tinha assistido ao lado de Lord Howe.
Eu passei a segunda-feira com alguns amigos na adorável piscina do Palm Beach Casino, em Cannes, retornando a Mônaco parecendo uma lagosta cozida!