George Monkhouse conclui a narrativa sobre a Coppa Acerbo.
Grande abraço
Carlos Chiesa
COPPA ACERBO – 15 de Agosto de 1937
A grande corrida de domingo foi precedida pela de 1.500cc. Durante a primeira volta houve um terrível acidente no qual quatro espectadores morreram, dois tendo as pernas decepadas. Isto não foi uma surpresa total para mim, porque durante os treinos eu tinha observado pessoas sentadas na margem das retas bebendo café enquanto Mercedes e Auto-Unions voavam a mais de 300 km/hoje a centímetros de distância deles.
A Mercedes de Seaman já tinha sido retirada da lista de inscrições e foi anunciado que a Alfa-Romeo de Farina não iria largar, o que não era de se estranhar, considerando sua performance nos treinos.
A frente das arquibancadas estava decorada com faixas de papel ostentando as palavras “Viva Nuvolari”, “Viva Rosemeyer”, “Viva Caracciola”, “Viva” todos os outros pilotos e “Viva Il Duce”. Um grande retrato desse último encimava os pits. Uma ameaçadora e desalinhada cerca de arame farpado tinha sido erguida entre a arquibancada e a pista para manter a multidão afastada.
Os grandes carros foram alinhados como se segue: Stuck, Caracciola, Rosemeyer, Brauchitsch, Muller, Nuvolari, Fagioli, Ruesch, Sommer e Belmondo.
Justo antes da largada, o Marechal Balbo chegou e apertou as mãos de todos os pilotos, com Nuvolari saindo de seu carro. Balbo é um grande entusiasta do esporte a motor e parece ser imensamente popular entre todos os pilotos.
Assim que a bandeira baixou, Caracciola, calmo como sempre, conseguiu colocar o nariz do seu Mercedes à frente dos dois Auto-Union, um de cada lado, e manteve a liderança até os carros desaparecerem de vista. Rosemeyer, no entanto, o ultrapassou e completou a primeira volta em 10m48, com Rudi apenas 2 segundos atrás. Stuck era o 3o, dezoito segundos atrás de Caracciola, com Brauchitsch a 15s. O resto do grid estava bem espalhado, com Nuvolari em 9o, 50s atrás de Rosemeyer, o novo Alfa obviamente se comportando mal. Rosemeyer então decidiu que Caracciola estava perto demais para seu gosto e pisou fundo, fazendo a segunda volta no tempo recorde de 10m36.
Na 4a volta, Brauchitsch ultrapassou Stuck, que perdia rapidamente rendimento devido ao motor de seu carro não estar funcionando muito bem. Nuvolari com o novo Alfa tinha grande dificuldade de ultrapassar Ruesch com um Alfa-Romeo oito cilindros, e na 5a volta veio para os pits, quando uma vela foi trocada e o carro passado a Farina. Foi um grande desapontamento para os italianos ver o seu herói Tazio abandonar tão cedo. Enquanto isso Sommer e Ruesch estavam tendo seu duelo particular, que terminou com Ruesch rodando na parte sinuosa da pista e tendo que abandonar.
A Auto-Union de Stuck apareceu nos pits na 6a volta, parecendo bem sem fôlego. Os mecânicos trocaram ambas as rodas traseiras, encheram o tanque de gasolina e trocaram um grande número de velas, enquanto Stuck conversava com sua esposa Paula e bebia uma garrafa de água mineral San Pellegrino. Essa parada durou 4m20. Ao ser empurrado de volta à pista, o Auto-Union brindou os espectadores com um espetáculo de fogos de artifício, o motor emitindo nuvens de fumaça e explosões intermitentes; muito excitante.
Stuck, apesar de tudo conseguiu se por a caminho, administrando como podia o equipamento nessa volta, antes de desistir de vez. Farina estava tendo outros problemas com o novo Alfa e abandonou antes da metade da corrida. Rosemeyer tinha aumentado sua liderança sobre Caracciola, e ao fim da sétima volta tinha aberto 58s.
Houve uma grande excitação ao cabo da 8a volta, quando os líderes eram esperados nos pits para pneus e gasolina. Repentinamente, Rosemeyer apareceu com um pneu traseiro absolutamente em pedaços e fez uma rápida parada nos pits da Auto-Union, sendo imediatamente seguido por Caracciola, que fez uma parada ainda mais rápida, recuperando 20s nessa operação, reduzindo a diferença para 38s. A multidão ficou obviamente agitada porque pareceu que Caracciola estava agora em condições de alcançar Rosemeyer.
O cenário mudou completamente quando os alto-falantes anunciaram que Rosemeyer tinha entrado no depósito de pneus da Auto-Union no lado oposto do circuito e que Caracciola tinha passado por ele e estava na liderança. Desnecessário dizer a excitação que tomou conta da arquibancada, mas como Rosemeyer tinha apenas trocado pneus, era um pouco difícil entender como tinha sido possível isto acontecer. Eu descobri depois, pelo próprio Rosemeyer, que ele sabia que tinha perdido muito tempo na 8a volta, tanto por vir lentamente para os pits com o pneu em pedaços como pela troca de pneus. Ele então partiu a toda pressa para aumentar sua liderança novamente. Freou tarde demais na seção sinuosa do circuito e atingiu o marco de 20 km da estrada com uma das rodas traseiras.
Felizmente, ele conseguiu trazer o carro de volta à pista e continuou, mas na marca do quilometro 13 (o número de sorte de Rosemeyer!) o pneu inteiro, com banda e porcas, voou para longe do carro, ficando apenas com o tambor de freio, e assim chegou até ao depósito de pneus 200 jardas à frente, com sua chegada sendo anunciada pela própria banda de rodagem, que chegou primeiro!
Uma nova roda foi então colocada e Rosemeyer partiu em perseguição a Caracciola, que a esta altura liderava com 31s de vantagem. Nem um pouco intimidado, Rosemeyer saiu no encalço de Caracciola e reduziu a distância para 17s no final da 10a volta. Assim que Caracciola passou pelos pits ficou claro que seu motor estava nas últimas e funcionando com apenas 7 cilindros - realmente muita má sorte!
Ao final da 11a volta, Rosemeyer e Caracciola apareceram juntos, com o último indo direto para os pits, gritando que um pistão tinha ido embora. Zimmer e Lindenmaier praticamente arrancaram o capô e trocaram as velas números sete e oito com grande rapidez. O carro foi empurrado novamente para a pista com o motor ainda engasgando. Caracciola completou mais uma volta e retornou aos pits, para passar o carro a Seaman.
Essa tinha sido a 13a volta, portanto alguma coisa iria acontecer com ele, e no meio do trecho sinuoso do circuito, o motor pegou fogo. Seaman desligou o carro, parou na descida e esperou as chamas se extinguirem antes de dar a partida novamente. Essa constante ignição de retorno, com as conseqüentes chamas no tubo de indução não apenas queimaram o capô até abrir um buraco como por pouco não sufocaram Seaman, que pode apenas administrar a “fritura” para chegar em quinto. Brauchitsch, que tinha pilotado com muita determinação, terminou 1m41 atrás de Rosemeyer, que venceu a 13a. Coppa Acerbo com a média recorde de 141 km/h. Muller, da Auto-Union, chegou em 3o, 6 minutos atrás de Rosemeyer, com Fagioli em 4o. O único carro italiano a terminar foi um Alfa-Romeo pilotado por Belmondo, em último, km atrás. Fagioli pareceu muito cansado e teve que ser retirado do carro.
Minhas atividades fotográficas eram de alguma forma interrompidas pela polícia, que estava muito alerta devido ao acidente na corrida de abertura.
Eu tinha caminhado até a grande chicane no fim da reta e fui prontamente retirado à força pela polícia e colocado atrás da chicane, onde eu nem podia ver a pista, quanto mais tirar fotografias, muito embora eu tenha gritado, em meu melhor italiano: “photografico!”
Quando eles não estavam olhando, eu tratava de galgar a chicane para tirar uma foto ou duas, e após uns 10 minutos decidi voltar ao circuito. Isto teve resultados desastrosos, porque fui imediatamente agarrado por dois agitados policiais, um dos quais eu soquei o queixo e o outro empurrei para dentro de uma bela e rasa poça d’água.
von Brautchitsch com Mercedes na Copa Acerbo de 37
Isto pareceu divertir à multidão mais do que a corrida, mas o resultado foi que tive que sair correndo a toda velocidade para os pits em busca de segurança. Lá eu reclamei com Agnoli, o assistente do diretor da prova, que me contou que exatamente a mesma coisa acontecera com ele, e que os pits eram o único lugar seguro do circuito desde que a polícia tinha se tornado agressiva. Isto me consolou, especialmente quando escutei que Fumagalli, o fotógrafo oficial da R.A.C.I., também tinha sido agarrado.
Os novos Alfa-Romeo, a respeito dos quais a imprensa italiana tinha feito tanto barulho, foram patéticos. Pode-se apenas esperar que a fábrica Alfa-Romeo tenha ficado tão desapontada quanto a multidão italiana que veio ver o novo carro, e Nuvolari, que teve que pilotá-lo.
Quando estava na Itália, perguntei a diversas pessoas quem eles consideravam ser o melhor piloto; muitos deles, patrioticamente, diziam: “Nuvolari”. A melhor resposta foi, creio, dada por um cavalheiro que resumiu assim a situação: “Rosemeyer diz que é o melhor piloto, Caracciola obviamente pensa que é mas, neste momento, Nuvolari sabe que é!”
Seaman e eu deixamos Pescara imediatamente após a corrida e passamos a noite em Riccione, um resort no litoral do Adriático com uma bela praia ideal para banhos. No dia seguinte nos dirigimos a Milão, onde ficamos por dois ou três dias, e fomos até o famoso circuito de Monza. Monza tem sido o Waterloo de muitos pilotos famosos, incluindo Materassi, Borzacchini, Campari e Czaykowski. Seaman me mostrou a árvore em que tinha batido, durante um treino no início do ano, e ainda haviam fragmentos de alumínio espalhados pela grama.
No tronco de outra árvore havia um divertido aviso a cerca de 1,2 metro de altura, dizendo: “Hans Stuck bateu aqui durante o Grand Prix da Itália, em 13 de setembro de 1936.” Desnecessário dizer que quem venceu naquele ano não poderia ter sido outro que não Rosemeyer, cujo número de sorte é o 13. Ele tinha se casado no dia 13 do mês e sua esposa freqüentemente usava um cachecol todo bordado com números 13!
Havia boas marcas pretas em diversas curvas, que disseram terem sido feitas por Nuvolari quando testava o novo Alfa-Romeo antes da Coppa Acerbo.
Nós saimos para Berna bem cedo na quarta-feira, passando por Lugano, onde mora Caracciola, e daí atravessamos os Passos Gothard e Furka. No topo de Furka desfrutamos um apetitoso almoço, no meio do qual o staff do hotel, de cerca de 20 pessoas, fez uma maravilhoso número de coral alpino com harmonia dividida em quatro partes, como despedida para um amigo do gerente. Eu tinha escutado coral alpino diversas vezes antes, mas nunca tão bonito quanto esse.
Depois de passar um tempo admirando e fotografando o glaciar Rhone e o cenário montanhoso que o cercava, nós subimos até o Passo Grimsell e depois descemos para Berna através de Interlaken.
Berna é certamente uma bela e charmosa cidade antiga, com suas ruas de pedras, figuras coloridas de ursos e anões, e o famoso relógio de torre encimado pela figura de um homem que bate as horas com uma marreta.