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Apresentando o Gigante 16.05.07


Gosto de automobilismo desde antes de ter carro. Perto da casa dos meus pais tinha um hot-shop, do Sérgio Cabeleira, que preparava DKWs, onde eu ia timidamente bisbilhotar de vez em quando. Quando terminei a faculdade e comecei a trabalhar, pude pagar um curso de pilotagem em Interlagos, do Keko Pati, no qual não me sai mal.

Dinheiro para correr eram outros 500 mil, de que eu nunca pude dispor. Passa o tempo, perco o contato com gente ligada a corridas e resolvo procurar um mecânico para meu carro - mas um que tivesse uma ligação com o esporte. Um colega indicou o Gigante.

Começou na equipe DKW de fábrica, cujo principal mecânico era o famoso Crispim, que tinha ganho um prêmio Victor, da revista 4Rodas. O apelido Gigante começou aí. Como ainda era moleque, portanto menor que os outros, a piada era gritar “Gigante” e aparecer um garoto, vindo lá do fundo da oficina.

Quando cresceu, quis ser piloto também e acabou chegando na SuperVê, se roçando nas rodas de gente consagrada, Chiquinho Lameirão, por exemplo, e que iria se consagrar, caso de Nelson Piquet.

Sim, ganhou corridas. Depois virou chefe de equipe, em diversas categorias. Na Fórmula Ford, por exemplo, sua equipe foi campeã com três corridas de antecedência, um feito raríssimo, considerando a igualdade mecânica dos monopostos. Piloto da equipe? Um desconhecido brasileiro nascido na França, chamado Gil de Ferran.

Outros pilotos que trabalharam com ele? Eu vi Maurizio Sandro Sala lá, antes de ir pro Japão, e André Ribeiro teve a bondade de me dar uma carona, antes de ir para os Estados Unidos. Também vi Wilsinho Fittipaldi ir ouvir a opinião do Giga antes de uma prova de F-Indy ou Cart, não lembro a nomenclatura da época, na qual o Christian iria correr. Wilsinho: E aí, Gigante, o que ser decisivo na corrida de hoje? Giga: Os pretinhos, Tigrão (os pneus, pra quem está chegando agora).

Conclusão do currículo do Gigante: não só sabe preparar carros de ponta e inventar estratégias vencedoras, como tem olho de águia pra distinguir braço-duro de gente que sabe acelerar.

Já são mais de vinte anos que freqüento a oficina do Gigante, numa travessa da Rua João Cachoeira, perto do Hospital S. Luis, em São Paulo e ele consegue a proeza de me deixar invariavelmente feliz tanto com o serviço quanto com o papo sobre corridas.

Claro que eu ligo pra ele constantemente depois dos GPs, para aferir minhas impressões. Achei que seria valioso dividir isso com a seleta audiência do GPTotal. Aí vai um resumo de um dos nossos últimos papos.

Carlos Chiesa






Chiesa: o que te surpreendeu neste começo de temporada?
Gigante: nada. Estava claro que o Alonso seria o nº 1 da lista de candidatos a campeão mundial, fosse na Renault, fosse na McLaren. O baixinho é diferenciado mesmo. Também estava claro que seria impossível a Mercedes não resolver, um dia, os problemas de motor que vinha tendo.

Miguel assiste ao GP da Espanha
Também não me surpreendeu o bom desempenho do Kimi na Austrália. É bom lembrar que ele pulou direto da F. Renault para a F1 e não sentiu nenhuma diferença: encarou de igual pra igual todo mundo. Tenho a impressão de que o Massa tem um "coach", um orientador, para ajudá-lo nesta temporada, alguém que mostrou o caminho para ele se recuperar tão nota 10 nas últimas corridas. Tenho a impressão de que esse coach é o Miguel (Michael Schumacher).

Na Malásia, Massa tirou mesmo o pé na curva 1 pra evitar uma batida com o Alonso, hesitando um culionésimo pentesimal de segundo na hora de virar o volante - e foi ali que perdeu a corrida. Acho que ele tinha que fazer isso, porque havia mesmo o risco de, estando por fora, tomar um toque. Mas achei que o Raikonnen errou mais ainda, porque devia ter bloqueado o Hamilton.

No Bahrein, fiquei besta com a displicência do Raikkonen, especialmente na relargada. Se ele teve que poupar o motor na Malásia tudo bem, mas no Bahrein estava de motor novo! Não podia dar toda aquela distância.

As Ferrari pioraram com pneu duro e as McLaren melhoraram, isso ficou nítido pra mim. Nota 10 pro Luís Hamilton (Lewis Hamilton), esse menino realmente é especial. Alonso visivelmente tinha problemas de equilíbrio no Bahrein e acho que agiu certo ao permitir uma passada por fora, como levou do Heidfeld. É feio no nosso meio, é que nem tomar um drible da vaca no futebol, mas seguramente ele está correndo pro campeonato, tá enxergando pra bem mais de 100m.

A Ferrari sinaliza para Massa
Chiesa: e na Espanha?
Gigante: achei que o Alonso sabia que só tinha essa chance de ganhar a corrida e realmente tratou de usar seus dois títulos pra intimidar o Massa. Foi semelhante aquela arriscada do Massa na Malásia, só que o Alonso virou o volante e se deu mal. Possivelmente teve algum problema mesmo no seu carro, embora eu ache estranho ele andar mais lento somente no último trecho, num circuito onde só se vira pra direita. Não sei se vamos ficar sabendo realmente o que ocorreu com o McLaren. Alonso enxerga mais na frente do que os outros. Isso não ocorreu nesta corrida.

Penso que ele ficou tão focado em ganhar a corrida diante do seu público que acabou ficando um tanto fora do prumo. Veja, ele deu tudo que tinha pra fazer a pole, andou com tanque mais vazio e a viu escapar diante daqueles 150 mil torcedores, com alonsomania e tudo, loucos pra vê-lo mostrar porque é bicampeão, ainda depois de ter vencido o Schumacher. Deve ter pensado que tinha que mostrar que era macho na primeira curva, tentar intimidar o Felipe e assim transformar a única oportunidade que iria ter em vitória.

Acho que a Ferrari é superior à McLaren, mas muito pouco, assim como esta é superior às BMW, mas muito pouco. Em condição de corrida, essa diferença se mantém, talvez em escala um pouco diferente. É aí que o piloto faz a diferença: veja que estamos falando de diferenças de décimos de segundo, portanto são os detalhes, por mais ínfimos que sejam, que fazem a diferença. Nesse ponto o Felipe vem se saindo muito bem e continuo com a sensação de que o Miguel está dando orientações.

Chiesa: e quanto aos outros?
Gigante: fiquei decepcionado com o Kimi. Ele não me parece estar correndo como um candidato forte ao título. A diferença de combustível não era tanto assim. Não sei o que se passa com ele. O "Luís" é só alegria, está correndo sem nenhuma pressão. Não bate a roda, não estraga o carro, quase que nem suja a pintura... Já o Alonso, nesta corrida, agiu mais como espanhol, como ídolo diante da sua torcida e pensou menos no campeonato.

Button alinha para a largada
Achei uma pena, mas pena mesmo o que aconteceu com o Heidfeld. Você viu quantas voltas ele andou a mais que o Kubica? E vinha andando em tempos muito próximos. O Coulthard também fez uma corridaça, mostrando que essa é a equipe com maior potencial pra evoluir. O Mark Webber parece que se encaminha para o encerramento de sua passagem pela categoria. Quanto à Honda, mais uma vez o Rubens andou na frente no "Botão" (Jenson Button), e quanto ao carro, acho que acendeu uma pequena vela no fim do túnel. Ainda não é a luz que precisava mas é uma luz.

Quanto ao futuro, gostaria de fazer uma ponderação. Acho que o Briatore não tinha mesmo dinheiro na Renault pra segurar o Alonso. Tinha mais que deixar o espanhol ir embora, mas, como parece que ele tem direitos sobre a carreira desse piloto, colocá-lo numa equipe como a McLaren, que estava no fundo do poço mas que tinha grande potencial para crescer, é um bom negócio para a pessoa física Briatore. Para a McLaren, a aposta no "Luís" deve gerar um movimento pra baixar geral o nível de salário da categoria. Quem elevou os salários aos níveis atuais foi o Ayrton mas, hoje em dia, não há nenhum Deus vestindo roupa de piloto nas pistas, portanto tornou-se irreal pagar muito pelos caras atuais.

Niki Lauda cumprimenta Coulthard pela sua corrida na Espanha
Penso que o Alonso vai ganhar nesse nível por mais um 4 ou 5 anos e depois todo mundo vai ganhar salários bem mais baixos. Outro movimento interessante é o da STR. Dizem que o Todt está querendo comprar. Pois eu acho que o Michael está na parada. Ele tem dinheiro pra isso, o Todt não, muito menos o filho dele.

Chiesa: o que está errado com a equipe Honda, pra ter evoluído dessa forma, depois de ter vencido uma corrida no final do ano passado?
Gigante: muita coisa. Começa com a mudança dos pneus, vide Renault. Toda a informação que tinham de grip, de balanço do carro etc., foi tudo perdido. Quanto tem de pressão (downforce) e em que lugar do carro ela está aplicada, em quais situações? Arrumar essa historia é o segredo da F1 atual. Outro problema que vejo lá é a falta de especialistas que coordenem todos aqueles brilhantes engenheiros. É verdade houve uma melhora considerável com a vinda do Rubens. Antes não havia um piloto que soubesse dizer aos engenheiros o que precisava. O fato do “Botão” andar melhor que Rubinho em certas situações no ano passado se deve ao carro ter ficado de um jeito que o Button gosta. Eu acho que ele é um outro Coulthard. Quando o carro está do gosto, fica quase imbatível; quando não está, não se acha de jeito nenhum. Da parte do Gil, sei que ele pagou um preço alto por ter pedido a cabeça do Willis. O Gil sempre foi piloto, esse é o primeiro emprego dele e está apanhando com a política interna da equipe. Se a gente voltar um pouco no tempo e olhar a equipe Jaguar, vamos ver que o Bob Rahal e o Niki Lauda foram queimados em posição semelhante à dele. Mas o Gil é muito inteligente e aprende rápido, penso que ele vai se sair bem, como quando ele bateu o record mundial de velocidade em circuito fechado, record que ainda é dele. Precisava de talento, mas também de coragem e determinação.

Takuma Sato
Chiesa: como pode a equipe Toyota, depois de tantos cuidados e tanto dinheiro (lembra que eles treinaram sozinhos um ano inteiro?) obter resultados tão decepcionantes?
Gigante: talvez seja o mesmo problema da Honda, agravado pelo fator pilotos. Eu não coloco nenhum dos dois entre os 10 melhores. Eu não os contrataria para o meu time. O Ralph não consegue atingir o mesmo nível do irmão, nenhum dos dois parece ter o punch pra fazer o time atingir seus objetivos. Nesse ponto, a Honda está mais bem servida.

Massa, depois de um pit stop
Chiesa: até que ponto um piloto continua fazendo a diferença, depois que o Michael parou e os pneus passaram a ser de um único fornecedor?
Gigante: é o divisor de águas. Faz toda a diferença. Aumentou a importância de qualquer piloto que estiver um pouco acima dos outros, agora que o Miguel parou e deixou de ser a referência. Acho que o Alonso está pelo menos meio degrau acima do Kimi, Hamilton e Massa. O Heidfeld talvez esteja meio degrau abaixo do Kimi etc. Talvez o Kubica, pelo que mostrou no ano passado, venha a encostar no Heidfeld para só depois encostar nesse grupo.

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